As Crônicas de Acheron | Do relato das formigas sobre o cerco de Ziporih – parte IV

As Crônicas de Acheron é uma série de fantasia publicada toda quarta-feira no Mapingua Nerd.
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“ –- Meu amor virá então conosco? “ – Havia dúvida na força que as mãos de Taremil imprimiam sobre as de Notrum enquanto ele lhe sussurrava. “— Meu reino passou. Prefiro estar ao teu lado, pois não tenho mais nada a perder. E Sorbam, o que combinaste com ele mesmo? “ Indagou, preocupado. “ – Teu general não virá conosco, ele ama Ziporih mais que a mim e a ti. Tu o sabes. Vamos perdê-lo. Assim como perdi minha filha para a ardilosa Claekuth e toda essa história de demanda. E como perdeste os teus para o Mal. – “ O amargo daquelas palavram corroíam os ouvidos de Notrum. “— A casa de Nartreg desaparecerá comigo, pois já estou velho e meus filhos mortos. E Sorbam sucumbirá lutando até o fim! Ah, Jiltrate já sei foi! E perderei também meu melhor amigo! – O coração apertado o perturbou pelo seu grande amor por ele. “ –- Agora que estamos perto do fim, quero que saibas que sempre desejei que tiveste um filho de Sorbam, pois isso não pude te conceder! E a ele daria de bom grado meu trono, pois Mafroun, Klith e Demarin não o mereciam. Mas afinal, o que sairia de bom do ventre da mãe deles! Aquela áspide do Clahtemariaeh! Que Fyr a tenha em fogo e brasa! “

O estalo estridente da viga que selava os portões do Templo prestes a arrebentar pela insistência do Draquon aos berros do lado de fora interrompeu a conversa dos dois. “ – Apressem com isso, soldados! – A passagem secreta se revelava sob o altar arrastado pelos quinze homens corpulentos. “— Pelo Senhor da Cidade Abençoada, vamos todos cumprir o Ciclo! Vejam, a viga arrebentou! Safretin! Desce logo pela brecha! – A voz anônima no meio da confusão fez Taremil lembrar da consorte de Melikae enquanto corria segurando a mão de Notrum. “ – Mulher ardilosa! Queria eu encará-la agora para ver-lhe o semblante! Se fez de viúva reclusa por três primaveras desde que o bardo partiu com Zitri ao lado das filhas de Claekuth, mas bem sei o que fazia em sua alcova com Klith! – “ Teria pensado enquanto era espremida pela multidão desesperada ao vê-la num relance.

E a fera já no interior do Templo, espalhava os bancos de cedro do salão como sal sobre a pedra. Sua calda logo se enovelou em duas colunas perto dos portões escancarados e os saltos esbaforidos amedrontavam os peltastas que a atacavam, perfurando-lhe a carne. O Sangue negro do Draquon cobria o chão de pedra contaminando com maldade o lugar outrora sagrado, e se misturava à poeira do teto que tremia pelo caminhar estrondoso da besera que surgiu às portas do Templo. Pedaços da parede da fachada cortavam o ar com a fúria da criatura que os lançava em direção aos nobres indefesos! Não se via mais nada na penumbra, somente a fumaça de morte que tomou conta do lugar!

“ – Que terrível! Ao menos Notrum conseguiu escapar? “

“ – Senhor, o que houve a partir daí surpreendeu sobremaneira a todos, e nem nos mais estranhos sonhos alguém poderia imaginar que tal coisa aconteceria. Nem mesmo Taremil em suas visões conseguiu vê-lo… ”

“ – Pois digam! Estou mui curioso! “.

