As Crônicas de Acheron | Da Surpresa De Ranemann Na Floresta Das Sequoias Colossais

As Crônicas de Acheron é uma série de fantasia publicada toda quarta-feira no Mapingua Nerd.
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– Gwlaud! O que houve? – Sussurrou Ranemann de pé e com suas lâminas em riste. Seu olhar era atento até a escuridão além da clareira.

Com o corpo retraído e rangendo os dentes, a fera grunhia ressabiado como se visse algo por entre as árvores. Atrás dela, as formigas em disparada subiram nos troncos próximos juntamente às Friyjuhim emitindo suas luzes de alerta. Por fim, lançou-se na escuridão com as garras à mostra. Ranemann de longe ouviu vozes se misturarem aos esguichos do animal.

– Maldito! Toma!

Ranemann correu com uma tocha para ver o que acontecia. “Gwlaud foi ferido?”.

A fera derrubara o homem corpulento, que se protegia com um grande escudo redondo de madeira. Ao reconhecer o símbolo das duas sequoias pintados no escudo, Ranemann, lépida, pulou sobre o pescoço do lobo, pendurando-se com as pernas e segurando-lhe a boca – Gwlaud! Eu te ordeno! Para com isso! – Gritava, com as pernas envoltas em seu pescoço, enquanto lhe segurava a boca. As formigas, que assistiam a luta dos galhos das árvores, reconheceram a silhueta familiar e para proteger o homem se lançaram sobre o lobo segurando-lhe as patas. Com a fera imobilizada, o homem libertou-se.

– Que feitiçaria é essa? Ranemann! És tu mesmo? – Gritou o guerreiro enquanto flanqueava animal para perfurá-lo com sua longa espada. Mas a lâmina de dois gumes foi retida pelas Friyjuhim, que desceram urgentes dos altos dos galhos para impedí-lo.

“Essa voz!.” Ela então sobressaltada virou a cabeça o máximo que pôde buscando enxergá-lo. Seu rosto estava coberto pelo nobre elmo de bronze e as tiras de couros atadas em sua base lhe cobriam o pescoço, mas a penumbra permitiu Ranemann reconhecer a cabeça do Draquon finamente esculpida no metal.

– Vatrehuh!

Um grito agudo interrompeu a conversa dos dois. Da escuridão da floresta surgiu o vulto de uma mulher ao lado do senhor do Povo das Alturas. O ataque voraz foi interrompido pelo seu braço musculoso que a segurou pela cintura.

– Sabretil! É Ranemann! Acalma-te!

Ranemann, soltando-se do lobo, colocou-se de pé. Seu olhar transparecia assombro e alegria.

– Estão vivos! Pedi tanto ao Uno que o protegesse!

Ela se lançou nos braços de seu amigo, pois a emoção em revê-lo a invadira de imediato como as torrentes violentas do Trufhontis que descem das Femiaren no Norte, e assim a doçura outrora quase esvaída que sentia por Vatrehuh retornou incisiva. Após várias luas caminhando em silêncio, as lágrimas ali derramadas agora serviam para colorir seus olhos com a esperança renovada. E ele, emocionado, acariciou-lhe os cabelos, abraçando-a também. As formigas, mui alegres, se aproximaram dele. E, lhes cercando, se regozijavam por tê-lo reencontrado vivo. Ficaram assim por um breve momento, quando a admirada Sabretil disse:

– Que encontro inesperado! Mas agora, parem com isso, pois também quero abraçar Ranemann dos Vilca! – O semblante da pequena e altiva moça era também de felicidade misturado à surpresa. – Quase não acreditei que fosse tu! Pensei que tivesse perecido, pois Vatrehuh contou-me tudo sobre o que aconteceu na estrada dos Refúgios do Norte! – E aproximando-se de Ranemann, a abraçou e beijou-lhe o rosto. Fitando ambos com o sorriso da satisfação, reconheceu o brilho da alegria daquele reencontro. – Meus amigos! Meus amigos! – Repetia Sabretil, os abraçando. Ranemann, retribuindo o sorriso, disse:

– Estou viva. Graças aos meus novos amigos! Além, claro, das adoráveis formigas! Mas foi por um triz que não cumpri o Ciclo! E estamos vagando por essas terras há um tempo que já nem sei mais!

E mui felizes os três conversavam. Quando o grande lobo se aproximou de Vatrehuh e Sabretil, rosnando.

– Gwlaud! Pare! São meus amigos! – Ranemann se interpôs entre eles e a fera, afagando-lhe a cabeça para acalmá-lo. Vendo o mau comportamento do senhor dos lobos, as formigas e as Friyjuhim finalmente contaram a ele sobre Vatrehuh e Sabretil. E assim ele se sentou ao lado de Ranemann, de orelhas em pé, observando Vatrehuh e Sabretil.

