As Crônicas de Acheron | Da demanda de Zitri e Melikae nas cavernas de Femiaren – Parte II

Publicado em 20 de abril de 2016 | Por Antonio II | As Crônicas de Acheron, Contos, Literatura

As Crônicas de Acheron é uma série de fantasia publicada toda quarta-feira no Mapingua Nerd.
Para ler os capítulos anteriores, clique aqui.


Os dois jovens tremareanos mudos permaneceram por um breve momento. Apenas se ouvia o esporádico gotejar de água que descia dos altos da grande galeria granítica. A pálida luz que nela penetrava não era adequada a proporcionar boa visão do lugar e os dois amigos cansados e apreensivos recostaram seus corpos sobre uma grande rocha próxima. E, sentados, estavam quietos. Nada que falassem um ao outro demovia a sensação de estarem perdidos e a um passo de decisões errôneas e irreversíveis. Melikae então quebrou o errático silêncio entre eles e, ensaiando um discreto sorriso, falou em um tom ponderado:

“ – Sabes, meu amigo… Estamos aqui e tu dissestes que a música e a poesia não tem acalmado o meu espírito quanto às nossas desventuras. Mas não seja injusto com as Musas, pois bem sabes que já há algum tempo o espírito delas não tem partilhado minha pequena e abençoada castina. Minha amada Ranemann, onde quer que ela estivesse conosco, sempre solicitava o tremular de suas cordas na viração de cada dia de nossa jornada, até o incidente em Samehim. Sabes, sinto que as Musas agora me chamam para acalentar nossas essências enquanto não decidimos o que fazer.”

Então, Melikae retirou da pequena bolsa atada às suas costas sua castina. Sua pequena estrutura entalhada em ressoante cobre ainda era reflexiva o suficiente para captar a pouca luz que do exterior da trilha chegava até a galeria. Por um momento Melikae segurou com as duas mãos a castina olhando o pálido reflexo da luz em seu corpo. Então fechou seus graúdos olhos azuis e procurou habilidosamente com seus dedos as cordas do instrumento que por tantas vezes o acompanhou em épicos poemas e canções desde a sua infância no anfiteatro central da Cidade dos Cavaleiros onde obteve sua fama de bardo contador.

Em meio a acordes evocativos, Melikae passou a proferir em delicado improviso palavras de uma triste canção (que mais tarde foi registrada no Livro dos Dias como seus Lamentos):

“Ah, se as macieiras ainda existissem em frutas e galhos!

Pois na Terra dos Carvalhos são elas apenas ecos do passado… como o Uno em poderosa voz assim predisse!

E nos recônditos dessa escuridão que nos assola, prova temos de que sim, ela existe…

Chamando atenção para toda a verdade a respeito das palavras de bondade e juízo dos Juízes!

Que sim, tal qual espelho serve para refletir o erro que comentemos! O caminho errado que escolhemos e tomamos!

Na câmara escura onde nos metemos, temerosos estamos e atônitos ficamos!

Ouvindo apenas a mudez de nosso Senhor, que a sua voz procuramos!

Oh, Senhor Fyr das entranhas da terra! Atenta para esse lamento… tu que és nosso soberano!”

O dedilhar cíclico das cordas da pequena castina realizado pelos hábeis dedos de Melikae produziu relaxamento e transitória paz sobre os dois jovens homens solitários que, despertos, estavam silentes em meio aos próprios anseios e medos de estarem irremediavelmente perdidos àquela altura de sua demanda. Melikae repetiu várias vezes a canção em tristonhas variações melismáticas com sua voz leve e doce. Estava absorto em si mesmo, como que em transe. Zitri, em silêncio, fechara seus olhos, se concentrando na música produzida por seu talentoso amigo.

***

b948d918b50395ef316a0464103cff39

O tempo caminhava lentamente em meio às diversas repetições da canção que emanava do belo instrumento de Melikae. Os dois jovens amigos do povo dos cavaleiros estavam provavelmente há algumas horas sentados – cada um em meio a seus pensamentos – quando, repentinamente, o lugar foi iluminado pela pedra guia de Zitri.

“- Veja, Zitri… a pedra guia… luz emana dela! ”, disse Melikae, interrompendo seu canto subitamente. Abrindo os olhos, Zitri colocou a mão esquerda sobre seu pescoço, segurando a pedra.

“- É um sinal. Temos que estar atentos a partir de agora! Graças ao Uno nossas preces ouvidas foram pelos Atemporais. Vamos, levantemos! A pedra iluminará o caminho!” Melikae levantou-se impetuosamente e – segurando a pedra guia – começou a se aproximar da bifurcação no fim da galeria granítica.

Conforme os jovens se aproximavam das duas entradas da bifurcação, a luz que da pedra guia emanava passou a ser cada vez mais intensa e seus matizes, outrora brancos, tornaram-se mais e mais coloridos. Aos pés dos dois caminhos, a luz já era tão intensa que iluminava todo o grande salão. Admirados, os tremareanos puderam olhar para o alto da galeria, observando pequenos mericalhos escondidos em meio aos entalhes arabescos nas rochas que cobriam o lugar. A grandiosidade do povo artesão escondida pela escuridão pôde finalmente ser revelada através da luz mágica emanada da pedra guia do jovem mago tremareano.

