As Crônicas de Acheron | Da conjuração de Jotuh e Atelith

As Crônicas de Acheron é uma série de fantasia publicada toda quarta-feira no Mapingua Nerd.
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-Prestem bem atenção! Se querem sucesso na vingança, devem me ouvir! O resto da Patrulha permaneceu com Vatrehuh, e são habilidosos. Porém, tenho acesso a sua casa. Não veem?! Precisam de mim! Precisam me ouvir! Sem um plano, fracassaremos!

A multidão, agitada pelo ódio, discutia desordenadamente. Controlá-los parecia impossível para Jotuh, quase sem voz de tanto tentar se fazer ouvir no salão do Refúgio abandonado de Jigfrah. O homem de aparência rústica que o encarava bem na frente do tablado de madeira então vociferou:

-Todos os que aqui estão querem a queda de Vatrehuh! E logo! Esse homem que está no lugar de seu bom irmão Sertravh tem gosto pelo sangue dos seus e nos impede de ir além das fronteiras buscar alimento e de negociar com os homens do leste! Nosso povo está esquálido e faminto! Os musgos e visgos são escassos. E até insetos está difícil de se encontrar! – O olhar de Finerah era de grande insatisfação – Tu, traidor! Fará melhor que ele quando sentares no trono? Pois se seguires os ditames de teu tio, te esmagaremos também! Os homens das Casas de Guthrord e Magurth estão aqui como testemunhas!

-Vatrehuh nos lança em uma guerra sem sentido! Em vez de simplesmente nos defender daqueles seres sem essência, leva nossos irmãos para guerrear nos extremos de nossas terras contra o povo que sempre nos forneceu alimento! – Alguém gritou, interrompendo ele.

Voltaram a falar todos ao mesmo tempo. Atelith, impaciente, observava num canto, de pé. – Esses rudes ignorantes! Será difícil fazer com que ajam de acordo com o plano! – Disse-lhe no pé do ouvido, Jotuh, chegando até ela.

-Cri que estava tudo sob controle! Tu me garantiste! – Suspirou – Mas, acalma-te e observa.

E indo ao centro do tablado, falou em voz alta, enquanto batia suas lâminas contra as barras de ferro que sustentavam os troncos que formavam a parede da frente do salão:

-Homens! Silêncio! Me ouçam! Tudo o que disseram é justo! Estão sofrendo com as decisões maldosas de Vatrehuh! Mas saibam que vossa carne tremula de fome tanto quanto a nossa! Vejam! A vergonha da magreza do sobrinho do senhor das Alturas! – Disse, apontando para Jotuh – não acham que não passamos o mesmo que vós? Meu rosto já foi viçoso como as maçãs imperecíveis! Sim… para os que não me conhecem, me chamo Atelith, de Thelim! E desde que cheguei nessas terras fui bem tratada pelo povo daqui, e sobre isso tenho sido grata! Pois me afeiçoei a vós por sua hospitalidade! Mas todas as luas passadas aqui me fizeram ver o quanto Vatrehuh, a quem um dia respeitei com todo meu entendimento, mudou sua essência e tem castigado injustamente o pobre que mal tem o que comer em sua despensa! E sua loucura o tem consumido a ponto de tratar o seu próprio povo com iniquidade! Sim! Iníquo é o senhor do Povo das Árvores! Pois trata com mão de ferro o inocente! Pois sua paranoia lançou seu povo em uma guerra sem sentido contra os mercadores do leste, que sempre fizeram uso dessas terras como rota de comércio! E amanhã, mil homens… pais e filhos do povo serão levados aos extremos dessas terras para guerrear contra uma multidão de orientais! Sempre houveram homens de boa e má essência! Sempre houveram levantes de homens malvados atacando o povo! E por que, se a vida sempre se fez perigosa por essas terras, Vatrehuh agora age de forma louca? Sim, meus senhores… digo-vos, que os forasteiros Zitri e Sabretil encheram a mente de Vatrehuh de inverdades, alimentando sua paranoia! E seus generais Uhtyl e Gehamih também o envenenaram contra a casa e Drotram, Filistio e Jigfrah! Eu vi e ouvi, esses homens instigando Vatrehuh! Homens, mulheres e crianças fieis à sua terra foram mortos brutalmente! Tiveram seus corpos despedaçados e espalhados! Vejam! Onde estão os filhos de Jigfrah? Não estão em nosso meio! Pois seus pedaços estão espalhados pelas fronteiras, servindo de alimento pútrido às aves do céu! Por isso me uni a Jotuh e seu irmão Jotih! Pois fui criada na vila dos oraculares, aos pés de Claekuth e Morjal, aprendendo a não me conformar com o Mal! E o motivo de estar aqui hoje é demonstrar isso a vós! Porém, saibam…que precisamos nos unir! Sem organização seremos esmagados por Vatrehuh, pois metade de seus animais abençoados aqui ficaram e a outra metade da Patrulha, isso sem falar em sua guarda! Por isso me ouçam! Precisam fazer o que dissermos a vós! Vós, que recusardes a se unir à Patrulha nessa guerra sem sentido, sois considerados rebeldes, e logo o exército de Vatrehuh estará às portas de vossas casas e os assassinarão! Nosso outro aliado Jotih irá para as fronteiras do leste e certamente cuidará de Uhtyl, Zitri e Sabretil. Nós que aqui ficamos, devemos cuidar de Vatrehuh e a traiçoeira Ranemann!

