As Crônicas de Acheron | Do sonho de Ranemann e da queda do Dragão Azul

Publicado em 23 de março de 2016 | Por Antonio II | As Crônicas de Acheron, Contos

As Crônicas de Acheron é uma série de fantasia publicada toda quarta-feira no Mapingua Nerd.
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Aos pés de milenares carvalhos ressequidos pelas maliciosas ervas daninhas, Ranemann e Atelith sucumbiram ao cansaço da longa viagem desde os limites das terras dos Vilca. Um ano de andanças por toda Acheron. Do Ocidente ao Oriente da Terra dos Carvalhos, as duas acheronianas conheceram lugares que antes só tinham ouvido falar aos pés de seus pais e em reuniões festivas de sua tribo. Seu mundo conhecido – Malgaroth – agora se unia a paisagens outrora míticas como o Makalabeth (onde viram os lendários rochedos gigantes circundando a cidade e protegidos pelas majestosas Femiaren), entre outras tantas localidades que visitaram durante sua demanda. Constantemente tais cenários agora brotavam no pensamento de Ranemann em sonhos e visões.

A saudade de sua terra e de seus amigos que forçosamente ficaram para trás na demanda (para encontrar Draemoniach) sobrepôs em suas mentes e corpos o cansaço pela prolongada jornada, a excitação por novos horizontes conhecidos e o temor do fracasso. Onde estariam Zitri e Melikae? Estariam vivos? Ao se separarem deles, Ranemann e Atelith constantemente conversavam a respeito disso. Naquela noite estavam as duas mulheres dos Vilca exaustas, com seus corpos encostados sobre as grandes raízes de um carvalho de folhas secas cinzentas e tronco negro repleto de fungos, descansando após mais um dia de intensa caminhada e jejum. Apenas a água abençoada de Bel proveniente dos poços do Oráculo de Mithmard com algumas escamas de peixes do lugar havia sido fonte de vida para elas pois desde que tomaram o caminho da velha estrada demolida não encontraram mais caça para alimento. Disse Ranemann para Atelith enquanto se sentava no solo pútrido da Floresta Escura:

-“Durmamos, minha irmã. Esse ar fétido intoxica minha mente e entorpece meus sentidos a ponto do cansaço que tenho aprendido a controlar de bom grado no decorrer de nossa derradeira jornada dominar minha vontade… já posso sentir que estamos sob os domínios malignos dos habitantes desse lugar.”

-“É provável que os Atemporais não consigam mais interferir no destino dos habitantes da Floresta Escura dada a sua aparência terrível, pois eles representam a Vida e a Alegria. O Mal que aqui habita incompatível é com a Essência do Uno…” retrucou a exausta Atelith.

-“Amanhã temos que cedo estar de volta à nossa caminhada pois entregues estamos ao destino a nós conferido, quer seja para o êxito ou para a perdição. Sabemos que neste lugar seremos guiadas apenas por nossos sentidos. E neles não devemos confiar, pois a influência maligna que aqui subsiste agirá certamente sobre nossa vontade. Que os Senhores Atemporais nos ajudem!”… por fim Ranemann lentamente respondeu.

Então, com tais pensamentos – e em meio a escuridão impenetrável do lugar – deitadas agora sobre o chão úmido e repleto de grama seca e insetos, cerraram lentamente seus olhos castanhos. Aos pés de um grande e velho carvalho às margens da Floresta Escura, as duas jovens mulheres dormiram.

***

Naquela noite, Ranemmann teve sonhos e visões que mais tarde seriam contadas para Atelith e adicionados ao Livro dos Dias como o escriba outrora já havia registrado a partir do relato dos antigos de maneira imperfeita:

“Estava sentada sobre o Malgaroth em minhas doze primaveras. Mas estava eu sim, em um tempo que não era meu. O tempo, em que eu estava naquele momento, era outro. Pois o Malgaroth possuía um brilho celestial e cintilante. Suas cores eram vívidas com matizes não mais presentes na Terra dos Carvalhos. As flores que cobriam a planície eram de espécies há muito não vistas pelo meu povo e os insetos que permeavam o ambiente eram maiores e coloridos como os corais do riacho que alimenta o Nutherion. O Sol brilhava imperioso sobre Acheron e a Brisa percorria todo a planície movimentando lentamente os campos de flores e trigo do lugar.

