Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos – Parte 3

Publicado em 22 de novembro de 2015 | Por Naka | Contos, Literatura, Manaus, Revoadas do Uirapuru

(Essa é a terceira parte deste conto. Leia as outras aqui: Parte 1 e Parte2)

Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos

Parte 3: Respostas que dançam na Espiral do Destino

Esfreguei os olhos e forcei a vista como quem tentasse discernir possíveis efeitos alcoólicos e realidade. Não conseguia acreditar no que acabara de ouvir. Como seria possível ela saber sobre meus sonhos? Ela provavelmente deve estar brincando. Nem deve saber do que estou falando. Mas como quem pudesse ler meus pensamentos, Ana parou de sorrir embora continuasse a me olhar fixamente.

– O que você está dizendo, Ana? Como você pode saber do que estou falando? – Respondi extremamente confuso.

– Liam! Aqueles não eram sonhos! Você é um Wander! Uma pessoa capaz de viajar no tempo através do seu inconsciente pelos olhos de outras pessoas! Eu sei! É complicado! E eu realmente não tenho muito tempo! Você precisa acreditar em mim! Ou você acha que a pequena Ana saberia tudo isso? Eu também posso vagar e é por isso que deixei o pingente cair pra você pegar!  – A pequena Ana falava como se fosse realmente outra pessoa.

Estava em choque e tentava digerir tudo aquilo aterrorizado, surpreso, confuso… havia tantas perguntas! Mas ela continuou.

– Na verdade aquele não é um simples pingente. É um amuleto que permite desenvolver sua capacidade de vagar pelo tempo! Eu infelizmente não tenho todas as respostas. Apenas sei que é possível também controlar o “hospedeiro” que você habita durante sua viagem. Assim como estou fazendo com a pequena Ana!

Ela continuou: – Com o tempo você vai aprender mais. Infelizmente não consigo controlá-la por muito tempo! Para usar o amuleto você precisa segurá-lo. E pensar na época e se possível na pessoa que gostaria de habitar. O que implica que você precisa saber quem é a pessoa! Lembre-se: concentração é fundamental! E ao segurar o amuleto diga essas quatro palavras pausadamente:

gûyrá nhe’eng gûatá Îy

Eu prestava atenção como uma criança que acabava de ganhar um brinquedo novo e não via a hora de testar. Embora ainda tivesse muitas outras perguntas: Como fui parar a primeira vez em 1900 sem o pingente? Por que eu? Existem outros além de mim? Eu posso ir pra qualquer época? Eu posso vagar por qualquer pessoa? Inclusive personagens históricos? Posso ir pra outras épocas? Outros lugares? O que essas palavras significam? E quem é ela? Por que ela estava fugindo? Quem eram aqueles caras que a perseguiram? Como que ela.. meus pensamentos foram interrompidos quando ela parecia se despedir:

– Preciso ir agora. Te vejo em 1900? – ela disse, voltando a sorrir.

Mesmo com tantas dúvidas, sabia que poderia explorar sobre o pingente sozinho. Embora arriscado, poderia conseguir as respostas que procuro com o tempo, mas não sabia nada sobre ela. Quem sabe seu nome poderia me ajudar a pesquisar na internet. Pelo menos saberia se havia alguma notícia sobre ela:

– E qual seria seu nome, ruiva misteriosa? – perguntei num último esforço de manter o contato.

E antes que a pequena Ana desmaiasse e caísse na areia, ela disse:

“O que fez você achar que meu corpo original é o daquela ruiva?”

 

Manaus, 15 de outubro de 1900.

Acordei com o tilintar da roda da carruagem batendo na pedra. E imediatamente fui tomado por uma profunda alegria ao achar que tinha conseguido pela primeira vez voltar pra onde queria. No caso, a Srta. Maldovan no momento após encontrar a ruiva misteriosa.

Mas me enganei. Estava de terno e cartola. Pareciam ser roupas caras. Tinha uma textura extremamente confortável considerando o calor e a quantidade ridícula de panos que compunham o traje. Tinha um bigode curto que parecia ser típico dos jovens com seus 20 anos. Me sentia de fato com a energia de um jovem de 20 e poucos anos.

