As Crônicas de Acheron | Da reunião de Vatrehuh, Sabretil e Ranemann na clareira da Floresta do Leste

As Crônicas de Acheron é uma série de fantasia publicada toda quarta-feira no Mapingua Nerd.
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E o sangue correu quente nas veias de Vatrehuh como o cobre incandescente no cadinho dos ourives. –Traidores desgraçados! – Vociferava vez ou outra enquanto as formigas lhe contavam sobre a rebelião dos Refúgios do norte. E Ranemann e Sabretil os observavam expectantes, sem saber sobre os assuntos da longa conversa silenciosa. Até que ele se virou e as encarou. Seu olhar furioso carregava as labaredas do desejo esmagador de vingança. Titubeando as palavras, Ranemann indagou:

– O que elas disseram?

Os trejeitos do semblante e a entonação da voz do homem possesso alvoroçaram os animais que ainda faziam companhia às Friyjuhim e Gwlaud enquanto vociferava tudo o que ouvira para Ranemann e Sabretil.

-Eu avisei sobre Atelith! – Rosnou ele. – Ranemann, tua irmã morrerá pelas minhas próprias mãos! Agora sei que o que ouvi em silêncio eram ecos de seus pensamentos maldosos! Jotuh e Mafura já receberam a paga de Fyr! E espero que Jotih tenha realmente perecido na queda da Patrulha com Uhtyl na ida às praias do Grande Mar, pois se tiver sobrevivido, acabarei com ele também!

O praguejar de Vatrehuh continuou enquanto Ranemann se mantinha muda. “-Mas afinal, como pode Atelith ter se envolvido com o Malfazejo a tal ponto? –“ Seu silêncio escondia o coração devastado. Era como ele tivesse sido esmagado uma manada de busemontes. Sua irmã, a quem tanto amava a traíra. “ – Por amor a ti aceitei a demanda – “ Ainda lembrava de suas palavras quando estavam prestes a adentrar na Floresta Escura. E suas memórias rapidamente caminharam para o passado em Thelim enquanto sentadas nos poços de Mithmard ouviam as lições de Claekuth a respeito da instrução do Uno que salvou os Vilca da destruição da Água Súbita através da construção dos barcos de carvalho. De como cresceram nos campos coloridos do Malgaroth aprendendo a ouvir o tempo e a natureza. Das provações que suportaram juntas na corte de Notrum quando com doze primaveras foram enviadas para ser educadas como tremares pela Ordem do Templo e de como Atelith a ajudara contra as artimanhas de Safretin. Lembrou também do perdão que lhe dera quando ela lhe suplicou por ter se deitado com Melikae nos festivais. “ – Senhor da Cidade Abençoada, então todas as dúvidas que me puniam em pensamento sobre a maldade de Atelith eram verdadeiras! Mas como pode tramar contra mim? Tantas coisas vivemos juntas! – “ A velha dúvida retornara repentinamente transpassando sua essência da cabeça aos pés naquele instante. “ – Não. As formigas não mentem. Elas não têm essa capacidade pois sua essência é diminuta. Mas… e se Vatrehuh estiver mentindo? O que o levaria a isso? Não! Não posso me deixar levar pelos sentimentos! Vatrehuh não tem motivos para tal! Agora, irremediavelmente ele a perseguirá enquanto viver. – “ Deveria então apenas odiá-la? Ou ajudaria seu amigo na vingança? Sim, agora ela devia encarar Atelith como inimiga. Uma proscrita do seu povo oracular. “ – Que dor! Que dor! “

– Acalma-te, Ranemann. – O abraço comedido de Sabretil não surtiu efeito reconfortante. – Venha, sente aqui na grama, perto do fogo. – Pegou em sua mão, ajudando-a a sentar. – Compartilho contigo a tristeza da decepção! Pois sei bem o que é descobrir o lado obscuro de quem se ama. Afinal, quanto mais soube dos malfazejos de meu pai, mais me decepcionei mesmo depois dele ter cumprido o Ciclo. Mesmo sabendo também que ele fora um grande de seu tempo! Sabe, me pergunto por vezes se Damonih estivesse ainda vivo e de algum modo tivesse vindo parar aqui… como ele se sentiria ao encarar Vatrehuh? Afinal, foi por conta dele que o Povo das Alturas rompeu com Thelim, a casa de Lemael dos Vilca e a de Notrum de Ziporih. O que diria meu pai a Vatrehuh?