“ – Sabe tu, que no terceiro dia do terrível cerco, perto do deitar do Sol, os portões da grande muralha foram rompidos pelos orientais com seus aríetes. E enquanto os Draquons dizimavam muitos, os bárbaros finalmente invadiram Ziporih e tomaram a cidade como locustos assaltam as plantações de milho. Ora, o exército tremar estava sem comando, pois Gihgal havia sucumbido e Sorbam estava como morto num canto da escadaria que levava ao pórtico do Templo e assim seus homens debandavam de medo do avançar das centenas de Crafaeins comandados pelo líder oriental Dzfarthyr, que gargalhava triunfal indo à frente na rua central da cidade que concorre paralela ao rio Trufhontis. O pandemônio que ali se fez nunca outrora tinha sido visto. Nem na guerra contra Celhin que por três gerações assolou Ziporih. As feras despedaçavam o povo que desesperado se escondia em qualquer lugar no frio do inverno do Norte, e grande agonia fez daquela viração do dia da metade do inverno a hora mais escura do povo da Cidade de Pedra. Eram muitos gritos e choros e a neve foi tingida do sangue carmesim até nas copas dos cedros do bosque de Notrum! “ – Isso! Corram por suas vidas, pois hão todos hoje perdê-la! Ziporih caiu pela lâmina do Leste e logo, minha Senhora, sentará no trono de pedra do infame descendente de Nartreg! – “ Vociferava o bárbaro subindo as escadas do Templo. A satisfação em seu semblante era terrível pois suas feições contorcidas pelo Mal amedrontavam qualquer um que o fitasse enquanto fustigava zombeteiro os que cruzavam seu caminho, e a passos rápidos, logo chegou do outro lado do salão, onde os nobres amontoados tentavam escapar pela brecha no chão.

“ – Notrum, seu covarde! Por que tentas fugir do destino? Achas mesmo que padeci o frio desgraçado do inverno do Norte para não te assassinar com minhas próprias mãos? Pois vem aqui, verme medroso! Ah, vem logo! “

O velho rei, enquanto tentava descer pela brecha sentiu o aperto do grande açoite que o arrastou da multidão. O horror em seu grito fez Taremil retornar do grande corredor subterrâneo apressada. “ – Notrum! Notrum! –“ Ela o chamava enquanto ia contra a multidão até vê-lo desmaiado aos pés do bárbaro debochado, que o chutava nos lados.  “ – Deixa-o! –“ Retirou a lâmina que recebera de Sorbam o encarando. “ – Quem és tu para me desafiar, mulher? E por que procuras defender esse velho fraco? Crês também que ele é a voz do tirano da cidade do firmamento?

O peito apesar trêmulo permitiu-lhe responder à arrogância de Dzfarthyr.

“ – Não importa quem sou. Mas deixa-o ir, ou verás do que sou capaz com essa lâmina…. larga-o! ”

A aparência frágil de Taremil lhe causou risos. “ – Vais morrer também, louca. O Sol já se deita e logo teu corpo e o desse velho estarão empalados no pátio, e quando a lua apontar no alto, minha Senhora, a Loucura, chegará para receber Ziporih. Depois, será Thelim e o Povo das Tendas. E enfim, adentraremos o Outro Mundo Inferior através dos Poços da Perdição e acabaremos com Fyr! E finalmente toda Acheron será envolta pelas trevas do Caos em movimento, que hoje governa o Leste! “ – Aproximou-se dela, segurando-lhe pelo pescoço com uma mão, para tirar-lhe o fôlego. “—Criaturas! Matem todos! – “ As bestas que estavam no salão oprimindo se enfureceram ainda mais perseguiam os sobreviventes ali. Taremil, erguida, se debatia tentando ferir seu algoz.

