As Crônicas de Acheron – sobre o sinal das águias e a decisão de Notrum

Publicado em 30 de novembro de 2016 | Por Antonio II | As Crônicas de Acheron, Contos, Destaques, Literatura

As Crônicas de Acheron é uma série de fantasia publicada toda quarta-feira no Mapingua Nerd.
Para ler os capítulos anteriores, clique aqui.


–Dizei a teu amigo que estamos em apuros – falou o senhor de Ziporih a elas. Sofremos um cerco de muitos dias e precisamos de ajuda tanto quanto o Povo das Árvores. Pode parecer barganha, mas se Vatrehuh nos ajudar… teremos chance em ajudá-los também.

Enquanto observava as formigas descerem rapidamente da parede feita de grandes pedras recortadas em meio ao fogo sobrenatural, Notrum – apoiando-se em seu cajado – pegou uma tocha e foi até o altar no centro do imponente edifício e acendeu a pira, queimando assim as maçãs. – Vejam, diariamente tenho oferecido sacrifícios ao Uno. O inverno veio, e apenas o silêncio subsiste. Respondam-me, ó formigas amigas, seria a vossa chegada a essas terras desoladas pelo Mal a resposta do Senhor da Cidade Abençoada?

Em resposta a ele, assim disseram na língua dos Antigos:

“Vozisthie siyr dartnhfvar Aiuneun. Vozisthie muutwgar dehin ghbill wer zarr nirtgtar suir gathwoum. Frotihgve nirtgtoug gathwoun sear frotihfvaer tir. Iatrehui gathwoun sear whuther nuer “

“Em vão sacrifiqueis ao Uno. Em vão, pois te fizeste como voz que não pode ser ecoada por homem algum. Ouvirdes o lamento dos amigos, e ouvimos o teu. Assim seja para nosso amigo Vatrehuh o qual consultaremos.”

na língua média falada à época da Era do Declínio

E elas em fila viraram suas costas para Notrum. Já perto do meio-dia, algumas pessoas adentravam o Templo da Ordem para os serviços. Naquela fria manhã de inverno, nos limites do Malgaroth, o senhor de Ziporih mais uma vez julgou aqueles que o buscavam em nome do Uno. Mas as preces vazias proferidas em seu trono de pedra não chegavam às portas de Bel por conta da corrupção de gerações passadas desde a morte de seu construtor Nartreg. Em minhas visões, eu…Claekuth, a senhora de Thelim, vi o semblante atormentado do velho homem, com sua imponente vestimenta vermelha e azul e seu profano Matrih, proferir palavras de hipocrisia e falso alento para o povo oprimido pelo cerco dos bárbaros do leste. As luzes dos suntuosos candelabros e o canto ritualístico dos sacerdotes impressionavam todos os que ali, no interior do grande Templo construído com pedras retiradas dos pés das Femiaren, estavam em busca de conforto para suas dores. Porém, o Uno não os ouvia. E as formigas, entristecidas, às portas do Templo da Ordem se voltaram para Notrum e, chorosas, disseram em voz alta, causando assim admiração em todos:

“Trahygfar zjafurh duir trahygfer. Bjvaiir piyor dfaar shutrir hosj trieh. Aiuneun fgaar dier girdear.”

“Abandona o malfazejo, abandona-o. E volta à vida simples de teus pais. Só assim o Uno te dará a Paz.”

E marchando, se foram.

***

Dentro da torre erguida no ponto mais alto do planalto circundado pelas águas do Trufhontis1 estavam Klith e Mafroun esperando Dzfarthyr. A viagem de duas horas a cavalo se estendera para o dobro por conta da neve que havia coberto o caminho até Tremar2. Mafroun, apreensivo, observava a aparência bruta dos soldados que os acompanharam ao chegarem às portas da cidadela tomada pelos exércitos dos homens do leste.

–Espero que saibas o que estais a fazer, meu irmão – disse em voz baixa, Mafroun. Não é seguro confiar nos selvagens.

–Aquieta-te. E cuidado com o que dizes. Não está em meus planos cumprir o Ciclo nas mãos desses bárbaros! Retrucou, nervoso, Klith se arrumando na cadeira.

–Não seja tolo, eles não compreendem o que dizemos.

