As Crônicas de Acheron | A carta perdida de Claekuth entregue aos irmãos da Ordem do Templo

As Crônicas de Acheron é uma série de fantasia publicada toda quarta-feira no Mapingua Nerd.
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Me chamem de Claekuth. Pois eu vi o Malgaroth e os bosques da região que os Antigos chamavam de Sithen em seu colorido primaveril desde a Era da Prosperidade. Sim, eu vi o respingar das águas do Lago da Criação cair sobre o Clahtemariaeh, trazendo toda sorte de criatura abençoada e plantas magníficas para inundar de beleza as areias de vidro povoadas pelos grandes carvalhos que habitavam por todo o vale. Eu e os meus, em nossa morada de luz, vivíamos em harmonia com a criação do Uno e seus filhos, nos regozijando em eras com o admirar de todos os deuses criados que nos davam luz e escuridão. Calor e frio. Em nossa glória terrena, tínhamos livre ir e vir às macieiras de Nelmitri. No interior do bosque ao centro de toda a Terra dos Carvalhos. Sim, o bosque que ligava Bel a Acheron era visitado pelos homens… e lá o Uno em sua onipresença estava juntamente com seus Filhos Orath, Gorath, Fyr e Zetricon à cada viração do dia para ouvir nossa voz. Nossa vida próspera residia em comer dos frutos de Nelmitri, e isso fortaleceu os homens através das eras de sua juventude, tornando-os fortes e inteligentes. E a nossa raça prosperou.

Com tamanha inteligência proveniente das fontes do Uno, os homens se tornaram grandes construtores e sábios. Porém, os simples de essência ergueram tendas para habitarem em simplicidade e assim homenagearem o Uno com a leveza de mente e caráter ao redor de seus líderes. E assim diziam ser “Vilca1”, pois em sua simplicidade possuíam Censores para governá-los e saudavam Orath, o Maioral dos Prazeres Lícitos. E eu, Claekuth, que participei da aurora dos homens em Acheron, escolhi me tornar um deles, pois em minha essência fui simples como a gota do Lago da Criação que me formou. Mas alguns se ajuntaram nos limites do Malgaroth levantando grandes muros e casas em torno de seu maior monumento: as Moleth. Em sua majestade, foram erguidas com a inteligência de secar o barro, transformando-o assim em grandes tijolos. Eu, Claekuth, vi as grandes torres serem erguidas para a honra dos que vieram dos Vilca que outrora habitavam o Malgaroth em tendas. E em meus pensamentos disse a mim e a Morjal: “–desfecho ruim será persistirem em levantar ainda mais tamanha construção”. E em meio ao orgulho que nasceu no coração dos reis que se chamaram de Milcah2 foi assim erguida Formetalion, a cidade onde, em princípio, o povo construtor saudava o Maioral dos Heróis, Gorath. Porém, o malfazejo que crescia na mente dos homens da Formetalion assim tomou a essência do povo construtor, tornando-o inimigo do Uno, e eles passaram a degenerar a adoração ao Senhor da Cidade Abençoada. Pois a inveja da simplicidade de seus irmãos Vilca foi o Primeiro Mal que sobreveio a Acheron. E com a inveja, veio então o Segundo Mal: a ambição. Isso permitiu que os que se chamavam de Milcah desejassem coisas grandiosas para si. E assim se tornaram grandes construtores. E passaram a fazer de si, deuses.

Por fim, os Milcah criaram para si os Bellihim e levantaram postes e os penduraram nas muralhas da Formetalion em sua homenagem, queimando seus filhos e sacrificando o sangue de seus corpos. Assim, perseguiram silenciosamente os construtores os meus irmãos Vilca, assassinando-os por todo o Malgaroth e até os limites do Clahtemariaeh. O Terceiro Mal – o qual foi chamado de ódio – movia os Milcah a perseguirem seus irmãos. E eu vi, com lágrimas que se misturavam ao sangue dos meus irmãos Vilca por todos os campos e vales que engoliram a sua carne, o princípio da perversão de tudo o que era perfeito pela mão do Uno e a guarda de seus Filhos. Nessa época, as essências das esposas de Orath vagavam pelo Malgaroth também assassinando o Povo das Tendas, e assim desceu Zetricon para resolver tal situação. Porém, o Amor que ainda restava nelas transbordou em Illil – a esposa do quase-meio de Orath – e Zetricon se apaixonou perdidamente por ela. E no Malgaroth, os casais se deitavam nos festivais para homenagear a águia de prata e a essência de Illil. E vi em diversos festivais os filhos dos Vilca se tornarem mais e mais fecundos atribuindo isso falsamente a Orath. E o Maioral dos Prazeres Lícitos se enfureceu contra seu irmão Zetricon e pediu que entregasse a essência de Illil a ele. “–É para lançar praga” disse Orath. Mas Zetricon assim não permitiu e implorou ao Uno que, por conta de tal malfazejo contra seu irmão, lhe levasse a própria essência. O Uno, entristecido atendeu a Zetricon. E para fazer de seu sacrifício perpétua lembrança, guardou Illil em Bel. E ela ficou conhecida como a Senhora de Zetricon, o Maioral caído. E o Amor de Illil e Zetricon foi de tal modo, que em minhas visões vi o Uno sentado em seu trono reluzente dizendo:

“Se existir esperança para Acheron após a descida da Água Súbita, que venha ela do Amor entre meu arauto e sua Senhora. Pois apenas o Amor de Zetricon e Illil permitirá aos homens de boa essência salvarem a Terra dos Carvalhos do Mal que a assola.”

