Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos – Parte 12

Publicado em 31 de Janeiro de 2016 | Por Naka | Contos, Literatura, Manaus, Revoadas do Uirapuru

Atenção: Esta é a segunda parte do Prequel que conta a história do vilão Enis. Caso não tenha lido a primeira parte, clique aqui. Para ver todos os outros capítulos de Revoadas do Uirapuru, clique aqui.

Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos

Enis: Marcas da Vingança

Como quebrar o impossível?

Como alcançar o que ninguém nunca conseguiu?

Eu nunca, de fato, vi o limite que as pessoas costumam ver. Nunca parei e quando parei, procurei uma forma de dobrar a realidade ao meu favor. Como? Minha força de vontade sempre gerou o esforço necessário para subjugar o que fosse necessário.

É necessário também paciência. Estratégia. Esperar o momento certo. O que a minha falta de sensibilidade e ausência de qualquer forma de emoção se tornaram grandes aliados nesse quesito.

Até hoje não compreendi como a mente podia viajar pelo tempo e espaço, mas consegui vagar com meu próprio corpo. Sim, eu consegui me teleportar, mas o preço que paguei foi mais alto do que poderia imaginar.

O PRODÍGIO

Manaus, 26 de outubro de 2034

Era uma caverna localizada no Tarumã e muito parecida com aquela em que conquistei o direito de pertencer à Grande Ordem Wander, em 1972. No centro uma luz azul iluminava a maior parte da caverna, mas além do lago que havia no centro, diferente daquela caverna, havia também no centro uma grande estalagmite que mais parecia uma placa retangular perfeitamente entalhada de mais de sete metros de altura que sorvia a água que caia lenta, fraca e silenciosamente.

Ao redor dessa grande estalagmite outras sete da mesma forma retangular, mas menores com seus quatro metros de altura a circulavam devidamente espaçadas, formando metade de uma circunferência.

Nas estalagmites reflexos de animais, pessoas, paisagens… todas elas pareciam formar a representação de tudo que existia no mundo. E sete vozes distintas se pronunciavam como se fossem independentes uma das outras.

Era meu julgamento. Após tentar usar meu corpo para vagar pelo tempo e espaço acabei criando um paradoxo que destruiria todo o universo. E o Primeiro Wander que costumava ser a estalagmite maior, se sacrificou para conter a destruição de tudo que conhecíamos.

 Por isso a estalagmite maior permanecia opaca. Embora Lucius, um dos guardiões disse ainda sentir a presença do Primeiro embora não consiga precisar seu paradeiro.

Helena estava lá também. A terceira estalagmite da direita para a esquerda. Ela era a única que parecia se concentrar em mim. Eu sentia toda sua fúria, sua culpa e seu arrependimento e ela estava direcionando tudo isso para mim.

Todos com seus discursos ensaiados, suas decisões já estavam tomadas. Aquilo não era um julgamento mas sim a aplicação da minha sentença.

Me foi dado o direito de dizer minhas últimas palavras.

– Conforme os relatos e registros datados desde o surgimento do primeiro Wander, eu fui o primeiro a vagar mais rápido que qualquer um, a ter o controle por mais tempo de qualquer corpo que vagasse – comecei.

– Fui o único a consegui controlar Helena, mesmo que por uma única vez. Porque depois desse incidente ela garantiu que isso nunca mais ocorresse.

– Fui o primeiro a conseguir controlar mentes alheias e prendê-las em outros copos ou ainda escondê-las dos Guardiões dos Wanders bem como esconder meu rastro na Trama de Helena impedindo minha localização.

– Fui o único a controlar micro-organismos. Vocês viram como o mundo se tornou quando a superpopulação levou a humanidade à beira da extinção quando todos os recursos naturais se extinguiram instaurando o canibalismo e a loucura em massa. E por isso vocês devem me agradecer pela Peste Negra.

– E fui o primeiro a desafiar a tradição da Grande Ordem Wander quando propus vagar usando meu próprio corpo, mas como vocês são conservadores extremos não permitem a nossa evolução. Se prendem a conceitos antigos que pouco dominam mesmo tendo a eternidade a seu favor.

– Restringem-se a brincar de gato e rato numa guerra cega que pouco se preocupam em ver que existe um problema ainda maior. Uma ameaça ainda mais aterradora.

– Orgulham-se de todas as conquistas do Primeiro como se fossem vossas conquistas. Quem são vocês além de meros Wanders que decidiram se unir e formar uma Ordem com o propósito de se defenderem quando deveriam atacar?