–Não subestime os homens do leste. Suas armas excedem em leveza e corte às nossas. E viste os Crafaeins e as beseras? Possuem centenas deles! E alguns falam nossa língua. Já conversei com seu líder sem necessidade de intérprete. Comporta-te para que tudo corra bem agora.

A conversa nervosa foi interrompida pela chegada de Dzfarthyr e seus homens que, adentrando no salão, saudou os dois. Klith e Mafroun de súbito se levantaram.

–Vejo que trouxeste companhia, meu caro. Como se chama o rapaz?

–Mafroun é seu nome. E ele é meu irmão. Não se preocupe, pois ele está a par de tudo o que conversamos. Vim aqui conforme prometi em nosso último encontro.

–Espero. Pois se faltares com a palavra, destruirei tua cidade e extinguirei teu povo com violência – disse sorrindo discretamente o homem corpulento de pele morena envolta em peles de animais, se aproximando de Mafroun enquanto o fitava.

–Não te preocupes, senhor do leste. Estou contigo para que Ziporih e os povos do Grande Mar se unam pacificamente. Infelizmente meu pai não pensa assim e levianamente tem planejado, sob influência de seu general, um ataque – disse Klith.

–Teu pai é um louco, pois não sabe o que está prestes a enfrentar. Meu Senhor nos concedeu o domínio do fogo e dos raios e animais abençoados…além das feras malignas que os Deuses caídos Atheran e Gwinvein abandonaram no Maphion após sua queda. Dez mil homens cercam tua cidade, e mais dez mil estão espalhados pelo Malgaroth. Já tomamos tua cidadela, e ocupamos todo o planalto. E há ainda as patrulhas que vigiam o rio. Não vês?! Teu povo está fadado ao fracasso se ousar guerrear. E não ousem chamar aliados, pois o caminho da Malem além da bifurcação que vai até as terras do Povo das Tendas e Thelim é vigiado por nossos arqueiros e feiticeiros e suas montarias.

–Nunca pediríamos ajuda de Claekuth e Lemael. Meu pai foi logrado por Thelim em não enviar Ostragion para ser educado como tremar no Templo da Ordem, e como desculpas pelo malfazejo dos oraculares, Lemael deu a Notrum suas mulheres. Foi então que ele se apaixonou por Taremil. Mas graças ao Uno a ardilosa tem o ventre seco como o Clahtemariaeh e nunca concebeu de meu pai – disse Mafroun – Suas tramas em muito o distraíram e, sabendo que Sorbam tem maculado a cama de Notrum por se deitar com sua consorte, tememos que ele seja assassinado.

–Por isso é necessário livrar Notrum da influência de Sorbam e Taremil – continuou, Klith – Se conseguirmos provar sua traição, o caminho estará aberto para negociar a paz.

–Nosso pai tem alta confiança em seu general tremar. Infelizmente, não será tarefa fácil desmascará-lo – interrompeu Mafroun. Além disso, como voz do Uno, ele não admitiria aliança com forças contrárias à sua devoção ao Senhor de Bel. Mas sem Sorbam e Taremil, certamente conseguiríamos dobrá-lo quanto a esse negócio, pois ele é fraco de caráter.

O bárbaro, sentando-se, riu ironicamente.

Então será mais fácil do que imagino. Vejam – e tirando do bolso mostrou-os uma gema, entregando-a a eles – esse olho guardará o que precisam mostrar a Notrum. Como farão… isso é convosco. Vocês têm uma semana. Se não tiver resposta após o prazo, atacaremos Ziporih. E não ficará pedra sobre pedra. Olhem! Vejam o que está nela!

Os dois homens então de posse da pedra azul turquesa atentaram para os matizes reluzentes que emanavam dela. Então puderam ver tudo o que acontecera naquela manhã, enquanto conversavam. Admirados, esconderam-na.

E despedindo-se, saíram de volta à cidade.

***

–Vamos! Defender! Isso! Lâminas ao centro e escudos para o alto! Posição de caranguejo! Direita! Esquerda! Ataque!

Aos gritos, Sorbam dava ordens a uma grande fileira de homens dispostos no campo aos fundos da fortaleza do senhor de Ziporih. Com agilidade, se movimentavam pragmaticamente a cada comando recortando o vento frio com suas espadas curtas e movimentando seus escudos.

–Estarão prontos para a próxima Lua? Temos que nos apressar, pois o inverno logo se tornará mais rigoroso. Preciso dos soldados bem treinados e resistentes a provação do frio. Se ao menos Zitri e Melikae ainda estivessem vivos…– disse Notrum.

