As Crônicas de Acheron ou da Chegada de Zitri ao Povo das Alturas e a Marcha das Formigas

Publicado em 16 de novembro de 2016 | Por Antonio II | As Crônicas de Acheron, Contos, Literatura

As Crônicas de Acheron é uma série de fantasia publicada toda quarta-feira no Mapingua Nerd.
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– Como estou feliz em vê-lo! Pensei que estivesse no Outro Mundo Inferior! Ah, meu irmão! Quanta saudade!

Ranemann, emocionada, chorou enquanto abraçava Zitri. Aos gritos, o grande Draquon que desceu dos céus naquela noite anunciara a chegada do mago monástico e sua consorte Sabretil, surpreendendo a todos.

– Jotih, estais vivo! – Disse Vatrehuh. Sabia que o Uno cuidaria de vós! Mesmo após todo esse tempo minha esperança não esmoreceu e vejo que minhas preces foram ouvidas!

– Sim, meu tio. Apesar da maldade dos bárbaros do leste, o Uno cuidou de mim. E em minhas desventuras encontrei ajuda.

“– Não sobreviverás por muito tempo, homem de tristezas. O estigma da podridão também atingirá tua carne, pois tua covardia encheu a taça da paciência de nosso Senhor.”

– E Mafura? Onde está?

– Sucumbiu… a algum tipo de praga. Sua carne apodreceu por dias. Mas de alguma forma, creio que ele tenha sido agraciado pelo Senhor da Cidade Abençoada, pois, numa noite, sofria com muitas dores por conta das feridas… e no dia seguinte, já não estava mais lá. – Jotih disse, consternado. – Apenas ossos limpos e alvos jaziam onde deitara. E ao seu redor floresceram rosas azuis e lírios. Atelith, é você? Jotuh! Como estou feliz em revê-los!

O casal se aproximou do rapaz. – Tua aparência está péssima, meu irmão. Bem vejo o quanto sofreste nas mãos daqueles animais. Mas agora estais de volta, e vingaremos o que fizeram a ti e a nosso irmão. Vem cá! Dá-me um abraço!

Tomado nos braços de Jotuh, fitou Atelith. A moça, adornada belamente, se afastou sem nada dizer. Segurando na cintura do braço direito do senhor do Povo das Alturas, deixou escapar um leve riso, lembrando da inocência do rapaz em falar-lhe de seus sentimentos. “– Como os homens são bobos quando amam.” Pensou. Mas apesar disso, era afeita a ele. –Hesitante, porém amável. Esse é meu amigo Jotih. Seja bem-vindo de volta! – Disse ela.

Ainda mantendo certa distância, Atelith então voltou seu olhar para Zitri e Sabretil. – Quem é ela?

– A que me salvou da morte certa. – Respondeu Zitri, estendendo a mão para a jovem vilca. – Parece estar assustada, minha irmã… toca em mim! Não sou uma essência desgarrada… estou vivo! – Sorriu, puxando-a pelo braço.

– Esses dois bravos guerreiros que vês são os responsáveis por ainda estar vivo. A maldade dos homens do leste é maior do que imaginamos, pois por dias fui torturado! Dentro de uma jaula, deixaram-me nu e meu corpo foi profanado… até chegar aos campos do Makalabeth, onde os maldosos homens do leste atacaram o grande Damonih. Mas Zitri e Sabretil foram valentes e o vingaram, me livrando da morte.

– Permitam-me falar. – Sabretil, interrompendo Jotih, continuou. – Sou filha de Damonih. Também conhecido como o herói caído. Pois no passado meu pai foi defensor de Thelim. Por conta de sua vida dissoluta, abandonou seu nobre destino para viver na obscuridade. E assim tínhamos uma vida pacata no Makalabeth. Um dia enquanto caçava, encontrei Zitri, desmaiado… próximo as Femiaren. Cuidamos dele, eu e meu pai… como um irmão! Meu pai era extremamente hospitaleiro, e fez de Zitri seu amigo! Até que um dia encontramos uma caravana de bárbaros que fez grande malfazejo contra nós, e assassinaram meu pai. Mas nós o vingamos. Esses bárbaros têm com frequência atravessado o Makalabeth, e o líder da caravana que nos atacou confessou sob tortura que estão se reunindo para atacar a última cidade de pedra. Não sabemos quem os lidera, mas desconfiamos que o Caos em movimento esteja por trás disso. Então, rumamos para a cidade e adentramos na Floresta Escura… com a intenção de atravessá-la para avisar Ziporih do ataque iminente.

– E lá a Senhora de Zetricon se revelou a mim em visão. – Disse Zitri. – O grande Draquon que nos trouxe foi enviado por ela. Pensei que ele nos levaria até Ziporih, mas por motivos que desconheço, aqui estamos. Fico feliz em saber que minhas irmãs Ranemann e Atelith estão vivas!

Vatrehuh ouvia atento o relato. Ao falarem o nome de Damonih, lembrou do quão se sentiu decepcionado pela ajuda de Thelim que não viera quando ainda era jovem e estava nas fileiras de soldados auxiliando seu irmão na resistência contra a primeira grande investida dos homens do leste.– A filha de Damonih, e um tremar. Com essas roupas, suspeito que seja algum corrupto da Ordem. Bela ajuda nos enviou Illil.” Disse baixo, ironizando.

– E Melikae? O que houve com ele? -Indagou apreensiva, Ranemann.