– Vocês não precisam me banir. Eu mesmo me excluo de participar de um grande estorvo que já há muito assinou sua sentença de morte. E quando isso acontecer, eu estarei mais próximo do que imaginam. E estarei rindo de todos vocês quando suas insignificantes existências se dissiparem para sempre.

Sem ter mais o que dizer, virei as costas e segui para longe de tudo aquilo que faria ruir outra vez.

O SACRIFÍCIO

Proximidades de Airão, 11 de outubro de 1883

Estava deitado olhando a lua cheia. Incrível como ela parecia maior nesse século. Já havia notado algumas diferenças sensoriais que variavam de século para século. Mas agora isso não era importante. O ritual estava para começar.

O Pajé surgiu por entre a mata. Estávamos há dois dias de sua aldeia e ninguém havia nos seguido. Estávamos em uma grande clareira com grandes pedras entalhadas e dispostas a proteger a clareira como uma muralha.

Em cima das pedras havia vários índios e índias prostrados sangrando e tingindo as pedras de vermelho. O sangue escorria e se concentrava no circulo onde eu estava deitado.

O pajé veio com uma adaga de pedra entalhada e começou a cravar seus símbolos dilacerando levemente minha pele. Eu estava adormecido e não sentia dor alguma, mas vi meu sangue escorrer e misturar ao lago de sangue ao meu redor.

Após entalhar meu corpo com seus símbolos, ele começou a entoar seu ritual. Eu falava tupi antigo e entendia cada frase do ritual:

Para aquele que nada teme

As lágrimas dos deuses

Diante da ira dos imortais

A fúria inexorável

E pelos olhos que vagam

O corpo há de vagar também

Pelos caminhos invisíveis

Pela sede eterna

Pelo poder supremo

Aceitem esse sacrifício

E assim os símbolos brilharam mais fortes que a luz da lua. Uma luz branca e intensa fazia meu corpo arder como se queimasse por inteiro. Eu sentia meu corpo se mover sem sair do lugar. Como se por um milésimo de segundo ele estivesse em cada parte e em cada instante de toda a história da humanidade.

As luzes dissipavam aos poucos seu brilho e não havia mais sangue em lugar algum.

O ritual estava concretizado.

Meu corpo estava pronto.

 O PREÇO DO PODER

Manaus, 31 de dezembro de 1896

 Estava concentrado no meu plano enquanto manipulava distraído o Amuleto de Yamandú quando a carruagem parou. Havíamos chegado à inauguração do Teatro Amazonas.

Toda a burguesia local estava presente. Ninguém seria louco o suficiente de perder tal evento. Era algo que as pessoas se gabariam por décadas ou até que suas bocas perdessem a capacidade de proferir qualquer coisa.

Ao sair, olhei para a direita e vi um de meus servos me seguindo a cavalo e ao nosso redor outros vinte transeuntes todos disfarçados e infiltrados por meio da multidão garantiriam que Helena não chegasse sequer a entrar no Teatro. E todos estavam sendo controlados por mim. Suas ações, seus gestos… suas mentes eram minhas.

Havia chego cedo e como de costume o local estava vazio. A burguesia costumava a se atrasar sempre e quão mais importante e influente a pessoa, mais demoraria a chegar.

Helena chegaria cedo também, eu sabia. Ela era precavida e seja lá o que fizesse, iria avaliar se tudo estava acontecendo a seu favor. E eu era a menor de sua preocupação uma vez que não podia mais se detectado e a Grande Ordem Wander havia acreditado que minha existência havia se dissipado em uma provável tentativa de dominar o transporte corporal.

Tudo estava saindo conforme o planejado e Helena jamais suspeitaria que eu sabia que ela estaria aqui hoje e que uma grande surpresa a aguardara.

Todos estavam em seus postos quando ela chegou no corpo de uma ruiva de longos cabelos ondulados com um vestido branco com detalhes em azul marinho. Com sardas que realçavam sua pele branca como porcelana e seus traços afilados que acentuavam a beleza de seu corpo esbelto.

Eu já a havia visto vagando no corpo dessa mulher. Não era a primeira vez e pelo visto era a preferida de Helena por algum motivo. Um motivo que agora despertava meu interesse em descobrir.

Ela desceu do cavalo e metade dos meus servos caminhava em sua direção disfarçadamente cada um em seu papel, com seus motivos aparentes em uma dança coordenada e visível apenas para os meus olhos.

Quando eles estavam a menos de dois metros dela, ela percebeu que algo estava errado. Mas a esse ponto já era tarde demais. Antes que pudesse lutar, ela foi imobilizada e prendi sua mente através dos olhos de meus servos. E assim ela foi arrastada para a carruagem onde eu a aguardava a poucos metros dali.

