Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos – Parte 7

Publicado em 20 de dezembro de 2015 | Por Naka | Contos, Literatura, Manaus, Revoadas do Uirapuru

(Essa é a sétima parte deste conto. Leia as outras aqui: Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4Parte 5 e Parte 6)

Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos

Parte 7: Memórias em um milhão de centelhas de luz

Abri os olhos e estava cercado por um branco infinito. Helena estava em meus braços. Ela não tinha nem a aparência da ruiva e tão pouco da mulher na pintura.

Ela era apenas luz. Um milhão de centelhas extremamente luminosas em uma forma humanoide. E percebi que eu também era.

Era como se elas fossem a representação, o avatar de nossas próprias consciências. Ela não se movia. Embora sentisse que de alguma forma, fisicamente ou não, ela estava viva.

Me concentrei então em apenas uma fagulha. E conforme me concentrava nela, a sua luz ia se expandindo até tomar todo meu campo de visão. O branco então foi desaparecendo conforme as imagens iam surgindo. Era uma lembrança de Helena. Me concentrei mais ainda…

Belém do Pará, 02 de novembro de 1649

Uma índia corria pela mata da forma mais rápida que podia. Como quem conhecia o caminho de olhos fechados, ela passava pelos obstáculos sem nenhuma dificuldade… Árvores caídas, plantas, galhos.

Seus movimentos graciosos e acrobáticos me fizeram perceber que era Helena. Ela corria em direção à fumaça. Ela olhou para um pássaro que se aproximava. Ele era uma opção mais rápida, mas ela precisaria de força. Não sabia o que estava acontecendo, mas sabia que precisava fazer algo a respeito.

Quando estava a poucos metros já podia ouvir os tiros de mosquete e os gritos de desespero. Apressou-se mais ainda. Ao chegar à clareira de onde vinha a fumaça, viu toda uma aldeia em chamas. Era um massacre. Dezenas de bandeirantes comandados por Antônio Raposo Tavares atirando e matando qualquer um que se movesse.

A aldeia não tinha tantos índios guerreiros. A maioria já havia sido levada como escravos. O ouro e prata haviam se esgotado, o extermínio dos que resistiam era a diversão dos entediados Bandeirantes.

Ela puxou uma faca e saltou nas costas de um paulista, ferindo-o mortalmente no pescoço. Usou o corpo do homem que matara como escudo impedindo que levasse um tiro que vinha em sua direção.

Correu em direção ao próximo enfiando fundo a faca em seu flanco direito. E assim ela seguiu. Começava a reduzir o número de bandeirantes quando foi surpreendida por um deles que acertara sua cabeça vindo por trás.

Ele apontou o mosquete e sorriu, o lugar foi tomado pelo branco novamente.

Assim entendi que cada fagulha era uma lembrança de Helena. Era uma parte de sua essência.

Quis tentar mais uma vez…

Manaus, 09 de março de 1993

Helena estava em uma professora de matemática do Colégio CIEC da Avenida Djalma Batista. Coincidentemente era o colégio onde estudei por muitos anos, inclusive naquele ano. Ela terminou a aula e foi para a entrada da escola.

Esperava alguém ao longe enquanto fumava um cigarro e fingia prestar atenção a um dos professores, que parecia extremamente apaixonado por ela e que não parava de falar, tentando impressioná-la.

Até que ela percebeu algo que a fez correr em direção à saída de alunos, se esgueirando por entre as crianças. Me viu com nove anos de idade, caído na rua após um dos garotos idiotas ter me empurrado enquanto eu esperava meu pai me buscar.

Um homem vinha dirigindo distraído em minha direção enquanto discutia com sua esposa sem me notar. E rapidamente me puxou antes que o carro me atropelasse. Ela ajeitou minha roupa – Cuidado, garoto! Não vai morrer à toa! Afinal, um grande futuro te espera! – ela disse sorrindo.

Tudo ficou branco novamente. Eu me lembrava desse dia. Mas jamais tinha imaginado que foi Helena quem me salvou. Ela já me protegia. Já sabia quem eu era desde pequeno. Fiquei curioso em saber no que mais ela havia interferido em minha vida.

Resolvi tentar novamente…

São Paulo, 27 de julho de 2034

Uma mulher extremamente magra, de olhos cinzas e cabelos loiros perfeitamente curtos estava sentada em algo que parecia uma mesa em um lugar que parecia uma cafeteria. Ela usava um blazer esquisito, como naqueles desfiles que, ironicamente, mais pareciam exibições de roupas futurísticas.

Mas o que mais chamava a atenção é que ela tinha a pele acobreada pela pigmentação que estava em alta naquele ano. Havia inclusive um cartaz holográfico próximo a ela que fazia propaganda desse processo… Era algo como: “Porque se contentar com sua cor de pele original se você pode ter qualquer cor que quiser? Que tal uma para cada dia? Experimente agora nosso lançamento verde-esmeralda!”.

