Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos – Parte 11

Publicado em 24 de janeiro de 2016 | Por Naka | Contos, Literatura, Manaus, Revoadas do Uirapuru

Atenção!!! Este é um Prequel contando a história do vilão Enis. Caso você não conheça o Revoadas do Uirapuru, clique aqui.

Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos

Enis: Uma Promessa de Sangue

Em algum lugar da Cordilheira dos Andes, 29 de outubro de 1972

O Bloodtron apitou. Era hora de trocar sua bateria.

Estava há mais de dez dias caminhando na neve em algum ponto que até mesmo eu desconhecia dos Andes. Nenhum método ou mecanismo para orientação pareciam funcionar. Esta era, de fato, uma parte estranha da cordilheira… o que me animava pois sabia que estava cada vez mais próximo.

Troquei a bateria do Bloodtron. Pelo menos este funcionava perfeitamente. Meu sangue voltava a aquecer e meu corpo mantinha seus trinta e sete graus célsius. Esta maquininha que cabia na palma da minha mão foi provavelmente a única invenção realmente útil do ano de 2031 e graças a ele, viagens para lugares com temperaturas tão baixas passou a ser menos arriscado.

Mesmo que o Bloodtron controlasse a temperatura de cada parte do meu corpo independente do ambiente em que esteja, não abri mão das roupas e aparatos para o frio extremo. Nunca consegui confiar tanto assim na tecnologia ou muito menos depender dela.

Mais alguns metros e avistei um avião que aparentava ter caído há alguns dias. Algumas pessoas estavam fora da aeronave, muitas desnorteadas, outras tentando se distrair e não pensar no infortúnio que enfrentavam.

Mesmo sob uma forte nevasca, um deles conseguiu me ver e avisou aos demais enquanto apontava para mim. Estava há um pouco mais de um quilômetro acima deles enquanto procurava uma entrada próxima ao cume da cordilheira.

Eles acenavam e ao perceber que os ignorava por completo um grupo menor começou a vir em minha direção. Não, eu não tinha tempo ou disposição para lidar com um grupo de sobreviventes da década de setenta. Duvido conseguirem ser resgatados em uma época como essa. É mais provável que morram lentamente cedendo pouco a pouco à morte congelante.

E o que eu faria se visse um coelho ferido agonizando em sofrimento? Puxei uma pequena esfera metálica do meu bolso e joguei alguns metros abaixo de mim. Ao tocar a neve fez um pequeno estrondo. Com o barulho, uma avalanche corria tomando cada vez mais forma em direção ao avião. Em poucos segundos não havia mais nada. Voltava a ser apenas eu e a imensidão branca.

Continuei seguindo próximo ao cume por mais algumas horas até encontrar uma entrada de uma caverna cem metros abaixo do cume. Vi acima da entrada duas criaturas, algo que parecia ser um humanoide e um lobo atroz cinzento.

Ao me aproximar percebi ser uma mulher coberta por um gibão negro com seus longos cabelos vermelhos ao vento enquanto se apoiava em uma lança. Mais tarde constatei que Helena tinha uma preferência por ruivas.

Nada do que via parecia fazer sentido. Uma mulher não sobreviveria com tão pouca roupa naquele frio e lobos desse porte são apenas mitos. Não havia dúvidas de que tinha encontrado o que procurava.

Parei na entrada da caverna, a mulher desceu com a lança apontada para mim e começou a circular ao meu redor me analisando criteriosamente enquanto o lobo me olhava fixamente. Poderia jurar que ao menor sinal da mulher, o lobo pularia em meu pescoço antes que pudesse olhar pra cima.

Não sei o que a mulher procurava, mas seja o que for, havia encontrado em mim. Ela então entrou na caverna.

– Siga-me. Você está mais do que pronto. – disse a mulher sumindo na escuridão. Não hesitei e a segui.

Liguei minha lâmpada de LED e tudo ficou absurdamente claro. – sério? – disse a mulher virando o rosto para mim. Pela primeira vez pude ver seu rosto em detalhe: Ela tinha olhos verdes, sobrancelhas grossas, traços caucasianos e com muitas sardas em seu rosto. e ao olhar fundo em seus olhos, vi que era Helena.

Desliguei a lâmpada. Parecíamos descer e seguíamos num chão de pedras e paredes úmidas. A caverna deveria ter seus dois metros de largura e parecia seguir assim por vários metros.

Após alguns minutos de caminhada vi uma luz azul que aumentava cada vez mais. Uma clareira com seus trinta metros de diâmetro tinha um pequeno lago no meio feito com uma leve queda d’agua que trazia a neve derretida formando um pequeno rio que seguia pelo outro lado do lago.

No centro do lago, uma grande estalagmite formava um pedestal de gelo que sustentava algo parecido com uma moeda que brilhava com o fio de luz que tomava o local.

– Você está nos Andes do sul do Peru, mais precisamente na nascente do rio Apurímac-Ucayali, na cordilheira de Chila e esse pequeno lago que você vê é onde começa o Rio Amazonas. – Helena disse enquanto se aproximava do pedestal de gelo.

Olhei para minha bússola e ela havia voltado a funcionar. Estava exatamente onde Helena havia falado. Não entendia como nos movemos por milhares de quilômetros em poucos minutos. Alguma coisa naquela escuridão justificaria uma espécie de teleporte da Argentina para o Peru.