Tudo aconteceu tão rápido que pareceu como se alguém tivesse desmaiado e levado para longe dali. E era isso que queria que pensassem.

Ao entrar na carruagem ela me viu e se surpreendeu. Não havia prova maior do sucesso que tive no teleporte do que meu rosto diante de seus olhos incrédulos. Ela estava em choque e pela primeira vez ela viu o poder da ameaça que eu realmente representava.

– Quantas saudades senti de você, Helena. Aproveite seus míseros segundos de vida. Pois logo vingarei meu pai.

Seguimos para a lateral do teatro onde uma das entradas levava às tubulações. Descemos e meus servos já estavam ao nosso redor, impedindo que outros vissem o que acontecia. Logo que entramos, uma porta secreta abriu para uma escadaria que seguia para um andar inferior.

Lamparinas rústicas feitas com óleo de quelônios iluminavam precariamente o corredor. E logo chegamos ao segundo nível inferior do teatro onde havia uma porta e por ela, uma das várias salas que haviam naquele andar.

A sala que entrei tinha seus setenta metros quadrados. Havia ossadas humanas e de animais que preenchiam o lugar deixando um cheiro horrível de restos de carne apodrecida e um pentagrama negro no chão onde muitos tinha o costumo de realizar seus sacrifícios.

Eu não precisava de nada daquilo. A única coisa que precisava era de silêncio, total isolamento e nenhuma interferência de nenhum guardião ou qualquer de seus aliados ou “filhos”. E ali tinha tudo isso. Estávamos isolados e ninguém iria atrapalhar.

Deitei o corpo que Helena estava em uma cama de crânios improvisada. Ela apenas podia mexer seus olhos e seu pavor diante de tudo isso a tomava por completo. Ela sabia o que iria fazer e sabia que ela só podia esperar seu destino.

Acariciei seu rosto pela última vez.

– você agora irá pagar por tudo que fez ao meu pai. Pagará por tê-lo aprisionado e por tê-lo condenado a viver preso naquele homem louco. Você o torturou por anos e agora pagará.

Segurei sua cabeça e olhei no fundo dos seus olhos. E puxei minha adaga em uma mão e o pingente de Yamandú na outra. Eu só precisava matar essa mulher que a existência de Helena se dissiparia para sempre.

Ergui a adaga acima do corpo que estava Helena e sorri dizendo um vibrante adeus. Mas antes que descesse a adaga senti uma dor extrema. Todas as marcas do Pajé doíam e sangravam. Estava perdendo as forças. Eu sentia a pele do meu rosto rachar e sangrar.

Já não podia controlar a imobilização de Helena e ela se soltou. Achou que meu controle poderia voltar e não quis arriscar me enfrentar. Apenas pegou o pingente e fugiu saindo pela porta. Juntei o pouco das minhas forças que ainda tinha e a segui.

Sai do teatro e entrei na carruagem quase me arrastando. Já havia conseguido estancar o sangue e assim usei o controle de mentes e consegui controlar três servos fazendo com que eles corressem atrás de Helena.

Ela corria como pôde em direção ao cais enquanto meus três servos que controlava a seguiam. Não tinha forças para dar ordens ao meu cocheiro e controlar os servos ao mesmo tempo então fiquei ali mesmo e acompanhava tudo pelos olhos deles.

Quando eles estavam se aproximando de Helena, o Uirapuru apareceu voando por entre eles e quando terminou de cruzá-los estávamos na manhã do dia 15 de outubro de 1900.

Há muito havia aprendido a ler o período em que era transportado. A data estava correta. O maldito pássaro havia transportado todos nós em um bater de asas.

Helena também havia notado o que acabara de acontecer, mas isso não a parou e ela seguiu para o meio da multidão próximo ao Cais da Imperatriz. Ela então pegou um chapéu branco de abas largas de uma transeunte para tentar se disfarçar numa tentativa de sumir de seus perseguidores mas ela não sabia que podia segui-la de olhos fechados.

Dentro da carruagem notei a máscara que havia usado outra vez em um dos bailes de máscaras da cidade. Convenientemente ela serviria a partir de agora para esconder meu rosto dilacerado.

Eu sentia aos poucos meu corpo se desfazendo gradativamente. Eu precisava de outro corpo e logo.


Nota do Autor: Alguém notou que o final deste Prequel é o começo de toda a história? *wink*


Sobre o Autor

Contador, Cozinheiro, Vocalista, Ator, Roteirista, Diretor de Esquetes de Humor, Escritor, Colunista e mais outras coisas que não consigo lembrar.

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