Ela tomava o que presumi ser água o que parecia ser algo ostentador naquela época. Logo chegou um homem envolto em faixas pretas que revelavam apenas seus olhos. Ao passar por Helena, senti que a roupa dele estava fria.

Como se as faixas fossem uma espécie de ar-condicionado portátil. Mas eu reconheci o olhar daquele homem. Era Enis! E ela falava com ele como se o recrutasse. Falando de seu potencial como “Wander”, explicando tudo que tive que descobrir sozinho. Enquanto ele concordava. Era como se fosse a primeira conversa que ela tinha com Enis. Havia bondade nele e era o que Helena sentia nele também.

Tudo ficou branco novamente e tentei me concentrar em alguma centelha importante. Percebi que algumas brilhavam com mais intensidade. Resolvi arriscar uma delas…

Manaus, 13 de outubro de 1900

Um homem caminhava na escuridão das ruas manauaras. Caminhava sem pressa em direção ao Teatro Amazonas, era notório como gostava de andar por essas ruas. Também tinha a mesma sensação, mesmo estando há 115 anos de distância, a sensação era a mesma.

Essa área da cidade conseguia ser mais agradável em relação ao calor das demais partes da cidade em qualquer momento da história. Era um lugar especial e ambos sabíamos disso.  

Ele seguia admirando as casas e suas estruturas, assim como as árvores. Passou por uma em que havia um pássaro, que Helena usava para segui-lo.

Embora ele absorvesse a paz do lugar e isso trouxesse um alento perceptível a qualquer um que o notasse, ele estava triste e extremamente deprimido.

Esse homem negro, solitário e vagarosamente passando era Eduardo Gonçalves Ribeiro e há quatro anos vivia assim. Fora abandonado por seus “amigos” após ser sucedido por Fileto Ferreira.

E mais do que nunca percebia como a vida realmente era: as pessoas se aproximavam enquanto você tem poder e te abandonam tão rápido quanto vieram, quando você não tem mais utilidade para elas.

Mas seus inimigos… esses jamais desistem de você. Jamais te esquecem e jamais deixam de guerrear contra você mesmo que você já tenha desistido de lutar há tanto tempo.

E era isso que mais incomodava o “pensador”. Era deprimente o quão fácil é ser atingido e tão difícil ser defendido. A bondade era a mais cara das regalias, enquanto a vontade de destruir o outro fluia inexoravelmente como gravidade.

Achava incrível como Helena podia ler seus pensamentos e ela o acompanhava de perto a cada passo, a cada curva. Mas os pensamentos de Eduardo foram interrompidos por um homem que parou à sua frente.

– Boa noite, meu eterno governador! – disse o homem que se aproximava. Reconhecia a máscara de Enis ao longe. Helena apenas observava. Eduardo Ribeiro, assustado com a presença de Enis, apenas respondeu um “boa noite” rápido enquanto seguia seu caminho, tentando não demonstrar o medo que o dominava.

Enis apenas observava. Era como se, espantar o ex-governador fazendo com que desista do seu passeio, fosse parte do seu plano. E assim foi o que ele fez. Voltou para sua carruagem onde seus seguranças o aguardavam.

Havia se arrependido de vagar sozinho, e assim se dirigiu para sua casa, estava arrumando algumas coisas como se fosse viajar e passar um bom tempo fora, quando parou ao ver seu reflexo no espelho em cima da escrivaninha.

Em seguida olhou para seu retrato ariano enfeitando a sua parede e por um instante lembrou de tudo que lamentava. De todas as suas decisões que hoje pareceram erradas. Engoliu em seco essa avalanche de arrependimentos e partiu em direção à sua chácara.

Voltei ao branco infinito como se fosse trazido de volta por Helena. Como uma voz que ecoava ao meu redor:

– Enis precisa de um corpo. Há muito ele perdeu seu corpo original. Assim, os corpos que ele “habita” se “desfazem” mais rápido. Ele quis se aproveitar de um descuido de Eduardo Ribeiro e se apossar de seu corpo. Ele tinha planos de usá-lo para alterar o curso da história! Mas falhou! Esse é o único momento que sabemos onde ele estará e que podemos interferir e impedir que Enis atire em nós dois! – Helena disse com extrema dificuldade.

Deitei Helena. Respirei fundo. Não precisei de muito tempo para pensar. Eu já sabia o que fazer.


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Sobre o Autor

Contador, Cozinheiro, Vocalista, Ator, Roteirista, Diretor de Esquetes de Humor, Escritor, Colunista e mais outras coisas que não consigo lembrar.

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