A perseguição dos Milcah contra os Vilca em muito desagradou o Uno e o vi também esbravejar de seu trono em minhas visões. Pois assim tive eu – a quem chamam por todo o Malgaroth de Claekuth – que sair da minha parentela do Povo das Tendas para avisar Drimin. Sim, o jovem rei Milcah ouviu a voz do Uno e interrompeu a sangrenta perseguição aos Vilca e nós lavamos as muralhas e as Moleth de todo o sangue derramado e adoração pervertida aos demônios do Bellihim. Isso em muito agradou o Uno e os que ainda em suas essências o amavam e secretamente lhe prestavam culto. Porém, o Malion da fúria do Senhor da Cidade Abençoada transbordou ao final de cento e oitenta e três primaveras de gerações dos reis Milcah, e em visões ouvi que haveria guerra entre o infante vento – que posteriormente se revelaria a fúria de Draemoniach – contra o majestoso Sol. Assim, Drimin fez o que era mau aos olhos do Uno, e para escapar de seu juízo intentou erguer ainda mais alto as Moleth e por fim construir a Malem até o Bosque de Bel para assaltar Nelmitri. “Assim escaparemos da punição das cento e vinte primaveras imposta pelo Uno”. Dizia Drimin em sua essência. E isso em mui desagradou o Uno que, entristecido, permitiu que o Vento enviasse suas quatro Tormentas, e o Sol, fogo destruidor sobre Acheron para destruir o orgulho dos Milcah. E então o Vento – que outrora fora brisa refrigéria para os viajantes da Terra dos Carvalhos – passou agora a odiar o Sol. E houve guerra entre o Vento e o Sol. E os Antigos assim chamaram esse período de Dissenção, pois a fagulha do Dragão Azul Draemoniach – que clamava por um corpo – guerreou contra o Sol. Assim, eu ouvi os gritos de agonia dos Milcah que pereceram com a destruição da Formetalion e as duas grandes torres. E o castigo dos Milcah se fez completo.

Por dez primaveras o Uno permitiu que houvesse guerra entre o Vento e o Sol. E os Maiorais foram ter com o Uno para alertá-lo que lentamente os homens pereciam em meio ao período da Dissenção. E eu vi, em minhas visões, o Uno dizer a Gorath: “– Vai até Acheron e avisa Sol e Vento de meu Juízo sobre eles.” E Gorath foi em forma de coruja armadeira ter com o Vento e o Sol. Inutilmente. Até que os Filhos de Orath com as mulheres dos Censores Lemach, Lamech e Limeuth feriram de morte o Dragão Azul. Os Míticos Alados Sinorah, Mokau, Kiléu, Famila, Vilcmah, Beninona, Simarit, Semit, Diriri, Nuh, Siderur, Zitriu, Xituh, Ashiter, Fildenas, Riltrash, Gaduda e Ashimita foram enviados para guerrear contra Draemoniach e suas hostes, as Tormentas. E Draemoniach, ferido, caiu no Bosque de Bel. Houve nessa noite grande explosão no oriente e todos viram em suas tendas as lâminas dos Míticos Alados tremularem no firmamento representando a Glória de Orath. Naquele dia todos os habitantes de Acheron creram que finalmente o Mal desapareceria da Terra dos Carvalhos, pois inveja, ambição e ódio misteriosamente haviam surgido com a fagulha de Draemoniach ao se deparar com a grandiosidade de seu irmão Sol. Finalmente, pela mão dos Míticos Alados, o Dragão Azul sucumbiu.

Porém, o sangue do Dragão caído contaminou todas as criaturas e plantas que lá habitavam. Os Três Males que assolaram a Terra dos Carvalhos subsistiram no sangue de Draemoniach. E a essência malévola do Dragão Azul transbordou em medo de Fyr e se recusou a receber seus castigos no Outro Mundo Inferior. Assim, surgiu a Loucura, que passou a ser a Serva do Caos em movimento, pois a podridão tentacular que estava no sangue de Draemoniach se alastrou lentamente por toda Acheron, contaminado assim toda a terra e os animais. E também os homens. As macieiras já não existiam. Crafaeins e Draquons fugiram de pavor das maldições que lá agora habitavam. Sim, e eu e Morjal em nossas idas ao Bosque de Bel vimos aquele lugar outrora abençoado se transformar na Floresta Escura. A morada do Caos em movimento. Ou como nós, os Antigos, o chamam… Draemoniach. E a Loucura. Que traz até hoje vidas em oferenda a ele, e o adorna com ouro e pedras preciosas.

