As Crônicas de Acheron | O encontro de Ranemann e Atelith com o Tomasco na Floresta Escura

As Crônicas de Acheron é uma série de fantasia publicada toda quarta-feira no Mapingua Nerd.
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– O fedor é muito intenso… essa lama pútrida deve conter toda sorte de enfermidade e podridão. O clima frio diminui ainda mais meu ânimo. Mas temos que continuar a caminhar – disse, em meio a náuseas, a habilidosa Atelith, enquanto lançava com precisão flechas contra o alvo por ela mesma desenhado no tronco seco de um carvalho.

– Já fazem dias que estamos nesse lugar… sem ao certo saber qual caminho seguir em meio a essas árvores secas e esse mal cheiro. Se meu amado Zitri estivesse conosco, não estaríamos perdidas! – retrucou a apaixonada Ranemann.

A saudade do jovem e poderoso mago tremareano produzia profunda tristeza e desamparo na destemida guerreira dos Vilca. Várias noites ao longo de sua demanda produziram lágrimas solitárias em momentos de insônia e ansiedade sobre o seu incerto porvir. A outrora coragem de Ranemann há muito havia sido substituída por constante medo, pois sua personalidade foi construída em apoio de seu inseparável amigo e amante Zitri, entre as idas e vindas de ambos às suas terras e às do Povo da Visão em Thelim, em visita à amiga Claekuth. Com ele aprendeu a arte do uso das armas leves e fatais nas lutas furtivas e a ferocidade nos campos de batalha. Já sob os auspícios da oracular Claekuth e seus pares de Mithmard, foi orientada a respeito dos dons da Visão e do domínio de seus sentidos para a compreensão do estado psíquico das criaturas viventes ao seu redor.

– Eu posso sentir. Sim, eu posso. Ainda existe vida neste lugar. Mas o ódio presente aqui é esmagador. Tudo o que subsiste a este ambiente inóspito nutre ódio, medo e loucura. Percebe, minha irmã? Os insetos, eles não se movimentam de maneira ordeira. Estão sempre a correr freneticamente e a voar em círculos. E se devoram! Suas mentes foram tomadas por esses sentimentos que se apoderaram paulatinamente da sua razão. E agora agem movidos por eles. E existem ossos por todo o lugar. Posso sentir que aqui houve grande mortandade. Os outrora seres vivos daqui habitantes pereceram em meio a extrema violência. Foram consumidos pelo sangue negro e pútrido de Draemoniach. Certamente não existe região mais odiosa em Acheron que a Floresta Escura. As macieiras do Nelmitri, com seus frutos da longevidade que alimentavam os animais abençoados dos Bosques de Bel, há muito se foram. O Sithen é terra árida. Tudo foi consumido pela podridão tentacular do Caos em movimento – declarou, diligentemente, Ranemann.

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– E ela se alastra para outras regiões. Os boatos que já ouvíamos há tempos se confirmaram quando da nossa reunião com Claekuth e os oraculares. Os nômades que fizeram morada às margens do Acherontis são prova de que o homem pode ser tomado completamente pelos poderes malignos do Caos em movimento, bem como as criaturas ferozes que naquele lugar habitam. Os antigos dizem que Acheron já reluziu em matizes de cores nunca antes vistos por nós. Diz-se que o Malgaroth e o Clahtemariaeh já foram suntuosos em vida em abundância… que os águas do Acherontis reluzia como a prata e que os peixes sagrados que lá um dia habitaram cintilavam o brilho amarelo de suas escamas douradas refletindo a luz do Sol. E agora? Se tudo já foi como é dito no Livro dos Dias… nosso mundo não passa de arremedo de seu passado. Afinal, onde estão os animais abençoados que aqui habitavam? Eu só tenho visto ossos… e insetos! Que agridem nossa pele! A Terra dos Carvalhos mudou, minha irmã! Essas cicatrizes que agora tenho em minhas pernas são terríveis lembranças daquele dia no Acherontis e que chamam minha atenção do quão profundo a raça humana pode adentrar nos domínios da maldade. E os malditos escorpiões do deus degenerado Clãh? Os animais que desde nossa juventude espoliam nosso gado são frutos dessa maldade tentacular que tem se espalhado em nossas terras! Pois afinal, qual seria o motivo desses pequenos demônios assassinarem nosso gado (e não o devorar) que não seja ódio e maldade? E nossos irmãos Zitri e Melikae? Espero profundamente em minha essência que eles estejam de alguma forma em melhor situação que nós duas. São valorosos (e nos defenderam de desgraça pior)…e se foram nas correntezas revoltas do Rio Primordial sabe-se para onde. Espero que não estejam padecendo tormentos piores que os que temos enfrentado ao logo de nossa derradeira demanda! – disse, em entonação de revolta, Atelith.