– Se aproxime mais! Quero que conheça meus amigos! – Ele, desconfiado por causa do golpe de Vatrehuh com o escudo em seu focinho, hesitou. Mas a insistência de Ranemann lhe fez finalmente ceder, pois nela confiava. Assim, apresentou lhes Gwlaud. Por fim, o animal recostou a cabeça no ombro de sua amiga com o olhar agora sereno.

– Como fizeste amizade com a fera cinzenta?! – Admirado, Vatrehuh embainhou a espada enquanto observava a criatura.– São animais ariscos e não se vê mais eles caçando nessas terras!

– Ele me salvou em minha hora mais escura. Acredito que ele foi enviado pelo Uno.

Então contou-lhes o que lhe acontecera. Atônitos, ouviram o terrível relato. Gwlaud, vendo Ranemann se conter para não chorar, lhe lambia o rosto. “Acalma-te olhos, retenha as lágrimas e não dê à tristeza ouvidos, que estarei sempre ao teu lado nas agruras e alegrias. Pois sou teu amigo!“ Disse a fera, em pensamento, sem se importar que ela não o ouvia.

– Maldito Jotuh! Não deveria ter lhe poupado a vida quando resolvi dar cabo de meu irmão! O plano era acabar com a casa de Sertravh, mas Uhtyl aconselhou-me a ter seus filhos por perto para não gerar maiores desconfianças dos malditos rebeldes. Deveria ter permitido que Drotram e Filistio tivessem assassinado todos! Que esteja Jotuh no Outro Mundo Inferior recebendo castigos inimagináveis no fogo de Fyr! – Esbravejou Vatrehuh – E tu, criatura da floresta? Quer dizer que salvaste minha querida amiga? Sou grato por isso, e digo, hoje, que tens lugar cativo em minha casa perpetuamente! Tu e os teus! Enquanto minha casa existir, haverá amizade entre o Povo das Alturas e os lobos cinzentos da floresta!

O grande animal apenas o observava, enquanto recebia afagos de Ranemann.

“E as minhas amigas formigas? Que alegria em encontrá-las novamente! Mesmo que em tão difícil hora também estou muito alegre por isso!“ Ele lhes dizia, em silêncio.

O grande exército de formigas agradeceu as palavras de seu amigo, e para demonstrar sua alegria movimentavam-se rapidamente em círculos, dançando e pulando. As Friyjuhim voaram da barriga do lobo – que àquela altura já estava deitado de costas brincando com Ranemann- e acompanharam as formigas na dança, acendendo suas luzes e iluminando assim a madrugada serena na clareira. Isso chamou a atenção das criaturas que ali habitavam e as corujas chamaram a atenção dos solitários urutaus, que, por sua vez, atraíram com seu piado lúgubre os pardais-do-paraíso, e a eles se juntaram os lóris-azuis e seus primos maiores, jagras-pintados e salamandras-do-reino. As rãs-dedos-de-donzela e as serpentes-cegas que passavam por ali também ouviram o cantarolar dos outros animais e a eles se uniram para se alegrar com as formigas pela vida de Vatrehuh. A clareira estava em festa com os pequenos animais noturnos daquela região. Enfim, as formigas pararam a dança. E pedindo a atenção de todos, disseram:

“Ah, nosso amigo! A alegria nos salta a essência por te rever! Apesar das circunstâncias, não houve melhor presente de Bel, pois acreditávamos que tinhas sucumbido aos ardis de teus inimigos. Sim, rebelião era tramada contra ti bem debaixo de teus olhos! Mas para que saibas de tudo o que aconteceu, temos nós que te contar, pois não compreendes o falar das Friyjuhim e do lobo! Sabe tu que, se a mulher Vilca está viva é por conta delas e do animal. Pois foram as Friyjuhim que o trouxeram. E o lobo quem a salvou de teu sobrinho perverso Jotuh. Aliás, temos que contar o que delas ouvimos enquanto caminhávamos pelas trilhas desses lados da floresta ainda não contaminados pela maldade do Caos em movimento. Ouve, oh rei do Povo das Árvores! Após retornarmos de nossas andanças no Oeste, onde conforme solicitaste, estivemos com Notrum, Lemael e Claekuth para deles pedir ajuda a ti, te procuramos em tua casa. Mas nos deparamos com o lugar em desordem, e haviam muitos cadáveres empilhados bem à entrada, à frente do grande portão de madeira. Uma barricada de troncos havia sido erguida ao redor da grande sequoia que te serve como palácio e o fogo nela era assustador! Homens sem as tuas insígnias faziam sentinela do lugar e isso mui nos intrigou. Assustadas, encontramos uma brecha na terra que nos levou ao grande salão da tua casa, e de lá seguimos em tua procura, sem sucesso! Pois vasculhamos cada cômodo e cada canto, até chegarmos ao corredor que leva ao lado sul onde estão celas. E para nossa surpresa encontramos Bsmivah acorrentado, e Magurth e outros homens respirando ameaças o açoitavam com chicotes e correntes. Indagavam sobre mantimentos e armas. Pois os celeiros estavam vazios. Bsmivah estava desfigurado e sangrando, e nada respondia! Temendo pelo fogo das tochas nas mãos daqueles homens malvados, e como não te achávamos, resolvemos de lá sair, e assim desesperadas percorremos as trilhas da floresta. Subimos nas árvores, adentramos os buracos da terra em busca de ti, pois temíamos por tua vida! Até que nos deparamos com o cadáver de Jotuh e reconhecemos Ranemann aos prantos sentada numa clareira mais ao leste. Agora ouça e creia no que tuas amigas têm a dizer! Jotuh tentou profanar o corpo de tua amiga Ranemann, e as Friyjuhim e o lobo são testemunhas! Pois algumas de nós que viviam nas terras dos Refúgios do Norte ouviram o traiçoeiro Jotuh e a malvada Atelith conjurarem contra ti e os teus juntamente com as casas de Magurth, Finerah e Guthrord. Sim, essas nossas irmãs já não estão mais aqui, pois foram cruelmente assassinadas por aqueles homens malvados, mas antes, contaram tudo o que ouviram às Friyjuhim que haviam fugido do inverno no Oeste procurando abrigo na floresta e a elas imploraram que avisassem às outras de nós. E tu bem sabes, meu amigo, como as Friyjuhim se importam e sofrem com as coisas que se passam na Terra dos Carvalhos! Pois representam o que restou da Alegria de Orath, quando Acheron ainda era jovem! Ademais, também sabem elas da amizade entre nossos povos e assim se compadeceram de nossas irmãs formigas e dos infortúnios de teu povo. Elas se dividiram em dois grupos, e algumas buscavam no leste da floresta e outras desceram ao sul, encontrando por acaso o lobo cinzento e os seus, que também do frio fugiam. E pediram ajuda do senhor dos lobos, pois é bem sabido que eles lhes devem favores. Mas os filhos do senhor dos lobos se recusaram a vir. Porém, ele, para cumprir a promessa feita pelos seus pais, veio com elas. E as que procuravam ao leste encontraram Ranemann e Jotuh em luta ferrenha contra os animais abençoados enlouquecidos! E salvaram-na da fúria malévola de um Crafaein e de um Draquon! E também tentaram afastá-la de Jotuh, mas ele foi mais rápido e conseguiu delas se livrar. E assim, perderam-nos de vista. Mas ainda assim, elas não desistiram de Ranemann! E continuaram em sua procura até se encontrarem por acaso com suas outras irmãs, que traziam o lobo e percorriam agora todos por entre as trilhas de teus domínios ao largo das estradas leste para não serem vistos. Foi quando se depararam com Ranemann amarrada aos berros enquanto Jotuh atentava contra a sua honra! Bem sabem elas que isso não é certo, e imploraram ao lobo que a ajudasse! Assim, ele a salvou, arrancando parte do pescoço do malvado abusador. E nós que estávamos em tua busca naquelas cercanias, nos encontramos com as Friyjuhim. Elas, aliviadas, nos contaram tudo o que lhes havia acontecido, e assim odiamos Jotuh, devorando, furiosas, sua carne já morta. Até limparmos seus ossos. E nos compadecemos de Ranemann, que chorava histérica copiosamente e mui ferida estava. E nesses lados, onde ainda a maldade do Caos não chegou, os animais que habitam aqui a alimentaram e dela cuidaram. E o lobo se afeiçoou a Ranemann. E como os lobos odeiam os homens degenerados que os atacam para lhes devorar a carne, pensou ele guiar Ranemann até as praias do Grande Mar pois dizia a si mesmo: “Poderá ela retribuir o meu favor e reunir os seus para destruir os meus inimigos?.  Mas nós estávamos preocupadas com o equilíbrio da essência de Ranemann, e resolvemos não levá-la para as praias do Grande Mar, conforme o lobo insistia, para mostrar-lhe o terror dos exércitos do Caos em movimento, e resolvemos com ela passear por algumas luas por esse pequeno pedaço da floresta ainda bela para assim lhe acalmar o coração. Até que o lobo achou a ti e a consorte do mago tremar! ”

Vatrehuh ouviu tudo mudo.

Continua…


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Sobre o Autor

perdeu as contas de quantos mantras realizou para zerar aos onze anos Faxanadu. Suas habilidades crescentes já na infância o levaram a fazer uso da Master Sword todas as vezes em que houve necessidade (desde a Criação até a Era o Caos e da Prosperidade). Atualmente anda às voltas com os reinos de Boletaria, Lordan e Drangleic porém nunca esquecendo que deve estar de pé às seis para levar luz àqueles que necessitam. Gosta de caqui, sustos, games, comida-que-mata, poesia, pringles, fantasia-fantástica, pôr-do-sol... e Pepsi! Não necessariamente nessa ordem.