As Crônicas de Acheron | A Reunião do Conselho do Povo das Alturas

Publicado em 9 de novembro de 2016 | Por Antonio II | As Crônicas de Acheron, Contos, Literatura

As Crônicas de Acheron é uma série de fantasia publicada toda quarta-feira no Mapingua Nerd.
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– Se meu pai ainda estivesse vivo, certamente estaríamos mais preparados para nos defender. Trezentas espadas, é tudo o que temos. E escudos… de madeira!

– Calma, homem. Temos os Crafaeins. São em número de cem. E vinte e três Draquons. Confesso que fiquei impressionada com os animais que teu povo possui. Mas dizei, o que as formigas falam dos bárbaros? – disse Atelith a Jotuh, enquanto, deitada, o abraçava.

– Segundo meu tio Vatrehuh… eles são muitos. Mais do que isso, não tenho novidades. Não ouço a voz delas. Somente ele conversa com as formigas. Quanto aos animais abençoados… todos foram capturados por meu pai. Deves ter percebido que estão muito magros, pois os alimentamos com musgo, visgo e pequenos animais. O alimento aqui é escasso e cada vez mais temos que nos arriscar indo ao leste em sua busca.

– Podem estar malcuidados, mas ainda assim causam espanto. São peças importantes em qualquer guerra! E pelo menos vocês tem a Patrulha. Ao que vi, são homens treinados!

– Mas estão em número reduzido e os anos de ociosidade os tornaram preguiçosos. E até ela existe por esforço de meu pai. E agora, já que te interessa por esses assuntos de guerra, vire-se, que o teu guerreiro conquistará mais uma vez o pequeno monte entre as tuas pernas!

– Ah, não é assim, guerreiro franzino! Não vais me tomar de assalto novamente. Pois eu sou a grande Atelith e estou cansada! Já nos divertimos demais por hoje!

E enquanto se levantava da cama de palha e procurava sua túnica colorida no pequeno aposento, Atelith virou-se dizendo:

– Podes desdenhar de teu tio, mas Vatrehuh é um grande homem. Admiro sua habilidade com as espadas curvas dos selvagens do leste. E a maneira apaixonada como tenho visto ele instruir seus homens inspira qualquer um a se tornar guerreiro! Sua calma e frieza são essenciais para um líder em tempos difíceis como esses.

– Não fecho meus olhos para as suas qualidades. Mas o malfazejo que Vatrehuh fez ao meu pai ainda será retribuído. Toda a sua dissimulação, executando os assassinos de Sertravh, pode ter convencido todos, mas sempre me foi claro que meu tio desejava o controle absoluto de nosso povo. Ele pode deter o poder por agora, mas isso não perdurará por muito tempo – respondeu Jotuh.

– Ah, meu querido! Pressinto que o Uno e seus Filhos nos aproximaram providencialmente por nossas motivações em comum! Sei bem o que sentes a respeito, pois, como já te disse, fui punida enquanto inocente por Claekuth… com suas histórias de predições. O amor, Jotuh, emana do Uno. E eu já amei! Está vendo a marca na minha mão? Pois sim, ela indica que sou tão condenada a falhar quanto meu pai Lamech1 também foi. Por conta disso, fui exilada por um ano! E, como se isso ainda não fosse suficiente, perdi meu filho para a servidão em Thelim! Dizei, que sentimento é mais puro e livre do mal que o amor? Pode o homem ser castigado por nutrir o bem em sua essência através dele? Pois aqui estou eu para te dizer que sim! Eu sou Atelith, a guerreira vilca. Protetora dos Oraculares. Filha legítima de Morjal. Mas isso não foi suficiente para me livrar de uma condenação injusta imputada por minha mãe com a desculpa de não cumprir os desígnios do Uno. Sim, homem das grandes madeixas… pode a lua avançar os anos em Acheron, mas ainda terei o meu quinhão que até hoje me tem sido negado!”

– Bem vejo que o viço da tua essência te faz tenaz em buscar vingança. Isso é característica dos destinados a grandes feitos. Podes contar comigo no que precisares para tal. Disse Jotuh.

Anda, levanta-te, já é quase hora do banquete. Os outros devem estar nos esperando! Aliás, gostaria depois de um pouco de argila para modelar meus cabelos e duas servas para me auxiliar nisso, afinal, a consorte do braço-direito do senhor do Povo das Alturas precisa estar com a aparência à altura de sua posição, não achas?! – disse Atelith já vestida, com um sorriso malicioso.

– Fico a imaginar se tivesse conhecido meu pai. Sertravh, sim, era um líder. Pois detinha um tipo de inteligência da qual que Vatrehuh não é afeito. Todas as espadas que vistes nos depósitos, minha cara, foram fruto das negociações dele com os homens do leste. Ele possuía o traquejo político que meu tio nunca terá. Nosso povo agora vive em isolamento por conta das decisões de Vatrehuh. Anda, prepara-te. Uhtyl e os seus já devem ter chegado. Meu tio não gosta de esperar…

Atelith se aproximou de Jotuh e, sentando em seu colo, o interrompeu com um beijo. E os dois permaneceram por alguns instantes abraçados, em silêncio, quando o rapaz finalmente disse:

– Ordenarei às minhas servas que tenhas argila e auxílio para o belo penteado de hoje à noite, pois já que sois minha consorte, deves ter cabelos tal qual.