As palavras subitamente lhe faltaram. Ranemann e Vatrehuh lhe ofereceram apenas o silêncio de sua atenção. Encarou os dois, e tomando fôlego, continuou:

– Ainda mais agora, que a ameaça do Leste se avoluma grandemente. Afinal, eu vi, com meus próprios olhos, do que os bárbaros orientais são capazes e de como eles estão associados com forças malévolas inimagináveis!

E os olhos azuis graúdos da pequena moça ruiva marejaram até a pele rosada de seu rosto tremer pela respiração profunda. Ruminava ali as coisas terríveis que lhe aconteceram. – Eu vi, Ranemann. Tu ainda não o sabes. O Mal existe como os homens não imaginam. Talvez uns poucos o conheçam, como os oraculares, pois como dizem, andam pela Terra dos Carvalhos desde que suas essências desceram em forma de gota do Lago da Criação e receberam corpos do Uno. Assim, eles viram tudo o que sabemos sobre o mundo. E se estou viva hoje, certamente foi por permissão do dele. Sabe? Antes tinha minhas dúvidas do que ouço desde a infância a respeito do sobrenatural. Mas depois daquela noite… asseguro-te que sim, o Mal existe. E já que ele existe além do que se diz, o Bem também deve existir indo além da nossa imaginação. Talvez da maneira como dizem também os Antigos.

– Do que está falando, Sabretil? – Ranemann, intrigada com o discurso confuso, por um momento esqueceu a respeito de Atelith.

Ela continuou.

– Pois ouça. Porque Vatrehuh também viu e, em breve devemos decidir o que fazer. É importante que também ponderes a esse respeito. Saiba que, após eu, Zitri, Jotih, e Uhtyl partirmos com os mil homens da Patrulha montados nos Draquons e Crafaeins em direção às praias do Grande Mar… na segunda lua, os animais também enlouqueceram e atacaram o exércitos e a si mesmos. Eu e Zitri, que estávamos nos ares montados nas costas do maior dos Draquons, por pouco não fomos lançados fora, pois, nossas pernas ficaram atadas às selas pelos loros dos estribos, e o animal ensandecido, enquanto tentava nos arremessar, foi atacado por outro Draquon. E os dois lutaram pelos ares daquela noite enluarada até pairarem sobre as copas das árvores. Quando caíram por entre os galhos. E nós éramos chacoalhados e gritávamos desesperados! E assim fomos levados com eles. “ – Sobrevivi! – ”. Foi o que pensei atordoada ao perceber que estava presa no galho baixo de um grande baobá. Abaixo de mim, uma clareira da floresta repleta de corpos amontoados de soldados e de animais abençoados. A grama do lugar em desordem estava coberta do sangue que também pintava os troncos das árvores. Por todos os lados vi muitos de nossos homens sobreviventes miseravelmente sendo devorados vivos pelas feras, mas muitos outros também fugiam de pavor naquela noite carmesim. Ainda aturdida, me forcei a descer até o chão, e trôpega, me escondi por um tempo entre as raízes do baobá. O frio da madrugada se avolumou através do profuso suor que brotava da minha pele, pois de súbito lembrei-me de meu amor. “ – Teria ele sucumbido à queda? – ‘ Ainda pensava em Zitri quando o grito ensandecido de um Crafaein ecoou por toda a clareira. A fera me avistara, e tentava me devorar colocando a cabeça por entre as raízes num frenesi malévolo. Várias vezes consegui me desviar, e na primeira oportunidade, fugi pelo outro lado. Correndo com toda a minha força que ainda restavam nas pernas, pois não era párea para enfrentar aquele animal sozinha e apenas com adagas! Por um tempo, ouvindo os gritos dos que eram mortos ali se distanciando. A esmo. Eu não conhecia caminho algum. Apenas corri. E me escondia por entre as árvores, assustada. Para descansar. Até a dor penetrante no meio das costas se transformar em torpor. “ – Sim, algo me acertou… – “ Foi o que imaginei antes de desmaiar.

– Ah, menina! Não fique assim! Bem sabes que tive de enfrentar agrura semelhante. – Ranemann a interrompeu repousando a mão no ombro ao ver seu semblante se contorcer conforme progredia no relato. – Sabretil apenas a fitou por um momento enquanto sentada catava algumas pequenas pedras do chão úmido. – Obrigada, guerreira. Tuas palavras são sinceras pois sei que praticas a bondade. E isso me dá exemplo. Assim como as virtudes de Zitri. Oh, meu amor! Ainda estará vivo afinal? – A tenacidade de Sabretil a impedia de chorar ali, diante de Ranemann e Vatrehuh. Ele apenas a observava compartilhando em silêncio a dor e o terror de quem conhecera o Ninho.

