As Crônicas de Acheron | Da Marcha da Patrulha para o Norte

As Crônicas de Acheron é uma série de fantasia publicada toda quarta-feira no Mapingua Nerd.
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– Temos que ser rápidos! Acorde! Precisa acordar!

Ranemann, com os olhos fixos no teto, se debatia sobre a cama vigorosamente, enquanto Jotuh e Atelith lhe seguravam pelos braços e pernas tentando contê-la. Ignorando tudo, Vatrehuh se vestia apressado.

– Ranemann, acorde! – Gritou ele, segurando-lhe o rosto abruptamente. Foi quando ela saiu do transe. Afastaram-se os três então da cama, observando-a em silêncio se levantar. Surpreendida, indagou:

– O que houve? O que fazem aqui? Eu estava com Vatrehuh, e de repente…Senhor da Cidade Abençoada! Foi tão horrível!

– Tua irmã e Jotih estão aqui pois há rebelião. As casas de Guthrord, Magurth e Finerah tomaram o controle das fronteiras do Norte. E tu… enquanto estávamos sós, repentinamente desmaiaste e foste tomada por alguma força. E gritavas por Sabretil, enquanto balbuciava palavras em língua estranha. – Disse Vatrehuh – Anda. Toma tuas vestes. Vais ficar aqui? Não é seguro, mas também não será se fores conosco.

– Não ficarei sabendo que estarão correndo perigo. Meu corpo dói, mas me sinto bem, e irei com vós!

– Vamos então, minha irmã. Deixa te ajudar com essas roupas – disse Atelith, ajeitando o pequeno casaco de pele de raposa sobre Ranemann – toma, aqui está tuas lâminas! E essa cota de malha, usará também?

– Sim. Toda a armadura do treinamento da manhã. Toma ali, em cima da mesa. Bem vejo que está preparada também…

– Fui acordada por Jotuh, que escapou da emboscada e veio até o palácio. Estou pronta para a guerra, afinal, de que serviria nosso treinamento em Ziporih?

Ranemann virou-se e fitou Jotuh, sentado, próximo ao cômodo, se contorcendo de dor. – O corte em teu braço foi profundo! Como conseguiste escapar?

– Estava hospedado no Refúgio de Finerah, quando ouvi gritos e barulho de lâminas. Intrigado, chamei pelos guardas, sem resposta. Então, saí do quarto e do alto da escadaria, vi a confusão lá embaixo que se fazia no salão principal. Os homens de Magurth haviam assassinado minha guarda, e subiam as escadas pelos dois lados. Alguns de meus homens ofereciam resistência justamente no corredor onde eu estava. O Uno me ajudou nisso, pois tive tempo de fugir pela janela, descendo pelos galhos até encontrar a parede do planalto, que foi por onde finalmente cheguei ao chão, para fora dos muros. Mas um grupo de rebeldes me avistou e para salvar minha vida, matei um! E consegui escapar me embrenhando na floresta com o cavalo de um deles. E aqui estou…

– Vocês, se apressem! – Interrompeu rispidamente Vatrehuh. – Os rebeldes já podem estar aqui!

– Senhor, temos que ir… não sei se Gehamih resistirá, pois nossos homens foram rechaçados pela multidão furiosa e ela é em maior número. Se quiser, reunirei a Patrulha.

– Ouça bem, Jotuh. Tu és minha carne e amei teu pai como irmão e senhor, mas tenho meus meios de saber se andas tramando contra minha casa. Por isso, levarei comigo minha força máxima para conter essa insurgência de uma vez. E espero, pelas Pilastras que sustentam Bel, que nada tenhas a ver com isso! Não haverá clemência para traição!

– Senhor, como podes pensar isso de mim? – Assustado, levantou-se. A voz trêmula embargava seu discurso – tenho servido à casa de nossos pais desde minha infância! E te amado tanto quanto Sertravh! Corri perigo em nossas fronteiras do Norte e quase cumpri o Ciclo pelas mãos covardes dos filhos de Magurth, Finerah e Guthrord, que me feriram no braço!

Os olhos de Ranemann mantinham-se atentos observando a face de Jotuh que gesticulava se esquivando das insinuações. Em meio a conversa dos dois, virou-se para Atelith – espero que não esteja envolvida em artimanhas, minha irmã! – Ela nada disse. Apenas balançou a cabeça nervosamente.

– Bom, já lhe dei o aviso. Agora, reúna a Patrulha. Mas siga daqui até as passagens superiores, pois será mais rápido e seguro – continuou Vatrehuh – fale com Bsmivah. Espere… tome meu anel. Assim ele lhe obedecerá. Posicione os homens e os animais ao redor do palácio. Enquanto isso darei ordens à minha guarda a respeito da defesa. Soldados! Chamem os outros e se reúnam no salão! – Disse às suas sentinelas pessoais.