– Nossa esperança reside em encontrarmos o último fragmento do fôlego da alegria de Orath1. Já possuímos o punhal de Zetricon2 e precisamos forjá-lo na luz incandescente dele. O Caos em movimento sabidamente o protege em sua fortaleza em algum lugar dessa floresta malévola. Claekuth e Morjal nos instruíram muito bem a esse respeito. Temos em nosso favor tal conhecimento e estamos sendo guardadas pelos Atemporais e o Uno. Nosso destino agora se perfaz nessa derradeira missão, minha irmã… sigamos com esse pensamento reconfortante para completarmos nosso objetivo. Se falharmos, todos nessa terra perecerão conosco. E não haverá aurora para cambaleante raça dos homens. Acheron certamente será tragada pela podridão tentacular do Caos em movimento e não haverá novo amanhecer para a Terra dos Carvalhos – ponderou Ranemann.

– Eu só gostaria de ainda estar na companhia dos nossos irmãos. Não vê, Ranemann?! Éramos mais fortes quando unidos estávamos – replicou Atelith, enquanto caminhava junto a jovem Vilca Ranemann, em meio à vegetação seca e ao solo úmido na trilha do meio à pequena clareira em que haviam descansado na noite anterior.

As duas jovens guerreiras trilhavam o caminho formado de troncos de árvores mortas que compunham a paisagem desolada da Floresta Escura. O ar fétido enfraquecia o pensamento de ambas. A fumaça negra que brotava do chão se misturava aos pequenos insetos que voavam revoltos e picavam agora furiosamente a pele de Atelith e Ranemann produzindo dores e prurido.

– Atelith! Eu sinto que existe perigo eminente aqui! Posso ouvir, em minha essência, vozes conversando numa língua horrenda! – disse Ranemann, assustada, parando por um instante sua caminhada – Não vê a fumaça? Ela fala agora com os insetos. Ela os está de alguma forma instigando a nos atacarem. Estamos sendo observadas pelas criaturas que aqui vivem. E elas já devem ter percebido nossa presença ao beberem nosso sangue bom. O Caos em movimento certamente sabe de nossa presença através desses malditos micostos que nos seguem e nos agridem. Estejamos preparadas para o pior… – ponderou de súbito Ranemann.

As duas jovens dos Vilca por um momento interromperam então o seu caminhar – É a língua inominável. Tenho plena certeza que sim, elas levam informação sobre nós para o Caos em movimento – avisou Ranemann a Atelith.

– Observa a fumaça, está mais negra – disse assustada Atelith.

– Sim, você não possui o meu dom. E eu ouço sussurros. Estão preparando algo contra nós! Prepara-te, luta se fará nesse lugar em breve! –  concluiu a sensitiva guerreira Ranemann.

Enquanto Atelith e Ranemann observavam o movimentar da fumaça negra, que perpetrava a clareira em que chegaram após o termino da trilha, puderam ver olhos surgindo em meio ao ar pútrido que infestava o lugar. A fumaça negra passou a ser expelida em jatos de diversos locais do chão escuro rapidamente e a tomar formas bizarras animalescas que, ora lembravam grandes aranhas, ora lembravam pássaros. Gritos estridentes passaram a ecoar pelo lugar e tais formas oriundas da feitiçaria do Caos em movimento passaram a sobrevoar e atacar as duas jovens Vilca.

