Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos – Parte 9

Publicado em 3 de janeiro de 2016 | Por Naka | Contos, Literatura, Manaus, Revoadas do Uirapuru

(Essa é a nona parte deste conto. Leia as outras aqui: Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4Parte 5Parte 6Parte 7 e Parte 8)

Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos

Parte 9:  Ensaios do Fim

Manaus, 14 de outubro de 1900

Os dois homens me seguiam em seus cavalos. A cada instante eles ficavam cada vez mais próximos. Eu não conseguia pensar. Era difícil raciocinar com tudo que estava acontecendo. Logo perderia o controle do Sr. Maldovan. Logo tudo estaria perdido. Eu não sabia o que fazer. Eu iria falhar mais uma vez e Helena estaria morta pra sempre.

E pior: eles poderiam matar o Sr. Maldovan antes que eu saísse e assim estaria morto também. Eu só conseguia pensar que falhei. Eu era o preferido de Helena e fracassei. Falhei em tão pouco tempo. Nem puder conhecê-la melhor ou conversar um pouco mais com ela ou saber mais sobre o que é um Wander ou sobre meus antecessores.

E Enis parecia tão próximo dela, como se tivessem vivido tantos anos juntos. Eles se conheciam tão bem. Devem ter passado por tanta coisa juntos.

E eu era apenas um idiota do século XXI que não sabia manter nada: Nem namoradas, nem empregos, nem amigos… desistia facilmente de tudo por causa do meu maldito ego. Tudo porque as coisas não aconteciam como eu queria.

Imagino que Helena deva ter me acompanhado desde pequeno e imagino o tamanho do seu desapontamento ao ver a pessoa que me tornei. Sim, eu desistia porque sempre achava que tinha outras opções… Opções melhores: uma namorada menos chata, um emprego menos tedioso, amigos mais solícitos.

Mas agora prestes a morrer no ano de 1900 em uma estrada que provavelmente se torne a Avenida Jornalista Humberto Calderaro Filho num corpo de um cinquentão que vive uma vida dupla que enquanto é o pai de família honrado de extrema direita também é o traficante amante da mulher mais desejada da cidade, percebo que poderia ter sido uma pessoa melhor. Ou pelo menos alguém que não se importe em estragar sempre tudo achando que algo melhor virá.

Estava reavaliando toda minha vida em instantes quando fui surpreendido por um pássaro. Um Uirapuru que cortava a minha linha de visão e pensamento. Ele parou na minha frente e olhei no fundo de seus olhos negros. Como o mais belo dos abismos infinitos.

Foi como se o tempo também tivesse parado por um segundo. Embora suas asas ainda batessem lentamente, todos estavam completamente paralisados. Olhei para meus perseguidores e eles também estavam parados. Um deles havia esticado a mão e por poucos centímetros não me alcançava.

Ouvi uma voz de uma criança em minha mente, uma provável garotinha que deveria ter pelos seus nove anos falava telepaticamente através do Uirapuru.

– Não tema o passado… nem o presente e tão pouco o futuro. O tempo é uma brincadeira engraçada para nós, Liam. Porque se deter tanto em um único ser, se você pode ser vários?! – disse a garotinha.

E antes que pudesse dizer qualquer coisa, o Uirapuru se afastou como a única criatura que se movia naquele momento. E foi em direção à mata.

Apesar de paralisado, eu podia acompanhar com os olhos o pássaro sumindo na mata e de onde o pássaro sumia, vi uma onça pintada sair de lá e vir em minha direção. E ela me olhava como quem se entregasse a mim.

E antes mesmo que pudesse notar, já estava nela e olhava por seus olhos em uma conexão extremamente forte. Muito mais potente que qualquer vez que estive em um ser humano. Sentia que meu tempo ali duraria muito mais.

O tempo voltou a correr normalmente e um dos capangas alcançou o Sr. Maldovan, fazendo com que ele caísse do cavalo. Sem esperar mais, pulei no pescoço do homem que vinha mais atrás fazendo com que chamasse a atenção do que havia derrubado o Sr. Maldovan.

Caí por cima do homem que caiu de seu cavalo e pela primeira vez sentia o pescoço de alguém em minha boca. E a mandíbula era tão forte e o pescoço tão frágil que era quase como morder um pedaço de gelatina, ao mesmo tempo que sentia a pulsação do homem diminuir rapidamente.

Foi preciso apenas poucos segundos para destroçar seu pescoço e jorrar sangue para todo lado. Imaginei a visão do outro capanga ao ver uma onça toda ensanguentada olhando fixamente para ele com quem avalia a próxima vítima. Ele já não prestava mais atenção no Sr. Maldovan que, aterrorizado, subia novamente em seu cavalo e partia para o mais longe possível dessa cena.

Quanto ao último capanga, ele caiu de seu cavalo aterrorizado se arrastando pelo barro sem muita ação. Caminhei então lentamente em sua direção aumentando mais ainda o terror e desespero que crescia dentro dele.

O Sr. Maldovan estava salvo. Tudo voltaria ao normal e eu só precisava “cuidar” dessa última testemunha em seus poucos segundos de vida.

Manaus, 23 de novembro de 2015

Já havia mais de nove dias desde que voltei de 1900 e nove dias que não conseguia mais voltar para lá. Foi como se tivesse perdido meus poderes e habilidade de alguma forma que não poderia entender.

Sentia como se o contato com o uirapuru fosse uma benção recebida que custasse, naquela situação desesperadora, o sacrifício de nunca mais ser capaz de vagar novamente.

Havia tentado de tudo: usar as palavras de ativação, buscar links mentais com Enis… Sr. Maldovan… Helena! Nunca mais senti nada vindo dela. Não sabia se ainda estava viva ou onde poderia estar. Era tudo muito confuso e isso me consumia diariamente.

