Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos – Parte 1

Publicado em 8 de novembro de 2015 | Por Naka | Contos, Literatura, Manaus, Revoadas do Uirapuru

Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos

Parte 1: O Pingente

Proximidades de Manaus, 15 de outubro de 1900.

Acordei com os gritos de euforia dos passageiros ao meu redor.

Todos estavam ansiosos após incontáveis dias navegando e a visão de terra-firme no início dessa manhã era algo simplesmente fantástico.

– Até que enfim acordou, Rapaz! Vamos! Já estamos chegando à Cidade de Manaus! – Berrou sem hesitar o contramestre com seu francês sofrível e um humor inabalável.

O contramestre Jean, como preferia ser chamado, era uma figura tão icônica quanto sua longa barba grisalha. Dotado de uma energia infinita, quando não estava gritando com algum marinheiro, cantarolava para o céu. Dizia que era assim que atrairia Iara. Embora achasse improvável existir alguma forma de atração em sua voz grave e torpe.

Enquanto ele tagarelava, chequei se meus pertences permaneciam em meu bolso e tudo parecia estar lá, a carta surrada e um bilhete escrito:

Sra. Lorraine Esmé

Avenida Eduardo Ribeiro

Cidade de Manaus

Abrira novamente o bilhete para reforçar a memória do nome que deveria procurar.

– Sra. Lorraine Esmé? É ela quem procuras? Por que não disse antes? – Comentou o contramestre Jean, indiscretamente.

– você a conhece? – perguntei surpreso.

– Mas é claro! Quem não conhece a mulher mais charmosa e poderosa de Manaus? Sua postura é firme como as longas vigas da Torre Eiffel, sua delicadeza é como a fragilidade da mais sutil gota de orvalho de cada primavera, suas curvas são como… – Ele parou ao perceber que estava indo longe demais com os elogios. Pigarreou.

– Como eu dizia… Boa parte das “encomendas especiais” que trazemos é para ela! Faremos assim então: quando aportarmos venha comigo! Levarei você até ela! Em todo caso, uma ajuda extra é sempre bem vinda!

Ao atracarmos no Cais da Imperatriz esperamos todos os passageiros descerem e começamos assim a descarregar as encomendas. As caixas da Sra. Esmé estavam marcadas com as suas iniciais, “L. E.” e exalavam um cheiro que era incapaz de identificar, embora extremamente agradável. Assim, as separamos e nos encaminhamos para o centro da cidade.

Vapores, bondes, cavalos, carroças, pessoas por todos os lados… Nobres conversando em inglês, marinheiros em espanhol, madames e polacas em francês… Uma explosão de diversidade cultural, como nunca antes vira na vida, me deixava cada vez mais impressionado com tudo aquilo. Mas entre mulatos, negros, cafusos, caboclos e brancos, todos comentavam apenas sobre uma única coisa: o suicídio do ex-governador Eduardo Gonçalves Ribeiro.

Não sabia quem ele era, mas parecia ser alguém influente e famoso. Algumas pessoas até ensaiavam lágrimas e cenas de drama envoltas em profundo pesar, embora outras falassem de sua morte com leve satisfação. De qualquer forma, não era algo que despertasse meu interesse a ponto de procurar saber mais.

Era difícil se mover entre essa multidão e caminhávamos a passos curtos. Até que, de repente, alguém esbarrou em mim: uma mulher de longos e ondulados cabelos de fogo com seu vestido branco com detalhes em azul marinho nas bordas e na sua gola. Tinha sardas que realçavam mais ainda sua pele impecavelmente branca, traços afilados que acentuavam sua beleza em seu corpo esbelto. Devia ser um pouco mais alta do que eu e, ao esbarrar em mim, seu chapéu de abas largas caíra no chão, desfazendo o arranjo de flores e soltando um pingente que se perdia entre as margaridas.

Ela olhou pra trás. Três homens a seguiam. Ela então olhou pra mim em desespero. Hesitou. E continuou sua aparente fuga se perdendo entre os transeuntes locais.

Não entendia como uma mulher de roupas tão elegantes pudesse correr daquela forma, e o que mais me impressionava é que tampouco alguém parecia se importar com aquela cena inusitada. Era como se ela fosse invisível e só eu e seus perseguidores a vissem.

Abaixei-me como quem tentava recompor o chapéu, peguei o pingente e percebi que um dos homens me olhava fixamente enquanto vinha em minha direção. Não pensei em nada e apenas corri em direção ao que o contramestre chamou de Teatro Amazonas quando me apontou antes de aportarmos. E nesse instante, o mesmo me olhava sem entender, enquanto me distanciava dele cada vez mais.

Cheguei atônito às paredes do Teatro e pensei ter despistado meu seguidor. Decidi olhar mais de perto o pingente: ele era redondo com escritas ao redor em uma linguagem que não podia entender. E no centro uma esfera translúcida com fundo escuro. Com certeza devia valer um alto preço e mais ainda para a misteriosa mulher de cabelos vermelhos. Mas não poderia me preocupar com isso agora. Precisava escondê-lo.

Achei uma fresta na parede e presumi que ali estaria seguro. O escondi. E decidi voltar ao ponto onde me perdi do contramestre na esperança de reencontrá-lo. Mas não precisei me distanciar tanto para perceber que meu seguidor havia finalmente me reencontrado.

Manaus, 26 de outubro de 2015

Acordei atrasado novamente e aquele sonho confuso com a Manaus Belle Époque me deixou desnorteado por mais tempo do que imaginava. Não acreditava chegar a tempo de ver o começo de “Azul Resplendor”, mas precisava tentar senão Silvia me mataria.

No caminho para o Teatro Amazonas tentava justificar a coincidência do sonho com o evento desta noite. Era a única explicação plausível. E mal estacionara, já avistava Silvia com uma cara de quem queria me esfolar, delicada e lentamente, com as pontas de suas unhas tão afiadas, enquanto sorria sadicamente. Foram as suas ligações que me acordaram, e as 30 mensagens não lidas no Whatsapp que me fizeram perceber o quanto estava encrencado.

Silvia era um pouco mais baixa que eu, sua cintura era fina e seu largo quadril era minha maior fonte de inspiração para esses três anos de um namoro tão conturbado. Era morena cor de jambo e seus longos cabelos pretos e cacheados eram motivo de orgulho a ponto de recusar qualquer forma de alisamento. Sim! Uma mulher de personalidade forte, e eu a amava mais ainda por isso, embora negue eternamente.

Mal me aproximei e ela virou as costas pra mim e seguiu em direção ao Teatro. Apreciava seu “silence treatment”. Acredite: era a melhor parte! Como a calmaria antes da tempestade, eu sabia que antes que a noite acabasse eu iria me arrepender amargamente por esse atraso.

Caminhávamos a passos rápidos: ela na frente e eu tentando alcançá-la. Mas quando passamos pela mesma parede do meu sonho, parei. Seria possível? O pingente? Aproximei-me da mesma fresta e estendi minha mão na esperança de… Sim! O pingente estava lá. Exatamente como no meu sonho.

Mas que merda está acontecendo aqui?!


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Sobre o Autor

Contador, Cozinheiro, Vocalista, Ator, Roteirista, Diretor de Esquetes de Humor, Escritor, Colunista e mais outras coisas que não consigo lembrar.

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