–Meu Senhor, dou minha palavra que estarão prontos antes do esperado. Mas ainda assim nosso exército é menor que o dos bárbaros. Certamente os homens do leste são mais de vinte mil. Pois são necessários pelo menos dez mil homens para um cerco sobre Ziporih. Além disso, podemos ver de nossas muralhas o grande número de homens que estão em Tremar subindo e descendo o planalto diariamente. E sim, também tenho saudades de nossos amigos. Eram os melhores no que faziam em um campo de batalha!

–Não choremos mais os mortos. Infelizmente Zitri e Melikae foram levados pelas artimanhas de Claekuth e Morjal em uma demanda fantasiosa. E que estejam felizes ao lado de Fyr! Ainda temos a ti, Sorbam, nosso herói! Que fez tombar gigantes! Mas agora só há você. Por isso, meu Senhor… mais uma vez peço – disse Jiltrate, enquanto ao lado de Sorbam observava o treinamento dos tremares – vai ter com o líder dos selvagens, tu e teu general, e negocia a paz. Não temos como enfrentar exército tão numeroso. Em nossas fileiras não deve existir quinze mil soldados.

–Nove mil, para ser exato. Mas recrutaremos todo homem e criança que puder empunhar uma lâmina. Nosso exército terá então mais de cinquenta mil – respondeu Sorbam, bramindo suas lâminas – porém, os orientais são viçosos em força. E terei de comandar homens em sua maioria inexperientes na guerra. Assim, existe ainda chance de sucumbirmos. Realmente, negociar o fim do cerco seria uma escolha sensata.

–Temo provocar a ira do Uno agindo assim. Pois existem vários exemplos do passado heroico dos homens a respeito disso. Como voz do Uno, não posso ir contra o seu desejo. Tenho que dizer a vós… ou lutamos e vivemos… ou morreremos, mas que seja lutando – Respondeu a eles, dando um suspiro.

–Ouviram?! Vejam! Lá, no alto – disse Jiltrate, assustado.

–Águias! Várias! Isso é um presságio, pois não voam em bandos – admirado, Notrum observou-as subindo e descendo os ares acinzentados e nevoentos como se estivessem saudando todos os que estavam ali no campo coberto de neve – há muito que o Uno não respondia minhas preces tão claramente! Sim, meus amigos, certamente haveremos de vencer, pois hoje o Senhor de Bel nos visitou através das filhas de Zetricon! Convocarei todo homem de Ziporih a empunhar armas e vamos derrotar nossos inimigos. Me deem licença, pois agora vou cear. Taremil me espera.

Notrum então se retirou.

E vi o velho senhor da última Cidade de Pedra com seus longos cabelos grisalhos cuidadosamente trançados à barba espessa retornando à sua fortaleza, onde sua consorte o aguardava para mais uma noite de glutonaria e sexo devasso. Também vi, no silêncio de sua alcova, Sorbam chorar de joelhos enquanto se flagelava. Seu olhar voltado para o Templo da Ordem através de uma pequena janela procurava algum perdão pelo malfazejo que há tempos vinha cometendo contra o seu senhor. E eu, Claekuth, vi as formigas retornarem entristecidas tomando a Malem rumo ao Clahtemariaeh. Porém, vi também um grande grupo que marchava já às portas do Palácio dos Censores, em busca de Lemael. E descendo a planície em direção aos meus domínios em Thelim.

Continua…

1-Braço do Acherontis que nutre os riachos e lagos do Malgaroth;

2-A cidadela dos exércitos de Ziporih. Construída por Nartreg, serviu de posto nas guerras contra os habitantes das Terras Proibidas;

Sobre o Autor

perdeu as contas de quantos mantras realizou para zerar aos onze anos Faxanadu. Suas habilidades crescentes já na infância o levaram a fazer uso da Master Sword todas as vezes em que houve necessidade (desde a Criação até a Era o Caos e da Prosperidade). Atualmente anda às voltas com os reinos de Boletaria, Lordan e Drangleic porém nunca esquecendo que deve estar de pé às seis para levar luz àqueles que necessitam. Gosta de caqui, sustos, games, comida-que-mata, poesia, pringles, fantasia-fantástica, pôr-do-sol... e Pepsi! Não necessariamente nessa ordem.

Comentários