Era estranho seguir minha vida normalmente. A mesma rotina. O trânsito, o trabalho, as pessoas. De uma certa forma que não podia explicar, era como se não me sentisse mais parte dessa realidade.

É como se minhas aventuras fossem minha vida. Em 1900 tudo era fantástico… cheio de aventuras e perigos… Extremamente oposto à minha rotina diária.

Tentei então reparar meus estragos na minha vida pessoal. Dedicara-me mais ao trabalho, voltei a falar com amigos antigos e há alguns dias venho conversando novamente com Silvia.

Havíamos apenas conversado virtualmente desde o término e ela parece acreditar na minha mudança ou pelo menos queria ver até onde eu ia com minha possível “presepada” como ela costumava dizer.

De qualquer forma nos encontraríamos hoje pela primeira vez ao vivo para conversarmos e ela avaliaria se voltaríamos ou não.

A busquei no horário marcado. O que já a impressionou pela pontualidade que ela fez questão de comentar com muita ironia (e admiração). Tivemos uma conversa agradável sobre o que fizemos nesse interim enquanto nos dirigíamos à Trattoria da Margô, seu restaurante preferido.

E ao revelar o restaurante ela se mostrou surpresa por eu ainda lembrar seu lugar favorito. Sim, eu tinha tudo em minha mão. E uma boa massa e algumas taças de vinho a fariam perceber o quanto havia mudado e quanto estava disposto a tê-la de volta na minha vida.

 Chegamos e fomos para a mesa que reservei e ela sabia que eles não faziam reservas. Uma coleção de músicas italianas tocava a meu pedido. É incrível o que a boa conversa de um homem em redenção pode render.

Sabia que não se devia pedir para voltar assim diretamente. Não é assim que funciona. Existia um longo caminho a percorrer antes que tocasse no assunto. Sabia que deveria deixar as coisas acontecerem e deixar as duas taças de vinho amolecer sua raiva. Talvez devesse deixar rolar o que tivesse que rolar e nem sequer tocar no assunto de voltar. Os fatos e as reações de Silvia diriam por si.

Já após a primeira taça ela já abriu um sorriso. E nesse momento vi que seria uma noite promissora. Estávamos lembrando as cenas engraçadas que vivemos em todos esses anos que estávamos juntos quando senti um leve estalo na minha cabeça. Como um aviso da minha intuição: algo estava errado.

Olhei para trás e vi um homem vindo sozinho por uma daquelas ruas escuras e desertas caminhando em direção à Trattoria sem pressa, mas incisivo e concentrado. Eu sentia que o conhecia, embora fosse incapaz de reconhecer seu rosto.  

– Olá, Liam! Você é realmente um homem difícil de encontrar! – a voz de Enis ecoava em minha mente. – finalmente você será meu! – continuou enquanto sorria ao longe.

Não entendia como Enis estava aqui! Como ele me achou? Como ele sabia de que época eu era? Como me encontrou? Nada estava fazendo sentido. Mas eu precisava sair dali.

– Silvia, me perdoe. Eu preciso ir. Depois eu explico tudo. Prometo! – disse enquanto levantava da mesa e corria para o carro.

– Típico!!!! Aposto que vai atrás de alguma piriguete! E pra variar eu vou ter que pagar a conta! Claro! Era bom demais pra ser verdade, Sr. Liam! – Silvia esbravejava enquanto ia embora. Com sorte, Enis a ignoraria.

Arranquei com o carro em direção oposta a de Enis que parou no meio da rua e me observava. Ao olhar pelo retrovisor, vi um Honda Accord preto parar ao seu lado e enquanto ele entrava, quatro homens em motos o escoltavam vindo em minha direção.

Começou então uma perseguição acirrada entre meu golzinho e as Kawasakis dos servos de Enis. E esses eram melhores. Mais profissionais. Não eram tão imprudentes quanto os de 1900. E tudo isso sendo acompanhado pelo Accord ao longe.

Eu desviava da forma que podia naquelas ruelas do Parque Dez. E não podia fazer o que fazia em 1900 porque estava no meu próprio corpo, era minha vida, minha realidade. Não podia simplesmente sair desse corpo. Era uma situação totalmente diferente e estava em plena desvantagem.

O pior é que não conhecia muito bem aquelas ruas. Imaginava que alguma delas sairia em alguma via principal. Até que sai na rua daqueles barzinhos do Kapela. Acelerei. Ali já conhecia. Precisava acelerar naquela curva e me distanciar deles.

Mas ao fazer a curva, um ônibus apareceu em sentido contrário naquela rua tão estreita. Colidi violentamente com o ônibus. E assim tudo ficou escuro. tive alguns flashs ao me ver com o rosto no volante, depois ver as motos parando na frente do meu carro já sem para-brisa, o sangue quente escorrendo da minha cabeça e turvando minha visão, em seguida eu sendo retirado para fora do carro pelos servos de Enis e tudo escurecendo novamente.

Acordei com o sol em meu rosto. Não sentia dor alguma e não havia sangue. Estava amarrado, amordaçado e sentado em uma cadeira no centro de uma sala. Pela vista da Bola do Coroado que via da janela parecia que estava por volta do décimo andar no Condomínio Modigliani. Minha vista ainda estava turva e não conseguia ver muito bem os detalhes. Mas vi alguém se aproximar e colocar a mão em minha cabeça. Relutei em me afastar. Ele insistiu em segurar meu rosto.

“Como disse, Liam… você é realmente um homem difícil de encontrar”.

Sobre o Autor

Contador, Cozinheiro, Vocalista, Ator, Roteirista, Diretor de Esquetes de Humor, Escritor, Colunista e mais outras coisas que não consigo lembrar.

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