A multidão, admirada, prestou atenção no discurso e gradativamente se acalmou. Ao seu término, todos estavam silentes. Um homem alto e de longas cãs vestido com uma túnica de linho fino azul e um casaco espesso de pele escura, encostado num canto perto da porta, ouvia com atenção enquanto comia desajeitadamente um pedaço de pão seco. Interrompendo-a, tomou o centro do salão dizendo:

-Permita-me falar, senhora. E desculpe meus irmãos pela falta de educação. Demonstraste fino falar a respeito de Vatrehuh e tua origem. Bom, me chamo Magurth, e sou filho de Atreihdah. Meu pai Turbal chegou a essas terras ainda jovem com seu pai Yadgeh, junto a Ziutrauh, Marfih, Jehudo, Sebratam, Socadih, Lozard, Mitruzah, Kizard e Issah. Além de suas mulheres, filhos e filhas. Ao total de seis mil boas essências, sob liderança do grande Trohtayideh, do Maphion saíram temerosos da maldade dos seus irmãos de Celhin. E aqui chegaram sob a proteção do Uno, enfrentando os perigos de tão longa viagem, pois nessa época ainda eram em grande número as sentinelas de Clãh no Clahtemariaeh e os gigantes maciços de Celhin causavam destruição em Acheron. Por três gerações vivemos na planície das sequoias colossais em humildade, como nossos pais do Malgaroth. O solo era fértil e a árvores produziam visgos e musgos revigorantes para nossa saúde e longevidade! Até que o mal assolou a terra e os visgos e musgos perderam seu poder. Homens degenerados e levantes de orientais iniciaram seus ataques contra nosso povo, matando e levando nossos filhos e filhas como escravos! Malditas formigas! – Interrompeu seu discurso, enquanto agitava as pernas e esmagava com os pés as que haviam se amontoado sobre as migalhas de pão. – Bom, desculpe! Esses pequenos animais sempre estão a atazanar nossas casas, tomando também este salão desde que fora abandonado. Permita-me continuar…

Atelith, de braços cruzados, fez sinal com a cabeça.

-Enfim, senhora…nosso povo tem diminuído e cada vez mais dependemos de mercadores do leste na busca por alimento, pois a terra tornou-se pouco a pouco maldita e não tem dado fruto! Não se viu tal calamidade desde Trohtayideh até Zatau! Pois à época de Sotam, pai de Sertravh e Vatrehuh, houve grande assassinato dos nossos e até então os senhores do Povo das Árvores eram amigos de Thelim e seus filhos eram educados pelos oraculares. E nosso senhor, o sábio Sotam, implorou ajuda da astuta Claekuth e de Morjal. Mas eles não enviaram Damonih, seu defensor. E se não fosse pelas formigas, nosso povo teria sido dizimado! E agora, eu te pergunto… por que tu, que és filha daquela terra orgulhosa… queres ajudar nosso povo outrora desprezado pelos teus?

O falar grave do homem manteve todos mudos. Com a respiração encurtada, Atelith tomou profundo fôlego, dizendo:

-Não posso responder pelos erros de meus pais. Mas estou há muitas luas nessas terras e me afeiçoei ao sofrimento do povo. Tal qual sofri lágrimas de sangue em minha jornada até aqui. Enfrentando frio, escuridão e criaturas demoníacas, fui acolhida nessas terras por mim desconhecidas por Jotih e Mafura. E por Jotuh, a quem amei. E Vatrehuh, no início, me pareceu um senhor digno de seu trono. Porém os que estão com ele perverteram sua essência e ele enlouqueceu. Estamos juntos todos perecendo por conta de seus malfazejos. As casas de Drotram, Filistio e Jigfrah já foram dizimadas… em breve a Patrulha também chegará aqui, matando todos vós, rebeldes. Não há mais tempo. Temos um plano, eu e Jotuh. Mas devem fazer tudo conforme ordenamos.

-Dizei teu plano, então.

E assim, conjuraram Jotuh, Atelith e as casas de Magurth, Finerah e Guthrord contra o senhor do Povo das Alturas noite adentro no salão abandonado de Jigfrah. Mas algumas formigas sobreviventes tudo ouviram. E feridas, foram ter com um grupo de Friyjuhim, que passava por aquelas terras fugindo do inverno ao Oeste.

Continua…

Sobre o Autor

perdeu as contas de quantos mantras realizou para zerar aos onze anos Faxanadu. Suas habilidades crescentes já na infância o levaram a fazer uso da Master Sword todas as vezes em que houve necessidade (desde a Criação até a Era o Caos e da Prosperidade). Atualmente anda às voltas com os reinos de Boletaria, Lordan e Drangleic porém nunca esquecendo que deve estar de pé às seis para levar luz àqueles que necessitam. Gosta de caqui, sustos, games, comida-que-mata, poesia, pringles, fantasia-fantástica, pôr-do-sol... e Pepsi! Não necessariamente nessa ordem.