– Se quiser, podemos descansar. De forças renovadas, certamente será melhor para vós. – Disse Ranemann, apreensiva.

– Não. Estou bem – Ela respirou fundo engolindo o choro. – Tens que entender que é urgente e devemos decidir logo o que fazer. Aliás, não estamos seguros aqui.

– Continue.

– Então atente. Pois Vatrehuh, de tudo o que aqui tenho dito, já o sabe. E se não fosse por ele, certamente já teria cumprido o Ciclo também. Afinal o Mal que domina essas terras é poderoso. E tem pervertido a criação do Uno. Como no início as criaturas se contaminaram com o sangue pútrido de Draemoniach. Hoje, nesse instante, coisa igual acontece. Pois após recobrar os sentidos depois de perdê-los na floresta, meu corpo ainda adormecido não se movia e a visão turva dos meus olhos mal permitia que eu identificasse o lugar onde estava. Os sons em meus ouvidos ora distantes, ora próximos… eram ainda incompreensíveis para minha mente anuviada pela droga contida na ponta da seta que me atingiu. Não sei quanto tempo permaneci assim, mas lentamente meus sentidos retornaram e então pude ver as pilhas de corpos ao meu lado e sentir um fedor peculiar nauseante que queimou minhas narinas e contaminou meu peito. Mas não erguia meus braços, nem movia as pernas. Apenas meus olhos semiabertos se movimentavam devagar vendo a podridão do sangue coagulado que servia de tapete para o chão onde bárbaros orientais com suas peles morenas pintadas do azul e vermelho típicos iam e vinham trazendo da floresta outros homens amarrados, mortos e vivos. Eram lançados também no canto imundo onde eu estava. Quantos corpos! Quanto ratos! Os gritos de desespero dos que estavam vivos e acordados eram coibidos com açoites e torturas. E temendo o tormento fechei os olhos para não me notarem por um breve momento que parecia não ter fim até sentir o apertar de cordas na altura dos joelhos. Assim fui arrastada, e abrindo um pouquinho o canto dos olhos, vi o maldito que me puxava. Era um oriental alto em trajes minimalistas de pele lisa e cicatrizes pintadas de azul por todo o dorso. Ia na companhia de outro menor e mais corpulento, que também arrastava um homem desacordado. Enquanto era levada, percebi que o lugar era coberto por uma estrutura de madeira e palha sem paredes. Até que pararam, e me deixaram num canto dentro de uma espécie de manjedoura contendo uma lama negra morna que me cobria deixando apenas o rosto de fora. A conversa dos asquerosos era incompreensível, pois falavam freneticamente a língua oriental. Mas havia maldade no seu sotaque gutural e por vezes fungavam e gargalhavam de prazer enquanto torturavam sem motivo aparente os outros prisioneiros que ali estavam também. Sim, também existiam outros. Estávamos em uma espécie de estante, com diversas manjedouras do chão ao teto. Ao lado, duas grandes escadas por onde os bárbaros subiam e desciam carregando os prisioneiros. Ali permaneci em silêncio, quase submersa e aquecida pelo líquido viscoso, ouvindo gritos e as vozes dos homens cruéis. O lugar todo era iluminado por tochas, e de tempos em tempos um barulho seco se misturava ao escorrer de alguma coisa que era parecia ser lançada a uma boa distância abaixo fazendo eco. O tempo passou, e por um momento percebi que as conversas e os gritos cessaram. Abri os olhos novamente os olhos, mas não conseguiria me virar até que cada canto da minha pele sentiu uma presença sobremaneira maligna a ponto do meu tremor movimentar aquela lama negra nojenta. Uma voz grave e seca se dirigiu aos homens orientais numa língua grotesca e inominável que poderosamente fez tremer toda a madeira da estrutura ali erguida. “ – Senhor da Cidade Abençoada, nunca fui uma crente em ti, mas se me ouves aqui, salva-me! – “ Foi apenas o que pude pensa até sentir uma mão violenta me agarrar para em seguida ser lançada no chão. Com o corpo de bruços e o rosto suspenso para fora da extremidade de um abismo enorme e profundo, contemplei a maquinação do Mal nas terras do Leste. Pois vi nas paredes do abismo trilhas escavadas repletas de orientais indo e vindo de um lado e homens degenerados do outro. No centro e emergindo da escuridão, uma grande estrutura erguida das fundações da terra recolhia a água negra viscosa em ductos levando-a para outras estantes em níveis inferiores, alimentando assim a engenhosa invenção maligna. Enquanto o terror ainda me assaltava, mais uma vez fui agarrada pela criatura medonha e de imediato fechei os olhos me fingindo de morta. Seu falar era terrível! Tudo ao redor tremia com o poder maligno que acompanhava suas palavras, e suspensa pelas mãos poderosas e de unhas pontudas, sentia a respiração que saia de suas narinas passear dos meus pés à cabeça, até chegar em meu pescoço, gelando meu sangue a ponto de quase morrer. A voz medonha então disse algo como se repreendesse os homens que o acompanhavam, que retrucaram em tom ferino. E o lugar tremeu com os gritos da criatura, que odiosa me laçou com violência no chão. Mesmo ferida e com dores do impacto, ainda pude vê-lo de costas. A fumaça negra que escondia suas pernas deformadas permitia que ele se movimentasse com avidez contra os homens delituosos que eram espancados com sua grande clava cheia de cravos de metal. Sua grande estatura fazia os orientais parecerem crianças e ele se deleitava em esmagar os crânios dos homens até o sangue banhar todo o chão. De seu corpo parcialmente descarnado brotava a mesma fumaça que também lhe cobria os cabelos, como se fossem tentáculos que se projetavam no interior dos barris empilhados ligados as manjedouras por calhas finas que as enchiam com a lama maligna. Suas costas eram protegidas por uma armadura de couro e bronze reluzente, e atada a ela uma bolsa com tiras de metal guardava um arco com diversas setas de ponta serrilhada.