– Venha! Corramos para a trilha que segue à nossa frente! – falou em voz alta Atelith.

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À frente de Atelith saiu Ranemann, já com suas pequenas lâminas em punho, em passos rápidos. Atenta, Atelith a seguiu também rapidamente atrás com seu arco em posição de ataque. As duas jovens, sobressaltadas ante a visão demoníaca dos poderes do Caos em movimento, seguiram na trilha à sua frente. As criaturas seguiram as duas jovens em meio aos gritos estridentes e os olhos incandescentes que entre a fumaça que tomava o ar do lugar observavam-nas. Sem rumo, Ranemann e Atelith rapidamente caminhavam no emaranhado de trilhas rumando mais e mais para o interior da Floresta Escura. De repente, Ranemann esbarrou em algo que a lançou violentamente ao chão. Inadvertidamente Atelith também tropeçou em sua amiga que jazia no chão. E se juntou a ela no solo.

Ranemann então sentiu algo agarrar seu pescoço. Imprimindo força contra o solo do lugar, a criatura empurrou a cabeça da jovem contra o chão pútrido e seu rosto passou a ser arrastado no local enquanto ela se debatia, tentando atingi-la a esmo com suas lâminas. – Me ajude, minha irmã! –  gritou.

– Estou presa! – respondeu Atelih, desesperadamente.

Então a criatura lançou Ranemann fortemente ao longe. O impacto da queda violenta fez com que Ranemann subitamente desmaiasse. Enquanto isso, Atelith estava presa pelas pernas, suspensa do solo pelas criaturas demoníacas aladas e sendo atacada violentamente por uma nuvem de insetos, em desespero e aos gritos. O grande tomasco-de-olhos-de-galho havia pressionado o pescoço de Ranemann a ponto de faltar-lhe o fôlego. E, caminhando furioso em direção à jovem Vilca desacordada, certamente a destruiria com pouco esforço, dada a grande força que essas malévolas criaturas possuem.

– Aqui, seu maldito! Toma a mim e deixai ela em paz! Anda, vem aqui! – Atelith berrava, enquanto se debatia na tentativa de se desvencilhar da fumaça negra que a elevava do solo de ponta-cabeça. Desesperadamente, a jovem lançou setas de seu arco para acertar a pele de galhos da criatura. Sem sucesso. Em passos lentos, o portentoso tomasco na direção de sua amiga caminhava em meio a rugidos secos e graves por ele produzidos. Ranemann então recobrou sua consciência e abriu seus olhos que ainda lhes produziam imagens turvas por conta do torpor que sua mente se encontrava devido sua violenta queda. Mais uma vez o tomasco agarrou a jovem, agora pela cintura, comprimindo-a contra seu corpo duro em meio aos seus rugidos e aos gritos estridentes das criaturas malévolas que suspendiam Atelith. As duas jovens, por sua vez, também gritavam em desespero frente a situação de grande perigo em que se encontravam.

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Enquanto o tomasco com seus braços comprimia Ranemann firmemente contra seu próprio corpo, os galhos grossos que formavam sua estrutura corpórea também passaram a envolver a jovem, que se debatia vigorosamente na tentativa de se desvencilhar de tal abraço fatal. Com a consciência recobrada e os sentidos mais aguçados, Ranemann falou em voz alta gaguejando enquanto contraía os músculos de seu corpo na tentativa de não ser esmagada pelo monstro: “-O.. os… inse… setos! Eles estã…o guia…nnnd…o tom masc…o! O to to, mas…co éé cegg…oooo!

