As Crônicas de Acheron | Prólogo – A Batalha de Damonih contra Ninrim e a Visão de Claekuth – Parte II

As Crônicas de Acheron é uma série de fantasia publicada toda quarta-feira no Mapingua Nerd.
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-Hum! Mas que gostoso! Então era isso que estava a aprontar lá dentro, enquanto estávamos aqui fora conversando?

-Sim, e o mais belo disso tudo: pensando em você! – respondeu e, abraçando-a, beijou-lhe a testa – e vós, minhas amigas?! – Indagou, derramando mais um pouco sobre os pés do poço – o que acharam?

-Nunca provamos algo igual por nossas andanças nas moradas dos homens. O que tem afinal além de cerveja preta?! Hum… quanta doçura! Adoramos doçura! E é cremosa! Sabes bem como nos agradar, amigo! – Responderam, se lambuzando na poça de bebida que se fez.

-Ah! Está vendo?! Vai também um pouco de neve, com manteiga, ovos e açúcar. E uma calda de mel! E algumas poucas especiarias, como noz moscada, canela e gengibre! Gostaram também da maçã assada? Perfeito para noites como essa, não se sentem aquecidas?!

-Sim! Excelente combinação para ceias de inverno! – Falamos, enquanto sentíamos a textura macia da fruta liberar o cheiro do cravo e da canela – Claekuth deve ser orgulhar de ter um consorte como tu, amigo. Sempre que estamos em Thelim, somos apresentadas às tuas novidades culinárias! Não é, Claekuth?

Nossa amada amiga abraçada a ele nos observava, sorridente, enquanto aproveitávamos a bebida peculiar espalhada no chão. – É por isso que ainda estou com ele! Como posso deixar de amar tão inventivo cozinheiro?!

–Ah, olhem só que revelação, amigas! Ouçam todos, habitantes desse jardim! A grande Claekuth acaba de confessar, após incontáveis primaveras ao meu lado, que seu amor por mim se perpetua por se comunicar diretamente com os desejos do ventre! Nada mais que isso, meu amor? Disse ele, já sob os efeitos ébrios da bebida cremosa, beijando com vigor suas mãos, e em seguida levantando os braços.

-Tua essência espirituosa também me completa, apesar de teus defeitos – respondeu, olhando ele com ternura. Anda, enche minha caneca. Deixa eu tomar mais um pouco dessa bebida extraordinária… e apreciar esse último punhado de erva. Vou na lareira, acendê-la e já volto.

Beijando sua boca levemente, saiu.

E assim seguimos nos divertindo, sob a luz das poucas estrelas que conseguiam romper a escuridão das nuvens invernais que cobriam o céu de Thelim naquela noite. Relembrávamos juntos nossas aventuras por todas as primaveras que vivemos, e isso nos renovou o ânimo, antes diminuído pelas tragédias vistas quando ao lado da Patrulha auxiliamos Sertravh contra a ameaça dos homens do leste e suas criaturas bestiais nas terras das Sequoias Colossais. Por um momento, não sentimos falta de Claekuth, que se demorava em retornar, até que ela, correndo… apareceu. Assustadas, perguntamos:

– Minha amiga! O que aconteceu!?

-Por que demoraste tanto, mulher?! – Emendou Morjal, se virando, intrigado – que é que viste para estar nesse estado?

Seu semblante pálido, refletia uma angústia nunca vista por nós antes em Claekuth. De suas têmporas escorriam gotas de suor, que se misturou aos restos da cerveja no chão de pedra próximo do poço. Suas mãos trêmulas, buscaram as de Morjal, que a sentou no banco. Colocando os dedos sobre a testa, disse:

-Acho… acho que estou com febre. Mas é o medo… que me dominou. Ou teria sido outra força?

 Ouvimos sua voz, perplexas. Assim como Morjal. Porém nada respondemos. Continuamos em silêncio, observando-a. Até que nervoso, Morjal finalmente falou:

-Diz, Claekuth! O que foi que viste lá dentro? Foi novamente aquela visão?!

