Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos – Parte 5

Publicado em 6 de dezembro de 2015 | Por Naka | Contos, Literatura, Manaus, Revoadas do Uirapuru

(Essa é a quinta parte deste conto. Leia as outras aqui: Parte 1, Parte 2, Parte 3 e Parte 4)

Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos

Parte 5: Inimigo Revelado

Manaus, 03 de novembro de 2015

Acordei como naquelas vezes que você desperta no susto após sonhar que está caindo de um lugar bem alto. Mas não estava tão exausto como na última vez. Conseguia me mover mais rápido e meus reflexos estavam respondendo quase automaticamente. Devo estar me acostumando, ou talvez aquela sensação horrível só ocorra quando eu mudo consideravelmente o rumo da história. Não podia ser algo simplesmente aleatório, sentia que tudo isso estava interligado.

Olhei rapidamente ao meu redor e estava em casa. Na mesma hora liguei para minha mãe, descobrindo que estava tudo bem. Um grande alívio me tomava. Ao que parecia, tinha consertado tudo. Precisei de alguns minutos para recuperar o fôlego.

Comecei a olhar atentamente para o meu apartamento. Tudo estava no seu devido lugar. Será que deu realmente certo? Será que o cocheiro estava destinado a não interferir no curso da história depois daquele dia? Eu precisava sair e ver pessoas, os carros… a cidade. Precisava ter certeza de que tudo estava normal.

Dirigi a esmo por algum tempo e, conforme via o movimento dos carros e as pessoas na rua, sentia um conforto que me tomava cada vez mais. Passei pela Praça Jeferson Peres e pelo Centro da cidade. Sempre tive uma grande fixação por lugares momentaneamente desertos que costumam estar cheios de pessoas boa parte do dia. Passei também pela Avenida Eduardo Ribeiro. Comecei a perceber que nunca mais olharia essa avenida da mesma forma.

Decidi então andar pelo Largo São Sebastião. Não importa quantas vezes venha a esse lugar, é sempre uma atmosfera diferente. À noite sempre sinto essa sensação de que estou em outro lugar. Até o clima é mais ameno. Gostava de passar por ali quando tinha ensaio do Festival de Ópera, ouvindo de fundo a orquestra e os cantores.

Estava divagando sobre tudo que acontecia. Tudo ocorreu tão rápido que mal tive tempo de pensar e analisar com calma. Tudo parecia ser muito maluco e gostaria de verdade que tudo fosse um sonho. Já fui e voltei àquela época tantas vezes e até agora não descobri porque fui escolhido. Lembrei-me da ruiva ter mencionado que era o preferido dela. Devem ter existidos outros por ai. Seja agora por aí ou antes de mim.

Meus pensamentos foram interrompidos por um senhor que parecia um morador de rua. Com longos cabelos brancos que pareciam não ser lavados há muito tempo, estava descalço, extremamente sujo e carregava uma sacola enorme. Sua coluna parecia sofrer com esse peso que deduzi conter suas maiores posses. Ele vagava pelas lixeiras procurando qualquer coisa que tivesse alguma utilidade pra ele.

Ele me lembrava muito o cocheiro do último sonho. Era como se visse algo familiar nele. Então me aproximei, tirei vinte reais que tinha no bolso e dei a ele. Não sou alguém que ajuda as pessoas. Na verdade Silvia terminou comigo justamente por eu ser tão egoísta. Mas não fazia isso por esse senhor, sabia que estava fazendo por mim. Não me importava se ele iria gastar tudo com bebidas ou drogas ou seja lá o que poderia ajudá-lo a fugir da realidade. Eu sabia que isso não resolveria a situação desse homem. No máximo traria um alento imediato. Uma solução paliativa. Mesmo que gastasse com comida. Seria temporário. Ele precisaria de mais.

Essa sensação de impotência apertava meu peito por não poder salvar a vida de alguém. É sempre tão fácil destruir a vida de alguém e tão difícil salvá-la. Havia condenado a vida de um senhor inocente em 1900. Mesmo que todos um dia estejamos destinados a morrer, não sou eu quem deveria decidir isso.