Olhava eu o horizonte onde se podia observar o azul dos firmamentos de Bel. Era assim do oriente ao ocidente da Terra dos Carvalhos. O azul dos firmamentos de Bel cobria os altos do céu de Acheron e se misturava com o branco das fundações de Bel. Eu assistia e me regozijava pois certamente era uma visão da Aurora dos Homens esta doada pelos Atemporais. Sim, eu fui abençoada pelo dom da Visão pelos Atemporais…  em minhas visões percebi um sinal escuro no oriente. Do tamanho do meu punho, era como uma pequena Lua que surgia em meio às fundações de Bel. Tal visão chamou minha atenção, pois não existia Deus Criado em semelhança de tamanho e cor nos firmamentos de Bel. A angústia então veio sobre mim, e repentinamente uma voz ecoou por todo o Malgaroth dizendo palavras na velha língua:

“Pequena mulher, vede agora o que acontece quando Ódio e Inveja se interpõem. Cuida para que, a exemplo dos maiorais que reinam sobre teu povo, não repitas tal malfazejo. Demanda tua bondade aos outros pois os Atemporais incutiram Vida e Alegria no teu coração. Observa a queda da Imperfeição ceifeira da terra que foi gerada na alma dos criados…”

Ao ouvir tal sentença, meus pensamentos se turvaram ainda mais sobre o significado da visão. De repente, o sinal escuro no alto das fundações de Bel rapidamente ganhou forma e então o vi. O Dragão. O Dragão grandioso, com poderosas asas recobertas por membranas cinzas. Seu couro era composto de escamas de um azul transparente que refletia o Sol. Seus olhos eram celestes como as fundações de Bel. Da sua boca emergia poderosa língua fendida que proferia palavras terríveis e incompreensíveis até para os que dominam o idioma da velha língua. E o Dragão com sua fúria combatia o Sol. O balançar de suas asas recolheu a Brisa em um vento trazido do oriente. O Sol então castigou a terra, pois a Brisa já não mais existia. E rapidamente a planície onde eu estava se tornou árida e cinzenta e os insetos e animais pereceram.  A inveja do Dragão era tamanha que enfim transformou a Brisa no Vento que soprou com fúria na terra. Então os campos do Malgaroth foram derribados. Ao receber tal visão temi e tremi, pois certamente também pereceria. Mais uma vez, a mesma voz bradou palavras na velha língua que ecoaram por toda Acheron:

“Não temais, pequena mulher. Tua hora está para outro tempo que não esse. Ódio e fúria dos deuses criados não te atingirão até que seja o teu momento. Vê agora e observa a queda do Dragão!”

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Então em minhas visões me mantive observando os firmamentos de Bel. E o Dragão encobria um quarto das fundações de Bel. Suas asas cinzentas se movimentavam com tal vigor que reuniram os Quatro Ventos que antes eram a Brisa protetora dos viajantes andarilhos. O Dragão azul – invejoso e furioso – lançou o Vento violentamente sobre o Sol em forma de Tormentas. E o Sol espalhou seu odioso Calor sobre a Terra dos Carvalhos dez vezes mais para combater o Dragão e os Quatro Ventos. Então, o Malgaroth foi completamente destruído e agora os ventos derrubavam as árvores que antes existiam ali. Volumosas colunas de insuportável calor desciam do Sol em diversas direções se encontrando violentamente com a planície provocando grande fogo que se alastrava pela terra. O Vento em fúria lutava contra o calor odioso do Sol, porém o Vento tornava o Sol ainda mais poderoso em destruição, pois espalhava o fogo por toda a planície.

As Tormentas emanadas das asas do Dragão furiosamente arrancavam os grandes carvalhos, que eram lançados com violência a grande distância, atingindo o Malgaroth com tal força que provocavam tremores e fendas na terra se abriram e tragaram os carvalhos e os corpos dos animais que em grande número cobriam a planície. As fundações de Bel, através da luz incandescente e odiosa do Sol foram iluminadas e toda a terra se tornou como candeeiro que alumiava também os céus. Os sobreviventes da Dissenção entre Vento e Sol clamavam para que a terra os engolisse rapidamente pois grande medo se apoderou dos homens da planície no período de Dissensão. Por fim, o Sol, ainda mais odioso, lançou pedaços flamejantes de seu próprio corpo contra as Tormentas provenientes dos Quatro Ventos, e chuva de fogo cobriu a Terra dos Carvalhos. O Malgaroth jazia agora em meio à confusão e desordem. Enormes e velozes rochas flamejantes vindas do Sol cortavam as fundações de Bel colidindo contra a terra na região da cidade fortificada das Duas Grandes Moleth já parcialmente destruídas pela ação furiosa das Tormentas.*

*Sobre isso se cumpriu a predição de Claekuth a respeito do povo rebelde que ali habitava, pois foi no período de Dissensão entre Vento e Sol que ocorreu a queda dos Milcah, por continuamente virarem suas nucas para os desígnios dos Atemporais até a medida da taça de sua maldade transbordar perante o Uno.

Continua…

Sobre o Autor

perdeu as contas de quantos mantras realizou para zerar aos onze anos Faxanadu. Suas habilidades crescentes já na infância o levaram a fazer uso da Master Sword todas as vezes em que houve necessidade (desde a Criação até a Era o Caos e da Prosperidade). Atualmente anda às voltas com os reinos de Boletaria, Lordan e Drangleic porém nunca esquecendo que deve estar de pé às seis para levar luz àqueles que necessitam. Gosta de caqui, sustos, games, comida-que-mata, poesia, pringles, fantasia-fantástica, pôr-do-sol... e Pepsi! Não necessariamente nessa ordem.

Comentários

  • Muito bom, percebo que estamos em uma “introdução”…