***

– Pensei que não viessem mais. Sejam bem-vindos, meus sobrinhos queridos! – disse Vatrehuh, curvando a cabeça em saudação ao casal.

– Minha irmã! Como estais bela! Nunca vi uma túnica tão colorida e adornada como essa nem no Palácio dos Censores. Vejo que o amor te tem feito bem! – falou Ranemann, admirada com a aparência de Atelith.

Sentados à mesa de madeira maciça do salão austero iluminado pela luz das muitas velas que estavam dispostas no candelabros pendurados em diversos pontos das paredes no interior da gigantesca sequoia, estavam o senhor do Povo das Árvores, Ranemann, o líder da Patrulha, Uhtyl, e seu general Gehamih.

– Bom, já que agora estamos todos reunidos, podemos comer e nos alegrar um pouco apesar dos tempos difíceis que nos sobrevém. E enquanto nos fartamos, poderemos conversar a respeito de como andam os preparativos para a investida contra nossos inimigos. Dizei, meu nobre Uhtyl… quais são as novas a respeito dos trabalhos da Patrulha? – perguntou Vatrehuh, erguendo sua caneca de hidromel.

– Meu senhor, desde que perdemos Mafura e Jotih, temos encontrado mais e mais homens degenerados vagando por nossas terras. Eles são fortes e alguns de nossos homens foram feridos gravemente. Se antes tínhamos em nossas fileiras mil soldados, hoje possuímos oitocentos e vinte por conta das baixas. –  respondeu o homem, enquanto pegava alguns grilos defumados untados com mel dispersos numa travessa rústica de madeira – hum, estão deliciosos… – balbuciou, levando um punhado à boca.

– Esses monstros são sanguinários. Dizem que o sangue preenche o vazio de suas essências tomadas pelo ódio do Caos em movimento. Pude ver com meus próprios olhos como atacaram ferozmente meus dois homens e sorveram seu sangue num instante enquanto andávamos distraídos pelas extremidades de nossa planície. Sua sede pela vida é descomunal! – complementou Gehamih.

– Não seria então mais prudente utilizar os Crafaeins nas vigílias? Quero dizer, são animais portentosos, protegeriam os homens. Pois bem sei que os homens degenerados possuem uma força incomparável à nossa. Afinal, eu e minha irmã fomos atacadas por eles às margens do Acherontis e por pouco não perecemos ” – disse Atelith.

Jotuh, fitando-a, disse sorrindo:

– Minha senhora tem razão. Apesar de ter percebido que estão sendo mal alimentados, os Crafaeins podem ser de boa utilidade para isso… pois lidariam bem com tais ataques. Não creio que a tua obstinação em os poupar seja benéfica para nosso povo, meu tio. Não vejo outra saída para impedir que mais dos de nosso povo pereçam.

– Não gostaria de perdê-los. Tanto eles quanto os Draquons são fundamentais na defesa de nosso povo contra o ataque maior que certamente nos sobrevirá. O último levante de bárbaros matou diversos dos nossos que ainda habitavam próximos às raízes das árvores. Inclusive mais dois Crafaeins foram levados com eles. Aliás, como estão os que ainda não foram levados para os refúgios nos altos? Como anda a sua construção? – questionou Vatrehuh. – Serva! Traga o ensopado de coelho!

Enquanto os convivas saboreavam a carne tenra cozinhada com cebolas, Gehamih respondeu:

– Todos os doze refúgios já foram finalizados, meu senhor. Mas como tu sabes, muitos de nosso povo são resistentes em abandonar seus lares para viver nos altos. Temos que lidar com a fúria dos que se recusam a isso, e há alguns dias houve uma rebelião dos da casa de Drotram e Filistio por conta disso.

– Esse caso vai muito além disso, meu general. A execução dos traidores Drotram e Filistio levaram os seus a constantes rebeliões contra o meu governo, e isso certamente tem representado um problema para a unidade de nosso povo. Não nego que minha vontade tem se inclinado a encerrar esse assunto com violência. Porém, creio que agir de tal forma despertaria revolta e, certamente, outros tomariam o seu lugar nisso. Essa questão é deveras difícil de ser resolvida. Jotuh, o que me aconselhas? – indagou Vatrehuh.

– Meu tio, os assassinos de meu pai receberam o que mereciam. Sobre isso já sabes minha opinião! Desde muito tenho dito o que hesitas em fazê-lo: exterminá-los! Não existe governo sem unidade e ela também é conseguida através da força. Seja pelo amor ou pelo medo, o povo deve seguir e obedecer ao seu senhor! Rebeldia deve ser sempre tratada com atitudes enérgicas. Pois, meu conselho é que envie teus soldados à casa de Drotram e Filistio para estripá-los! Esquarteja os corpos dos rebeldes e espalha os pedaços por toda a planície como aviso para todo aquele que tramar fazer igual. Haha! Duvido que após isso alguém se levante contra ti. –  respondeu Jotuh, já com a mente ébria pelos efeitos do hidromel.