O senhor pegou o dinheiro e agradeceu, extremamente tímido e sem graça. Era como se seu comportamento quisesse justificar que os infortúnios de sua vida que o levaram a estar ali, naquele momento, lhe traziam grande arrependimento e culpa.

Sabia que não era uma situação rotineira para esse homem receber “tanto” dinheiro assim e ele fazia de tudo para esboçar agradecimento embora não quisesse parecer pedante. Éramos dois perdidos em uma situação rara. Despedi-me e o desejei sorte. Sim, nessa vida precisamos de muita.

Isso tudo me fez notar que embora não seja ninguém, agora poderia fazer a diferença para alguém. Embora seja tão delicado tentar ajudar ou salvar alguém, eu precisava tentar.

Vou pelo começo! No primeiro “sonho” eu voltei como um garoto que chegava em Manaus e escondeu o pingente, mas depois foi pego pelos seguidores da ruiva.

Aguarde, garoto! Já estou indo…

Manaus, 15 de outubro de 1900

Estava correndo, desviando das pessoas. Ninguém parecia me notar. Havia voltado à Av. Eduardo Ribeiro. Vestia roupas escuras, embora leves. O cheiro era horrível. Como aquele odor de roupa escura em que o suor secou e foi suada várias outras vezes. O homem que a usava parecia não se importar.

Não, não havia voltado ao garoto. Pelo visto uma vez que “ocupo” alguém não posso voltar pra ele outra vez. Mas essa roupa era familiar. Eu era um dos perseguidores da ruiva e estava indo em direção ao Teatro Amazonas. Hesitei. Ainda não iria controlar o homem. Como meu tempo no controle é curto, preferiria esperar. Quando for a hora certa, irei interferir e salvar o garoto.

O homem seguiu contornando o Teatro… iria encontrar o garoto em instantes. Era estranho não ser notado. As pessoas olhavam para o garoto correndo, mas ninguém olhava para mim. O silêncio na casa dos Maldovan e a habilidade de passar despercebido por entre as pessoas parecia estar interligada de alguma forma.

Ele esperou e se escondeu na esquina em uma das paredes, surpreendendo assim o garoto. Ele segurou o garoto pelos braços e o prendeu contra a parede, perguntando incisivamente sobre o pingente. O garoto disse ter deixado cair enquanto corria. O homem então o revistou sem sucesso.

Arrastou o garoto, refazendo o caminho que o mesmo havia feito, procurando o pingente pelo chão enquanto o garoto lutava numa tentativa de escapar, se aproveitando da distração do homem.

O garoto gritava, mas ninguém parecia ouvir. Após alguns metros, deduziu que o garoto havia escondido em algum lugar. Senti que poderia mudar isso. Sugeri para o homem que o garoto não havia escondido, mas sim deixado cair e algum transeunte pegou.

O homem pareceu acreditar e deixou o garoto ir. Havia perdido interesse no garoto e começava a olhar as pessoas que passavam, se alguma se distraía com algo em suas mãos. Já começava a ser visto pelas pessoas como se o efeito do que o tornara “invisível” houvesse dissipado.

Viu um jovem muito magro sentado no chão, encostado na parede de uma mercearia, como se estivesse ali há muito tempo. Tinha traços indígenas e estava bastante debilitado. Extremamente magro, não conseguia mexer as pernas e expressava uma dor constante. Parecia sofrer de Beribéri seco: uma doença caracterizada por falta de vitamina B1, muito presente à época principalmente por ser possível pegá-la comendo peixe. Lembrei dos trabalhos do ensino médio que foram sobre doenças dessa época.

O homem então se aproximou do jovem enfermo, perguntando se havia visto alguém se abaixar para pegar algo do chão. O jovem então balbuciou algumas palavras inteligíveis. O estágio da doença estava bem avançado. E ele não era o único enfermo nas proximidades. Ao olhar no seu raio de alcance, várias pessoas se escondiam pelas vielas e ruas menores, apodrecendo entregues à sua própria sorte.

Não tinha reparado antes, mas percebeu que a Manaus Belle Époque não era apenas glamour. Havia uma maioria que sofria. Pessoas doentes e pobres eram maioria e tentavam sobreviver no contraste com uma minoria rica que detinha o controle da cidade e de tudo à minha volta.