Saiu então Jotuh subindo as escadarias centrais rumo ao corredor que interligava, por entre os galhos da grande sequoia, o palácio do Senhor do Povo das Árvores à sede da Patrulha. Enquanto isso Vatrehuh, seguido por Ranemann e Atelith, desceu até a metade da última escadaria que dava para o salão central, onde da janela aguardou a chegada deles. Até que apareceram. Assim, adentraram Jotuh e Bsmivah no salão e foram ter com Vatrehuh, que ordenou ao último:

– Tu comandarás minha guarda e agora é o responsável pela minha casa. Se falhares, ao meu retorno… morrerás como traidor. Homens! Na minha ausência, devem obedecer Bsmivah, filho de Uhtyl! Fazei tudo o que ele disser!

Os cento e cinquenta soldados reunidos em fileiras no salão bateram todos o cabo de suas lanças sobre o chão ao mesmo tempo e o punho no centro do peito em sinal de obediência. – Envie homens para trazer sua mãe em segurança para cá, jovem.– Disse baixinho, se virando mais uma vez para Bsmivah.

Então Vatrehuh saiu e encontrou seu exército às portas do palácio de madeira. Montando no Crafaein, observou as fileiras dos homens da Patrulha, com escudos e lâminas longas a postos e suas armaduras rústicas de couro trançado em anéis de metal. Cada pelotão perfeitamente alinhado e identificado pelas cores de suas bandeiras. Todos preparados para a guerra, porém seus olhares atônitos pelo chamado súbito podiam ser percebidos através das tochas em suas mãos, e revelavam o desconforto de uma guerra entre irmãos na escuridão nevoenta daquela noite. Naquele momento, o senhor do Povo das Alturas caiu em si e sua essência também lhe incomodou o coração, porém não havia nada que pudesse fazer de diferente frente à astúcia de Magurth. Enchendo o peito, bradou com a espada em riste:

– Homens do Povo das Alturas! Hoje nos reunimos aqui por um motivo triste! Nossos irmãos das casas de Guthrord, Magurth e Finerah tomaram a decisão de não se unir a nós na luta contra a ameaça dos orientais que tem dizimado nossas famílias, se recusando a ir com Uhtyl às praias do Leste! Vocês, que estão aqui, sofrendo com o frio, às portas do palácio construído em meio ao suor de nossos pais que fugiram do Maphion, atenderam ao chamado do seu senhor para se unir às nossas fileiras, dobraram o contingente da Patrulha e somos agora mais fortes contra a ameaça bárbara! E quanto aos desobedientes?! Como se não fosse suficiente virar as costas para o próprio sangue em momento de tão grande perigo, atacaram nessa madrugada nossos outros irmãos da Patrulha nas fronteiras do Norte, onde Gehamih e Jotuh estavam por minhas ordens para amenizar a tensão na região! Os rebeldes são mais numerosos que nossos homens e por isso devemos ir e auxiliá-los! Pois vocês, que aqui estão, são os meus melhores soldados! E estamos levando os Crafaeins e os Draquons! Não deve haver perdão para traidores! O Senhor da Cidade Abençoada e seus Arautos estão conosco, pois Bel sempre está ao lado de tudo o que é digno de honra! E há honra em nos defendermos de uma ameaça indigna como essa! Por isso, quero fúria em cada golpe na carne dos covardes que se escondem em rebeliões para não se unirem em prol do povo! Quero violência nos olhos de vocês, para que o inimigo desmaie de horror! Lembrem-se, os que se rebelaram no Norte não são de fato nossos irmãos, pois renegaram defender a própria carne para promover a discórdia! Não devem demonstrar clemência alguma! Agora tomem a posição de marcha! Gehamih e os outros precisam de nós!

E os mil homens bateram as espadas nos escudos e se viraram para a larga estrada que levava para os quatro Refúgios do Norte. Os arqueiros se mantiveram à frente montados em dois sobre os grupos de Crafaeins, e os Draquons permaneceram em silêncio nos flancos dos pelotões com suas catapultas. No campo, ao redor da maior sequoia que serviu de morada para as quatro gerações de Trohtayideh, todos esperavam a ordem de Vatrehuh. Mais uma vez suspirou, e vendo seu exército aprumado, deu ordem para seguirem. Virando-se para Ranemann, disse:

– Vá com Jotuh. Irei com Atelith. Esteja atenta.

Ranemann, atendendo sua ordem, foi ter com ele. E subindo no Crafaein, partiram estrada acima.

Continua…

Sobre o Autor

perdeu as contas de quantos mantras realizou para zerar aos onze anos Faxanadu. Suas habilidades crescentes já na infância o levaram a fazer uso da Master Sword todas as vezes em que houve necessidade (desde a Criação até a Era o Caos e da Prosperidade). Atualmente anda às voltas com os reinos de Boletaria, Lordan e Drangleic porém nunca esquecendo que deve estar de pé às seis para levar luz àqueles que necessitam. Gosta de caqui, sustos, games, comida-que-mata, poesia, pringles, fantasia-fantástica, pôr-do-sol... e Pepsi! Não necessariamente nessa ordem.

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