Também já bêbado, disse Vatrehuh em voz alta:

– Viram? Os conselhos de meu sobrinho sempre são os mais sanguinários! Mas isso não representa a índole do Povo das Alturas, meus caros! Porém, devo confessar que em vista da tensão que esse problema tem me causado, não é um conselho de todo ruim.

Siga o que a sua essência decidir, meu amigo. Tu és um bom homem. Estou silente agora, porém tenho observado há tempos os que te cercam. E tenho tentando desvendar os pensamentos de Jotuh e Atelith. Tão certo quanto é o amor do Uno por seus filhos, essa súbita e estranha união ainda deve nos trazer mais surpresas. – disse Ranemann, em pensamento, a Vatrehuh.

– Não julgue a minha índole como alheia à de nosso povo, meu tio. Pois se assim o fosse, bem sabes que por laços de sangue elas então seriam semelhantes, já que por tua própria ordem Drotram e Filistio foram assassinados, com a desculpa de terem atentado mortalmente contra meu pai – retrucou Jotuh, em tom irônico, enquanto comia um punhado de salada de musgos com pêssegos secos.

– Espero que não estejas me acusando de ter tramado contra eles, pois eram meus soldados fiéis da Patrulha. Mas chega desse assunto por hora! Drotram e Filistio agiram perfidamente contra meu irmão. E tiveram o castigo que mereciam – respondeu Vatrehuh, com o semblante visivelmente alterado pelo rumo que a conversa tomara.

Ranemann, àquela altura percebendo a situação estabelecida e o desconforto de todos os que estavam no salão, interrompeu a conversa. Pigarreando, perguntou:

– Meu senhor, outrora falavas sobre um possível poderoso ataque dos homens do leste contra o povo. E pelo que se tem dito aqui, a Patrulha não é numerosa, muito menos os animais abençoados que tens a serviço. Não seria prudente buscar auxílio nos outros povos de sangue bom? Temos conversado a esse respeito há algum tempo e, apesar de nosso isolamento dos remanescentes dos homens em Ziporih e no Malgaroth, as tuas amigas formigas poderiam muito bem levar a eles cartas de ajuda!

– Não desejo relação alguma com os orgulhosos de teu povo, muito menos com os filhos de Nartreg. O que elas têm me dito a respeito disso não é nada animador – respondeu Vatrehuh.

– Meu senhor, a raça dos homens está à beira da extinção e nossos povos foram os que restaram após a descida da Água Súbita. Não é hora de remoer o passado, vivemos o momento onde os homens precisam se unir! Sem isso, de certo não haverá para nós lugar na Terra dos Carvalhos. Pondera, senhor do Povo das Alturas! Mil homens não serão páreos para uma miríade de orientais e criaturas malévolas sob o comando dos generais rastejantes do Caos em movimento e sua Serva Loucura – disse Uhtyl em tom severo.

– Teu líder tem razão, Vatrehuh. As pessoas por essas terras que mais querem seu bem estão aqui hoje contigo! E as formigas estão te ouvindo. Veja, estão por todo o chão. São nossas amigas. Dá apenas uma ordem a elas e levarão rapidamente um pedido de socorro à Ziporih e ao Palácio dos Censores! – pediu Ranemann.

E todos os olhares no salão estavam voltados para ele naquele instante. Vatrehuh, em silêncio, então levantou-se, e caminhou em direção à ampla janela que estava à frente da mesa. Observando o horizonte escuro, ponderou. Sua resistência em pedir ajuda dos outros povos dos homens já era antiga. Ziporih era corrupta, e a mágoa de Thelim e dos vilca nunca sarara. Mas o senhor do Povo das Árvores também sabia que não faria frente contra as hostes do Caos em movimento.

“Eu… eu preciso pensar mais um pouco. Preciso saber o que o Uno deseja a esse respeito. Mas minha decisão não tardará mais. Já está amanhecendo. Vamos dormir.

Enquanto olhava o céu na janela, pode ver um grande Draquon se aproximando.

Continua….


1- “O que falhou, segundo o Livro dos Dias.

Sobre o Autor

perdeu as contas de quantos mantras realizou para zerar aos onze anos Faxanadu. Suas habilidades crescentes já na infância o levaram a fazer uso da Master Sword todas as vezes em que houve necessidade (desde a Criação até a Era o Caos e da Prosperidade). Atualmente anda às voltas com os reinos de Boletaria, Lordan e Drangleic porém nunca esquecendo que deve estar de pé às seis para levar luz àqueles que necessitam. Gosta de caqui, sustos, games, comida-que-mata, poesia, pringles, fantasia-fantástica, pôr-do-sol... e Pepsi! Não necessariamente nessa ordem.

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