– Você passou por todas as minhas provações! Venceu todos os meus desafios… – Ela interrompeu meus pensamentos enquanto estendia a mão pegando o item reluzente.

– És finalmente merecedor da oportunidade de ser meu escolhido! Receba meu maior tesouro: o amuleto de Yamandú. – A mulher ergueu o amuleto em oferta a mim e o peguei.

Ao analisá-lo vi que era circular e pequeno, podia ser facilmente confundido com um pingente. Era negro com runas nórdicas brancas fechando um circulo. Lembrei que havia lido em algum livro de uma tese de doutorado em que o pesquisador comparava Yamandú, o Deus supremo dos tupi-guarani e Alfadur, o Deus supremo da mitologia nórdica.

Mas agora não era o momento para pensar em mitologia. Eu podia sentir seu poder. Finalmente detinha a capacidade de vagar por qualquer época da história do mundo conforme fosse minha vontade. Agora eu podia controlar isso. Não dependia mais daquele pássaro estúpido. Eu poderia finalmente mudar o curso da história e assim obter minha vingança.

Manaus, 12 de julho de 1987

Caminhava a passos rápidos em direção ao Centro Psiquiátrico Eduardo Ribeiro. Parei na frente de uma porta de vidro onde podia ver meu reflexo. Sim, havia conseguido vagar usando meu próprio corpo. Helena jamais imaginaria que conseguiria isso. Nem ela mesma foi capaz de tal façanha.

Entrei em uma sala e peguei um jaleco. Passei por todos, cumprimentando os funcionários. A recepção e os ambientes dos funcionários estavam arrumados e limpos da maneira que podiam. Mas conforme caminhava em direção ao pátio onde os pacientes ficavam, a cena mudava de figura.

Não demorou muito para que sentisse cheiro forte de urina e fezes. E isso apenas me deixava com mais ódio. Chegava ao ponto de não conseguir mais disfarçar minha raiva e preocupação. Felizmente não havia ninguém próximo.

Mal havia chegado no pátio e o avistei ao longe. Tirei o jaleco e fui em sua direção a passos rápidos. Ele estava sentado em uma poça de urina usando apenas sua cueca, com as costas escoradas na parede e sua cabeça inclinada em direção ao chão.

Era um homem magro, sujo, haviam cicatrizes, feridas e lacerações por todo o corpo, marcas de sangue e fezes secas grudadas em sua pele.

O segurei pelo braço e o ajeitei de forma mais confortável. – Pai? O senhor está ai? – clamei por ele falando o mais alto que pudesse sem chamar a atenção dos funcionários.

– Pai! Faça um esforço! Por favor! O Senhor não vai passar de hoje! Eu vim vê-lo pela última vez nessa data porque hoje é o seu último dia! Eu lhe imploro! Controle esse homem apenas essa vez mesmo que por alguns segundos! – implorei da forma que pude.

Não conseguia encontrá-lo. Ele estava perdido no corpo daquele homem moribundo. Eu tentava olhar o mais fundo dentro dos seus olhos, mas não conseguia encontrá-lo.

Haviam anos que ele estava aprisionado no corpo desse homem moribundo. E eu já havia tentado de todas as formas reverter o processo. Todos em vão.

E em todas as visitas que fiz em todos esses anos desde quando ganhei o amuleto de Helena, eu tentava falar com ele e ele nunca me respondia. Ela conseguiu aprisioná-lo de uma forma que eu era incapaz de me comunicar com ele.

Infelizmente já vim em todos os dias que ele estava aqui, mas a lei cósmica dos wanders me impede de ir ao mesmo lugar no mesmo dia e no mesmo corpo duas vezes. E meu pai só iria falar se olhasse meu rosto. Ele jamais falaria algo a estranhos. Já vim vê-lo em todas as pessoas possíveis! Mesmo dizendo que era eu, ele não respondia. Por isso não faço ideia até hoje como ele foi aprisionado e tão pouco o que ele fez para receber esse castigo.

A última coisa que lembro é meu pai dormir, entrar em coma e nunca mais voltar quando eu tinha oito anos, aos quinze, minha mãe autorizou a eutanásia e aos vinte recebi a visita de um Uirapuru que despertou minhas habilidades de Wander e assim descobri o que havia acontecido com ele.

– Helena… – ele sussurrou.

– Pai! Sou eu, seu filho Enis! Olhe pra mim! Por favor! Me diga o que aconteceu!

– papel… – ele continuou.

– que papel, pai? Me dê mais uma pista! Por favor! Eu te imploro!

– colchão… – ele disse gastando seu último esforço. Logo em seguida ele começou a convulsionar e se debatia forte.

Os demais pacientes começavam a gritar e pude ouvir os passos dos funcionários vindo em direção ao pátio. Eu precisava sair daqui. Já não podia fazer mais nada.

Segurando as lágrimas e o desespero jurei ali mesmo que Helena ia pagar pelo que fez. Levantei e saí do pátio o mais rápido que pude sem ser notado e fui em direção aos dormitórios sem olhar para trás.

Após revirar o colchão do homem em que meu pai estava preso, encontrei um pedaço de papel que continha apenas uma frase:

Helena Manaus 31 12 1896

Finalmente sabia do dia e local onde Helena estará.

Finalmente

Helena

irá

pagar.

Sobre o Autor

Contador, Cozinheiro, Vocalista, Ator, Roteirista, Diretor de Esquetes de Humor, Escritor, Colunista e mais outras coisas que não consigo lembrar.

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