A carruagem parou na frente de um armazém na Avenida Eduardo Ribeiro. Desci e dei as moedas que já estavam em minhas mãos ao cocheiro. Eu tinha controle. Pelo menos isso eu consegui! E a casa dos Maldovan não era longe dali.

Assim que dobrei na primeira rua adjacente percebi que estava deserta. Corri. Duas quadras depois cheguei à casa dos Maldovan. Não havia carruagem alguma e a porta estava escancarada. Imaginei que ela tinha acabado de sair.

A rua estava deserta. Olhei para dentro e não consegui ver ninguém. Precisaria entrar para ver se os pais da Srta. Maldovan ainda estavam lá. Eu sabia que não tinha muito tempo. Precisava me apressar e entrei chamando pelo Sr. Maldovan. Sem resposta.

O silêncio permanecia. Era perturbador. Não conseguia ouvir os pássaros, o vento batendo nas árvores ou qualquer barulho dentro daquela casa. Algo estava errado. E me aproximava devagar em direção à sala de estudos.

Conforme entrava vi alguns livros no chão, papéis espalhados por toda a sala. Conforme me aproximava ví primeiramente a cômoda revirada e um braço! Era a Sra. Maldovan! Estava caída no chão e havia muito sangue vindo de sua barriga.

Meu coração quase pulou pela boca e corri me aproximando para ver se ainda estava viva. Chequei seu pulso. Apesar de ter visto muitos filmes e seriados em que cenas assim ocorriam, isso não me dava embasamento suficiente para fazer com precisão, embora saber se alguém estava vivo não fosse algo tão complexo.

Mas não havia mais pressão. Ela havia morrido há poucos instantes. E logo em seguida comecei a olhar ao meu redor procurando alguma pista do Sr. Maldovan. Teria sido ele o assassino da esposa? Será que ele saiu instantes antes de eu chegar? Não acredito que daria tempo. Se cheguei algum tempo depois alguém já teria aparecido antes de mim. Não! Tenho certeza! Tinha chegado instantes após a carruagem sair.

Olhei para as estantes que preenchiam as paredes do fundo da sala. Haviam milhares de livros. E estranhamente nenhum havia sido mexido. Apenas o que estava na escrivaninha. O resto estava em seu devido lugar.

Levantei e fui olhar a escrivaninha. As gavetas estavam reviradas, mas ao olhar com cuidado percebi que havia uma espécie de compartimento secreto que agora estava aberto. Olhando dentro deste compartimento vi que havia algo que se destacava no meio da poeira: um molho de chaves e algo redondo do tamanho do meu amuleto haviam sido retirados dali.

Seria possível haver mais de um amuleto? Haveria mais alguém além da ruiva que estaria vagando como eu? Essa dúvida começou a me perturbar e comecei a sentir que estava perdendo o controle do jovem. Meu tempo estava acabando.

Ainda precisa entender como o Sr. Maldovan saiu da casa. Talvez tivesse uma outra passagem. Talvez tivesse ido pelos fundos da casa ou por alguma janela. Mas não acreditava ser capaz de manter o controle até chegar nos fundos da casa.

Olhei novamente as prateleiras repletas de livros. Todos completamente organizados… menos um! Um dos livros estava inclinado como se alguém tivesse mexido nele. Sim! Talvez fosse isso! Uma espécie de passagem secreta! Mas não havia mais tempo! Estava começando a perder o controle. Já não conseguia mexer as pernas.

Minha concentração foi quebrada pelo barulho da polícia entrando na casa. Eles vinham em direção à sala de estudos. E eu estava completamente ensanguentado ao lado do corpo da Sra. Maldovan.

Minha última visão foi dos guardas entrando e vindo em minha direção enquanto eu perdia totalmente o controle do jovem rapaz.

Meu Deus! Quem será que eu acabei de incriminar pela morte da Sra. Maldovan?


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Sobre o Autor

Contador, Cozinheiro, Vocalista, Ator, Roteirista, Diretor de Esquetes de Humor, Escritor, Colunista e mais outras coisas que não consigo lembrar.

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