“ – Ah, as oraculares e suas essências altivas! Mas que terrível a queda de Ziporih! Que triste saber que Notrum e sua consorte terminaram seus dias assim! A última grande resistência do Oeste se foi! Thelim é uma vila pacata, e o povo de Lemael não é guerreiro! Ah! A raça dos homens está prestes a cair! Quando todos os povos que servem ao Uno se forem, só restará os homens do Grande Mar! E quem sabe se o Caos em movimento não utilizará o Ninho para degenerá-los? “

“ – Acalma-te, amigo! Pois há esperança! Não terminamos ainda! Sabe tu, que enquanto tudo isso acontecia, nos extremos do Norte, por entre as ravinas e grotões que se misturam ao caminho do Trufhontis um cântico sereno passou de súbito a emanar daquelas águas escuras. Era trazido pelas ondas geladas do fundo à superfície, e as suas palavras eram incompreensíveis para os que não conhecem a velha maneira de falar com as pequenas criaturas, como tu conheces e conosco se comunica em pensamento! Cada planta, cada animal não contaminado pelo Mal que o ouvia, saudava as águas e as vozes que dela vinham. E junto delas, às margens do rio, as luzes que as acompanhavam traziam a vida de volta ao solo coberto pela neve rigorosa e podia-se ver novamente a vivacidade das cores que pintam o Norte no auge de seu melhor verão! Cada curva, cada vale por onde o filho do Acherontis passava, retomava sua aquarela de cores típica pela ação daquele cântico suave! Até o planalto e monte Fatsiam retomaram em pleno inverno o seu verde rochoso, e os girassóis dançavam apontando o cântico que era levado pela água alegre. Mas os animais contaminados com o Mal, ao ouvirem as melodias daquela canção, mui temeram, e algumas se lançavam nas águas profundas do rio como loucos. Assim como também as miríades dos exércitos do Leste, que ao longo do Trufhontis e por toda a planície até a Cidade de Pedra, lutavam para tomá-la. Pois junto delas, como disse, vinham as luzes, que agora atravessavam também a carne dos orientais e das feras que restaram. Muito mais rápido do que pudéssemos ver! Os corpos partidos da cabeça aos pés dos inimigos caíam no chão lentamente antes mesmo d’eles saberem o que lhes havia acontecido! E o cântico misterioso lavava a terra do sangue pútrido, o drenando para as entranhas da terra. Nós, que estávamos espalhadas por toda a planície até a cidade, sentimos imensa paz ao ouvir as palavras da canção que dizia:

 

“ Vocês, que trouxeram agonia a essa terra

Que como guias carregaram a mortandade que aqui se fez

Hoje, pela voz e poesia de nossa melodia,

Receberão paga não de alegria, mas de fina ironia,

De perecer ao som dessa Canção. “

 

“– De repente, por todo os domínios da planície, não havia um oriental de pé e todas as feras haviam ou fugido ou se afogado. E dos céus surgiram Draquons que voavam calmos junto aos Crafaeins que vieram do Malgaroth para se juntar às vozes do rio. E quanto mais tentávamos ver quem estava no interior daquelas luzes, mais curiosas ficávamos, pois, o brilho mui intenso nos impedia! E os Draquons e Crafaeins destruíram as helépolis e as catapultas dos orientais, devorando os sobreviventes. E as luzes avançaram para o interior da cidade, onde rapidamente também esmagaram os exércitos inimigos rumando até as portas do Templo, quando finalmente a voz suave e altiva deu ordem ao líder bárbaro, que torturava Notrum:

“ – Larga-o, imundo. E vem ter comigo! “

O inchaço dos olhos do velho rei ensanguentado permitiu que ele reconhecesse o semblante anguloso do erudito das canções.

“ – Anda! Deixa meu rei em paz, e vem lutar com seu campeão!

“ – Melikae! “ – Foi o que disse antes de ser lançado com violência ao chão.

Continua…

Sobre o Autor

perdeu as contas de quantos mantras realizou para zerar aos onze anos Faxanadu. Suas habilidades crescentes já na infância o levaram a fazer uso da Master Sword todas as vezes em que houve necessidade (desde a Criação até a Era o Caos e da Prosperidade). Atualmente anda às voltas com os reinos de Boletaria, Lordan e Drangleic porém nunca esquecendo que deve estar de pé às seis para levar luz àqueles que necessitam. Gosta de caqui, sustos, games, comida-que-mata, poesia, pringles, fantasia-fantástica, pôr-do-sol... e Pepsi! Não necessariamente nessa ordem.