E então veio a Água Súbita. Os Vilca ouviram o aviso de seu pai Orath, e construíram quinze barcos com a madeira dos carvalhos ressequidos pelo fogo do Sol para escapar da misteriosa água que viria do céu. E quando ela veio, levou todos os que não creram no castigo do Uno para o Sol, o Vento e os rebeldes Milcah. Os que adentraram o barco juntamente comigo, Morjal, Lamech, Lemach e Limeuth subsistiram a destruição que se fez sobre Acheron. Tamanho terremoto ergueu as Femiaren e fendeu a terra em muitas partes enchendo o abismo de volumosas águas, que juntamente ao Acherontis formou o Grande Mar do oriente. Por um tempo quase sem fim observamos do interior dos barcos as lágrimas da Alegria de Orath em meio a escuridão que apenas desaparecia com os raios que cortavam os céus, pois o Sol… com medo da fúria do Uno, se escondeu. Até tudo terminar e repovoarmos a terra. Quando as quinze mil boas essências pisaram novamente a Terra dos Carvalhos, viram que após intermináveis correntes de águas, tudo havia sido destruído.

Foi quando me lembrei da profecia do Uno. E reunidos aos pés das Femiaren, contei a todos que ali estavam, e então, admirados, todos os homens de Acheron esperavam pelo Amor de Illil e Zetricon. Cada casal que se apaixonava… cada homem, cada mulher… se perguntava: –Serei eu o Herói?” Pois havia grande medo no coração dos homens que os Três Males retornassem e que o Dragão Azul tivesse sobrevivido. E a morada de Draemoniach havia sido levada pelas águas. Porém, ele e a Loucura se esconderam nos extremos de Acheron, no leste. E de lá tornou mais uma vez o Caos em movimento em contaminar as criaturas e plantas que ali viviam, pervertendo suas essências e escravizando suas mentes. E elas então construíram uma fortaleza para ele. E ele se tornou delas, Senhor.

E cada homem tomou o rumo que lhe aprouve. Uns retornaram para o Malgaroth e reconstruíram o Palácio dos Censores. Outros se estabeleceram no Maphion e ergueram Celhin, tornando-se assim grandes conquistadores rebeldes aos desígnios do Uno. Alguns também, através da inteligência e força que ainda restava da aurora dos homens, recortaram dos pés das Femiaren grandes tijolos de pedra e construíram Ziporih. E os filhos dos Milcah, habilidosos, adentraram as grandes montanhas geladas e em seu interior construíram Nova Nutherion. Um levante de homens migrou para o oriente e se estabeleceram nas planícies das Sequoias Colossais e nas ilhas do Grande Mar. E finalmente alguns poucos resolveram não se juntar em aglomerados de homens e assim viveram livres pelos campos do Makalabeth e espalhados por toda a Terra dos Carvalhos.

E eu, que vocês podem chamar de Claekuth, voltei ao Malgaroth, junto de meu consorte Morjal. Carregando as maçãs que pudemos guardar de Nelmitri. E aqui em Thelim vivemos. E nossa fama é tamanha que por muitas primaveras fomos visitados por reis e pessoas comuns. Em vida simples subsistimos às catástrofes que assolaram Acheron. E muitas amizades fizemos. Até que vi em minhas visões que havia um terror peculiar habitando o leste, e que ele em breve aqui chegaria. Foi quando entendi que através do Amor entre minha querida Ranemann e o grande Melikae, havia esperança.

Assim, conto a vocês a história dos meus filhos, e todos os que os acompanharam em meio à desgraça e sofrimento que sobreveio sobre Acheron durante os momentos finais da Era do Declínio. Ouçam com atenção, pois esses relatos serão certamente adicionados ao Livro dos Dias.


1- Simples na língua dos Antigos

2- Não existe tradução exata para tal palavra. Os primeiros Vilva que abandonaram suas tendas para erguer a Formetalion utilizavam essa palavra como uma negação da vida simples que outrora possuíam. O termo que mais e adequa (apesar de estar longe de ser linguisticamente fidedigno) é não simples, segundo o que se sabe sobre a língua dos Antigos.

 

Sobre o Autor

perdeu as contas de quantos mantras realizou para zerar aos onze anos Faxanadu. Suas habilidades crescentes já na infância o levaram a fazer uso da Master Sword todas as vezes em que houve necessidade (desde a Criação até a Era o Caos e da Prosperidade). Atualmente anda às voltas com os reinos de Boletaria, Lordan e Drangleic porém nunca esquecendo que deve estar de pé às seis para levar luz àqueles que necessitam. Gosta de caqui, sustos, games, comida-que-mata, poesia, pringles, fantasia-fantástica, pôr-do-sol... e Pepsi! Não necessariamente nessa ordem.