“- Que tipo de mãos habilidosas poderiam ter esculpido nessas rochas, meu irmão? Imagino que levaram anos para entalhar todas essas estátuas e detalhes que circundam a entrada dos dois caminhos!” Disse o assombrado Melikae.

“- Quem seriam eles? Retrucou o curioso Zitri. Os dois jovens aventureiros puderam finalmente enxergar que a bifurcação na verdade eram dois pequenos pórticos, todos entalhados na rocha que formava o salão. Representações graníticas esculpidas com detalhes sinuosos e lânguidos de treze estátuas de homens, aparentemente vestidos com trajes nobres e coroas, em meio a outras estátuas menores em estatura em cenas palacianas preenchiam a parede que se unia às esculturas colunares que formavam os pórticos em meio a representações de lendários animais quadrúpedes alados e grandes seres sem rosto e de forma humana. Sobre as entradas, inscrições na língua há muito desaparecida de Nuth chamavam a atenção dos dois jovens tremareanos para o seu significado.

“ – Estudei manuscritos a respeito dos artesãos. Sabe-se que eles descenderam dos construtores, dos quais também os Vilca tiveram sua origem. Entretanto, tal qual seus irmãos, foram destruídos quando a medida do malion de sua maldade transbordou a taça de Juízos do Uno. A língua de Milcah e Nuth são parecidas em alguns aspectos… é claro que está escrito algo como… tremer… temer… a glória dos Nuth…. Atheran é… nosso Senhor. Mit… Mit…rail Senhora… é… n… nos…nosssa”,  observou Zitri, que obteve conhecimento em línguas durante seu treinamento em Thelim.

“- Atheran… Mitranil… deuses degenerados que os Nuth adoravam. Grande malfazejo foi esse dos de Nuth! Mitranil… ela não nos ajudará, meu irmão! As histórias que os antigos contam a seu respeito não a tornam confiável. Ainda não creio que nossa demanda neste lugar trará bons ventos para livrar nosso mundo das forças do Caos em movimento”,  respondeu, pausadamente, um reflexivo Melikae.

“- Aquieta-te, meu irmão… a pedra guia alumiou nosso caminho depois de muito tempo silente. Veja, isso por si só já não é um sinal? Não duvides que Fyr nos observa e de nós tem cuidado desde nossa partida de Thelim. Tua parca confiança ainda se tornará contra ti em algum momento dessa demanda… recomendo que renove tua fé para atrairmos bons favores dos Atemporais e do Uno”,  disse Zitri.

Continuaram os jovens tremareanos caminhando rumo ao final da galeria. Interminavelmente admirados pela grandiosidade do salão e a beleza de suas esculturas, Zitri e Melikae ainda assim podiam ouvir o eco de seus passos e o movimentar esporádico das asas dos mericalhos que vinham dos altos do lugar. A luz emanada da pedra guia, conforme se aproximavam, se tornava cada vez mais intensa e colorida. Após algum tempo caminhando, finalmente estavam os dois tremareanos próximos às colunas de entrada que separavam os dois caminhos. Disse o jovem incrédulo bardo contador:

“- A pedra guia nos trouxe até aqui, mas ainda assim é questão de escolha nossa o caminho que devemos seguir. Esquerda ou direita não significa nada para essa indolente pedra guia que ilumina nosso caminho apenas para ainda nos deixar com dúvida sobre que caminho tomar. Dizei agora, Zitri… para onde vamos?”

O semblante do mago mudou. A incredulidade de seu amigo era irritante. Não teria ele percebido que tinham agora luz para guiá-los e que, através disso, o Senhor das Entranhas de Acheron havia respondido a sua prece? Certamente Fyr não assim o faria apenas para depois deixá-los entregues a solidão e a desgraça desse lugar abandonado. Fervorosamente Zitri cria que logo receberia outro favor do Atemporal.

“Agora, mais uma prece farei”. De olhos abertos, o mago tremareano levantou as duas mãos na altura dos ombros e disse em voz baixa:

“- Senhor que cuida dos poderes das entranhas de nosso mundo, te agradeço por tua beneficência em responder minha aflição. Generosamente iluminastes o caminho com teu poder que emana da pedra guia. Agora mostra-nos mais uma vez a tua bondade para fortificar a fraca fé de Melikae e nos levar a bom termo nessa demanda. Dá-nos sinal para onde ir… direita ou esquerda, qual caminho devemos seguir?”

Instantaneamente a pedra guia engastada no cordão de tiras de couro do mago tremareano começou a emitir luzes intensas de matizes vermelho e azul. “O sinal que pedi de Fyr. O Uno é grande! Vê Melikae, os Atemporais nos ouvem!”, disse Zitri em contida euforia. “Vamos, observemos a luz que vem da pedra e tenhamos sabedoria para compreender o que ela quer nos dizer.”