Mas antes que continuasse a pensar sobre as mazelas dessa época, percebi que o homem havia notado que os dois demais seguidores o haviam encontrado e vinham em sua direção.

Conversaram brevemente que haviam perdido a ruiva de vista quando ela derrubou um dos “nossos” na carruagem, frustrando a tentativa de sequestro da senhorita Maldovan, assim como a perda do amuleto, o que gerou uma grande preocupação entre todos e um “nosso patrão vai nos matar!”.

Senti que estava evoluindo. Se continuasse nesse homem, poderia descobrir algo significativo sobre os perseguidores e seus motivos. A ruiva iria se orgulhar de mim e, quem sabe, me daria mais respostas.

Os três seguiram para dois cavalos que estavam presos na beira da rua e foram juntos para os limites de Manaus. Logo chegaram numa mansão situada há uns doze quilômetros do centro, em meio a ruas de barro e floresta. Deduzi estarmos no que seria o Parque Dez. A mansão tinha muito da arquitetura francesa do século XVIII. Com um jardim perfeitamente cuidado e um chafariz no centro da área, que antecipava a mansão que tinha grandes pilares brancos, como tudo que havia além do verde das árvores e gramas.

Eles deixaram os cavalos com um empregado que os recepcionou e caminharam a passos rápidos para dentro da mansão.

Por dentro era ainda mais fantástica. Bustos decoravam a base da longa escadaria que se dividia em duas, levando para os dois lados do piso superior. Nas paredes quadros belíssimos, embora não reconheça nenhum que tenha visto na internet. Tapetes pesados e cortinas mais pesadas ainda me faziam achar que estava dentro do Teatro Amazonas.

Eles seguiram pela escada para a parte direita, entrando em uma sala que parecia um escritório. Um homem estava de costas, pintando um quadro com traços renascentistas. Uma mulher de longos cabelos pretos banhava-se em um rio cheio de animais ao redor. Parecia uma versão da branca de neve, embora seus traços me lembrassem a ruiva.

O homem parecia ter seus quarenta anos e um metro e oitenta, além de longos cabelos pretos que não me deixavam ver seu rosto. Os homens se inclinaram em linha, relatando as falhas ocorridas. O “patrão” parou de desenhar e guardou seu material de pintura.

Ao virar, percebi que ele escondia o rosto em uma máscara daquelas que usavam em bailes de máscaras da época. Mas a máscara parecia muito melhor trabalhada. Como gesso de alta qualidade, tinha o formato de um rosto inteiro. Ao redor dos olhos, pequenos cristais do que presumi ser turmalina negra, a enfeitavam.

Ele se aproximou lentamente, analisando cada um de nós. Mencionou calmamente, com pleno sadismo em sua voz, que se falhassem de novo iriam sofrer castigos e torturas inimagináveis. Entretanto, parou de falar quando se pôs em minha frente.

Ele me olhava atentamente. Era como se pudesse me ver dentro daquele homem. Seus olhos azuis eram hipnotizantes. Ele então tocou no rosto do meu hospedeiro e automaticamente me senti preso, como se não pudesse sair. Sentia que não podia controlar o rapaz e tão pouco voltar para 2015. Sentia agonia, aflição, tentava me debater e encontrar uma forma de me soltar.

– Mas vejam só que surpresa inesperada! Senhores! Nosso prejuízo não foi dos maiores! Vocês me trouxeram o escolhido de Helena! – ele disse, olhando para os demais serviçais.

Ele se inclinou,segurando a cabeça do meu hospedeiro com as duas mãos e disse, olhando no fundo dos meus olhos:

“Não se preocupe! Você AINDA não vai morrer! Tenho grandes planos para você, Liam!”


Para ler a parte 6: clique aqui

Sobre o Autor

Contador, Cozinheiro, Vocalista, Ator, Roteirista, Diretor de Esquetes de Humor, Escritor, Colunista e mais outras coisas que não consigo lembrar.

Comentários

  • Naildo Aguiar Cordeiro

    Lembro com saudades da epoca em que o Nakamura postava no face quando ele havia escrito os caps das Revoadas para que seu publico cativo pudesse ler em primeira mão…
    Bons tempo…
    (LOL) ¬¬

    • hahahahahah eu postei sim. =)