– Pelo Uno, Sabretil. Que criatura medonha! – O relato terrível produziu em Ranemann calafrios que deixaram sua face trêmula. – Quão terrível deve ter sido esses momentos!

– Sim. – Respondeu-lhe com o semblante soturno, e continuou. – Ali, amarrada e indefesa, certamente pensei que seria meu fim. Mas por algum motivo, o monstro após assassinar os homens, virou-se para os lados e se foi, me deixando ali caída. Certamente fui agraciada pelo Uno em não ver seu rosto, pois penso que certamente teria cumprido o Ciclo ao conhecer a face do Mal. Fiquei ali, até finalmente ser arrastada para fora daquele lugar horrendo por Vatrehuh, que rondava o Ninho secretamente…

– O que é esse Ninho? – Ranemann indagou.

– É como chamamos aquele lugar maldito. Pois ali estão sendo produzidos os soldados do Mal que pretende afundar Acheron em corrupção eterna. – Respondeu-lhe ela.

– O Caos em movimento certamente está reunindo um exército de homens degenerados ali. No Ninho. Não creio que o monstro seja ele, em matéria. Deve ser um de seus generais. Ou outra criatura malévola por ele criada. Afinal, quem sabe o que fazem naquele lugar maldito além de degenerar a raça dos homens? – Disse Vatrehuh, pensativo, interrompendo Sabretil.

Ranemann após um tempo em silêncio, respondeu:

– O monstro que descreveste. Eu o já o vi em visões, por duas vezes. E tu estava comigo em uma delas. Nas praias do Grande Mar. Uma terrível guerra. Não é delírio nem são ecos do medo que me assola! São avisos de Bel. Mas agora que a Patrulha se foi e o palácio de Vatrehuh está nas mãos de rebeldes, como poderemos sobreviver a tão grande Mal?

Vatrehuh virou-se para a multidão de formigas no chão que atentas ouviram tudo.

Continua…


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Sobre o Autor

perdeu as contas de quantos mantras realizou para zerar aos onze anos Faxanadu. Suas habilidades crescentes já na infância o levaram a fazer uso da Master Sword todas as vezes em que houve necessidade (desde a Criação até a Era o Caos e da Prosperidade). Atualmente anda às voltas com os reinos de Boletaria, Lordan e Drangleic porém nunca esquecendo que deve estar de pé às seis para levar luz àqueles que necessitam. Gosta de caqui, sustos, games, comida-que-mata, poesia, pringles, fantasia-fantástica, pôr-do-sol... e Pepsi! Não necessariamente nessa ordem.