– Creio que tenha perecido. Após o incidente no Acherontis, fomos levados pela correnteza até os pés das Femiaren. E lá adentramos na esperança de encontrar Mitranil. Nas ruínas da Cidade dos Artesãos enfrentamos Mahims, e lutamos bravamente! Mas Melikae ficou para trás, e fui levado por mericalhos para fora da Nova Nutherion.

A notícia partiu o coração de Ranemann. Porém, já imaginava que ele, àquela altura, não estivesse mais vivo. Soluçando num choro contido, abraçou mais uma vez Zitri dizendo, emocionada:

– Ah, meu querido Melikae! Que triste destino cumprir o Ciclo no interior de uma caverna escura! Não entendo a vontade do Uno! Claekuth disse tanto sobre predições de sucesso! E agora finalmente sei que meu amado sucumbiu… e ele aceitou a demanda por amor a mim! Eu não queria que nada disso tivesse acontecido… eu, eu… não queria a demanda! Amaldiçoo o dia em que a aceitei na casa de Morjal!

– Acalma-te. Melikae lutou até o fim. Seus feitos certamente serão cantados e registrados no Livro dos Dias. Até seu último momento foi bravo e fez cair os Mahims de cristal. Nós, que ficamos, temos o dever de derrotar o mal que assola Acheron. Forças malévolas estão se preparando para um grande ataque contra nosso povo. O Caos em movimento está reunindo um exército de selvagens. E eles tem domínio superior do ferro. Ziporih e os tremares estão decadentes, e os Vilca são poucos e pacatos. Se não agirmos com sabedoria, seremos exterminados e o ódio do Dragão Azul se apoderará de nosso mundo. E não haverá mais aurora para nós.

Uhtyl, até aquele momento em silêncio, finalmente disse:

– Permita-me falar… ainda há pouco conversávamos a esse respeito. Nós, do Povo da Árvores, temos sofrido com os ataques dos homens do leste, e cogitávamos justamente pedir ajuda de teus irmãos. Como havia dito, é hora de nos unirmos. Pois tanto eu quanto meu general Gehamih temos visto o resultado do poder maligno que tem assolado nossas terras. Saberias tu mais a respeito do que eles têm tramado?

– Ao longo de meses vi fogueiras e ouvi tambores de noite, sobre os campos do Makalabeth. – Respondeu apressadamente, Sabretil. – E diversas caravanas de homens de pele morena e tatuada. Levam consigo animais abençoados sob mordaça e praticam feitiçaria. Certamente farão guerra!

–Meu senhor, mais uma vez te peço: fala às formigas para que levem cartas de socorro a Ziporih. Não ouviste o que os estrangeiros disseram? Sem ajuda, seremos dizimados. – Disse Gehamih, se voltando para Vatrehuh.

“– Não temos escolha, meu querido. Tua serenidade me fez voltar os olhos para ti. E minha essência à tua está ligada. Usa o bom senso para trazer a ajuda dos tremares. Fala com Claekuth através das formigas. Os Oraculares detêm poderes tremendos e podem trazer os vilca também. Ouve os que te amam, Vatrehuh!” Disse Ranemann em pensamento enquanto, abraçada a Zitri, fitava os olhos do senhor do Povo das Alturas. Ele nada respondeu, e virou sua cabeça para as raízes das grandes sequoias, onde estavam as formigas.

Registrou o escriba:

E eu as vi. Sob frio e calor. Caminhando sobre os grãos da areia límpida do Clahtemariaeh e avançando por entre as brechas do solo seco do grande deserto. Apressadas, iam incólumes às intempéries do clima adverso. Até encontrarem a Malem e seguirem rumo ao Malgaroth. Iam conversando apreensivas. Preocupadas com o tempo, pois não são afeitas ao sol e seu calor enfurecido. Mas continuavam. Sabiam que a ajuda dependia delas. E o nosso futuro também. Iam pensando nos homens que ficaram para trás na planície das grandes árvores. Sobre as intrigas de Atelith e Jotuh que presenciaram enquanto se deitavam sobre o musgo das árvores. Sobre a inocência de Ranemann, que chorava pelos que perdera. Sobre o medo de Vatrehuh do fracasso. Sim, eu… Claekuth, vi em minhas visitas aos poços oraculares as formigas marchando, e tal qual fizeram no passado, mais uma vez subiram o vale para atravessar o lar do ódio de Draemoniach e o Maphion. Eram muitas, e carregavam as dores de seus amigos do Povo das Alturas, até chegarem na bifurcação e se dividirem entre a estrada para o Palácio dos Censores e a até Ziporih. Os ecos de desespero de uma guerra perdida eram a carta de ajuda que levavam a Notrum1 em Ziporih e Lemael2 no Malgaroth…

Continua…


1-O último descendente de Nartreg, ao fim da Era do Declínio. Dizem os Antigos que Notrum  – tomado pela serva loucura – se fez falsamente a voz do Uno para ser adorado como Ele pelo seu povo.

2-O único Censor vivo à época da Marcha das Formigas.

Sobre o Autor

perdeu as contas de quantos mantras realizou para zerar aos onze anos Faxanadu. Suas habilidades crescentes já na infância o levaram a fazer uso da Master Sword todas as vezes em que houve necessidade (desde a Criação até a Era o Caos e da Prosperidade). Atualmente anda às voltas com os reinos de Boletaria, Lordan e Drangleic porém nunca esquecendo que deve estar de pé às seis para levar luz àqueles que necessitam. Gosta de caqui, sustos, games, comida-que-mata, poesia, pringles, fantasia-fantástica, pôr-do-sol... e Pepsi! Não necessariamente nessa ordem.

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