Assim, os dois jovens, que antes em meio caminho estavam entre as duas entradas, lentamente caminharam para esquerda. A luz da pedra guia paulatinamente se tornava mais intensa e os matizes azuis se sobressaiam sobre os vermelhos. “Vamos à direita!”, disse o agora crédulo Melikae. “Vejamos o que a pedra nos dirá!”. Então, os dois jovens se voltaram à direita e observando atentamente as luzes emitidas da pedra traçaram passos para o outro pórtico.

Subitamente um lento e ritmado tremor passou a acometer o grande salão. Assustados, os jovens olharam ao seu redor e do alto puderam ver revoadas de mericalhos em diversas direções próximos ao teto da galeria. O eco indistinto da movimentação dos mericalhos produziu um barulho estridente e contínuo despertando medo nas mentes de Melikae e Zitri. Os tremores provocaram a queda de poeira do teto e a mesma passou a se misturar com a luz ainda mais intensa da pedra guia que iluminava agora a grande galeria em matizes azuis e amarelos.

“- Vamos, irmão! Corramos! Voltemos à esquerda, certamente esse é o sinal de que o caminho da direita nos levará a perdição!” Gritou Melikae.

Rapidamente os jovens tornaram para a esquerda. Entretanto, os tremores aumentaram, produzindo a queda de rochas do alto da galeria. O chão agora se movimentava vigorosamente de um lado a outro, e fendas surgiram em meio ao solo granítico do salão emanando fumaça negra misturada a enxofre. Desesperados, os tremareanos correram rapidamente em direção à extrema esquerda onde estava a entrada, saltando as fendas que surgiam pela ação do terremoto que estremecia o lugar.

Então, o chão do vasto salão esfumaçado e iluminado pela pedra guia de Zitri começou a desmoronar. Zitri e Melikae chegaram – desesperados – ao pórtico da esquerda, onde misteriosamente o chão ainda estava intacto e, observando destruição em meio à náuseas e tosse por conta da fumaça e enxofre, contemplaram a fantástica cena: grandes pedras, que caíam dos altos da imponente galeria agora em colapso, flutuavam sobre os ares sustentadas pela fumaça negra e verde que brotava dos recônditos do chão granítico, além de as aproximarem umas das outras. Explosões vindas das entranhas da caverna traziam labaredas de fogo que surgiam do chão do lugar e aqueciam as pedras a ponto de transformarem-nas em material semissólido, moldando-as e amalgamando-as entre si. Duas grandes colunas de pedras derretidas emergiram do grande lago de fogo que tomou o chão rochoso da galeria, sustentando as demais rochas já derretidas – estas suspensas no ar pela fumaça negra e o enxofre e que agora estavam bem próximas umas das outras –  misturadas ao fogo unificador e a fumaça negra e verde excedida delas tal qual tentáculos por entre seus espaços que ainda restavam. A ação do fogo e da fumaça sobre as rochas moldou-as na forma de um ser gigantesco e aterrador de grandes braços e pescoço curto. Do seu obscuro rosto emanava colunas tentaculares de fumaça negra assim como de seu poderoso dorso que passaram a sustentar o resto do teto do salão que ainda desmoronava. De seu rosto podia-se apenas enxergar com clareza os olhos – que eram como dois grandes candeeiros acesos – pois a fumaça escondia suas feições rochosas. Em meio ao colapso do salão e a visão aterrorizante, o gigante formado por rochas incandescentes bradou em voz ecoante:

“ – Vós mortais, que tem chamado por meu nome desde há muito. Vós, que ousam derramar o próprio sangue para purificar suas almas inferiores e ascender a minha eterna existência das entranhas da terra que eu e meus irmãos criamos juntamente com o Uno. Vós, que em meio a pequenez do seu breve viver fazem prece e lamentam em canção de sofrimento sobre o meu silêncio… dizei, agora que estais perto de conhecer ou mundo inferior ou as delícias de Bel… o que querem daquele que constrói e destrói as fundações do mundo e que reina no Outro Mundo Inferior. Dizei ao seu Senhor Fyr, em tão nefasta e derradeira hora em que, sem demora, ou morrerão ou ainda viverão?”

Continua…

Sobre o Autor

perdeu as contas de quantos mantras realizou para zerar aos onze anos Faxanadu. Suas habilidades crescentes já na infância o levaram a fazer uso da Master Sword todas as vezes em que houve necessidade (desde a Criação até a Era o Caos e da Prosperidade). Atualmente anda às voltas com os reinos de Boletaria, Lordan e Drangleic porém nunca esquecendo que deve estar de pé às seis para levar luz àqueles que necessitam. Gosta de caqui, sustos, games, comida-que-mata, poesia, pringles, fantasia-fantástica, pôr-do-sol... e Pepsi! Não necessariamente nessa ordem.

Comentários