-Não. Não aquela. Pela Alegria de Orath, quanta maldade! Meu amor, meu amor! – Abraçando- o, continuou – Eu vi, enquanto acendia a erva – a fumaça do cachimbo tremulou em profusão e se misturou à da fogueira. Tudo se tornou devagar e distante, como se estivesse inebriada pela bebida. E por um momento pensei que assim fosse. Mas entre as labaredas, uma fumaça diferente…negra e pútrida, tomou a madeira e a pedra, enchendo todo o cômodo. Meu coração disparou, e eu não conseguia encontrar a porta. E então eu vi… sobre muitas águas violentas, homens iam e vinham junto a criaturas grotescas, erguendo fundações das profundezas amaldiçoadas por um Mal que se escondia, com grandes tentáculos negros, e que pareciam feitos de fumaça, até finalmente esse Mal… tomar forma de homem… e se sentar em um trono terrivelmente ornado com preciosidades e ossadas e prostitutas lascivas…e a sua aparência era terrível! A ponto de quase desmaiar ao me deparar com tão medonha visão!

-O rosto de Morjal empalideceu. Sua voz, embargou, enquanto nós, desnorteadas com o relato sinistro, corríamos desordenadamente sem rumo em círculos. – Claekuth, não. Isso foi delírio da bebida, não foi?! – Disse, pausadamente, gaguejando.

-Não! Eram eles. E eu sei, porque os homens que levavam grandes troncos e rochas, matavam uns aos outros…enquanto proferiam palavras horríveis e inomináveis! Eram invejosos, ambiciosos…e nutriam ódio…parecendo loucos! Como se estivessem num frenesi malévolo perpétuo. Uma loucura que não cessava! E vinham até mim, como se quisessem me arrancar a vida de dentro do meu peito! E eu estava tão desesperada, mas finalmente encontrei a porta no meio da fumaça…

-Os Três Males – balbuciamos.

-Sim. E o Caos em movimento… era ele! Disso sei! Foi um aviso! Ele não foi destruído! Senhor de Bel… o que faremos!? Era isso, a predição do Herói versava realmente sobre ele! O Mal da predição, é ele. Ele é a origem dos Três Males!

Aquilo nos intrigou. Pois todos sabíamos que antes do aparecimento de Draemoniach no Período de Dissenção, os Três Males já assolavam Acheron através das Guerras Silenciosas entre os Milcah e o Vilca. E a visão de Claekuth do Trono do Uno estava para após a descida da Água Súbita, quando o Caos em movimento foi destruído! Teria sido delírio de Claekuth por conta da mistura etílica com os efeitos excitantes da erva? Estaria ela interpretando erroneamente o que viu?! Tristes, nos aproximamos de nossos amigos, que estavam em silêncio. E nada mais dissemos. E no amanhecer voltamos para nossas casas, nas brechas da terra.

Mais tarde, o avançar do terror que vinha do leste provaria que a visão era fiel. Todos devem saber: na noite insólita da Visão de Claekuth, estávamos nós as formigas, e Morjal… ao lado da oracular, como testemunhas. Que seja registrado isso no Livro dos Dias, para que sirva de instrução e correção aos que leem as crônicas dos homens que lutaram bravamente contra as forças malignas no fim da Era do Declínio.

Sobre o Autor

perdeu as contas de quantos mantras realizou para zerar aos onze anos Faxanadu. Suas habilidades crescentes já na infância o levaram a fazer uso da Master Sword todas as vezes em que houve necessidade (desde a Criação até a Era o Caos e da Prosperidade). Atualmente anda às voltas com os reinos de Boletaria, Lordan e Drangleic porém nunca esquecendo que deve estar de pé às seis para levar luz àqueles que necessitam. Gosta de caqui, sustos, games, comida-que-mata, poesia, pringles, fantasia-fantástica, pôr-do-sol... e Pepsi! Não necessariamente nessa ordem.