Atelith, enquanto se debatia de ponta-cabeça, passou a lançar setas de seu arco contra as criaturas malditas que a suspendiam. As setas atingiram a nuvem de fumaça malévola libertando as pernas da jovem Vilca, que tombou no chão. Rapidamente Atelith levantou-se e do bolso esquerdo de seu cinto tirou uma pedra incandescente de Mithmard e lançou-a com toda a força (que lhe restara) contra o tomasco. O choque da pedra contra o corpo duro do tomasco produziu uma explosão de luz e fumaça que tomou o lugar e intoxicou os micostos ardilosos que estavam incitando a criatura a atacar Ranemann. Assim, os micostos confusos ficaram e se espalharam pelo lugar. Atelith rapidamente correu em direção do tomasco e esse, assustado e desorientado pela explosão luminosa e a confusão dos micostos, passou a caminhar desordenadamente em círculos, livrando Ranemann de seus braços maciços. Porém, a jovem ainda estava atada a ele através dos galhos que a prendiam. Atelith então saltou sobre as costas do tomasco e retirando seu punhal de ferro abençoado por Claekuth e passou a desferir diversos golpes sobre o emaranhado de galhos e folhas que compunham a cabeça do monstro.

– Morra, criatura pervertida pelo sangue do Dragão Caído! Volte para os recônditos que a criaram! Liberte minha irmã! Hoje conhecerás a fúria dos da minha raça! – gritava ensandecida Atelith, enquanto desferia profundos golpes com a lâmina sobre a cabeça da criatura. O tomasco desesperadamente se movimentava na tentativa de lançar Atelith contra o chão em meio a dor e ao sangue jorrante que as lacerações provocadas pela lâmina da jovem arqueira produziam na parte tenra de seu corpo maciço3. Já cansada e recoberta pelo sangue negro do monstro (tal qual o de Draemoniach) Atelith exaurida foi lançada ao chão.

Subitamente, uma sensação de paz se fez na mente das duas jovens. Aos urros e em meio a movimentos desordenados e frenéticos, por fim o grande tomasco-de-olhos-de-galho tombou frente ao ataque selvagem de Atelith. Ranemann  -presa em meio aos galhos do monstro – em paz cerrou seus olhos ouvindo vozes doces que proferiam palavras – em sua consciência -incompreensíveis naquele momento de exaustão física e mental. Atelith recoberta de sangue (sorrindo) desmaiou esgotada. O silêncio voltou a se tornar imperioso na Floresta Escura.

Continua…


1 – A esse respeito dizem os antigos (do que se tem registrado no Livro dos Dias) que o Deus degenerado Clãh em suas derradeiras luas entregou a Draemoniach o ultimo fragmento da alegria de Orath – quando este soube do nascimento dos seus dezoito filhos com as virgens de sangue bom dos Vilca – durante sua incursão contra Bel.

2 – É dito no Livro dos Dias que as unhas do Atemporal caído Zetricon foram guardadas pelo povo oracular e que Claekuth delas se apoderou para conferir-lhe a longevidade que as maçãs de Nelmitri já não mais produziam quando foram contaminadas pelo sangue pútrido de Draemoniach. Dos últimos restos do Atemporal caído foi forjado o punhal de mármore indestrutível com poderes incomensuráveis guardado em segredo pelos habitantes de Thelim.

3 – Diz-se que na cabeça de um tomasco-de-olhos-de-galho encontra-se galhos macios e jovens em meio a folhas novas pois é nela em que ocorre o crescimento contínuo das estruturas que compõe o corpo da criatura, fazendo assim que tais monstros adquiram proporções gigantescas se atingirem idade avançada.

 

Sobre o Autor

perdeu as contas de quantos mantras realizou para zerar aos onze anos Faxanadu. Suas habilidades crescentes já na infância o levaram a fazer uso da Master Sword todas as vezes em que houve necessidade (desde a Criação até a Era o Caos e da Prosperidade). Atualmente anda às voltas com os reinos de Boletaria, Lordan e Drangleic porém nunca esquecendo que deve estar de pé às seis para levar luz àqueles que necessitam. Gosta de caqui, sustos, games, comida-que-mata, poesia, pringles, fantasia-fantástica, pôr-do-sol... e Pepsi! Não necessariamente nessa ordem.