As Crônicas de Acheron é uma série de fantasia publicada toda quarta-feira no Mapingua Nerd.
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– Zitri, eles estão nos observando! Acorde! – disse o temeroso Melikae.

A escuridão imperiosa que dominava o local onde os dois tremareanos estavam, impedia-os de enxergar os corpos das criaturas que os seguiam já havia dias, no caminho indicado pela pedra guia. Após o encontro com Fyr e sua descida rumo ao caminho desconhecido da esquerda, tudo o que os dois amigos haviam encontrado até agora era o silencio e a desolação que subsistiu na abandonada Nutherion dos artesãos.

O mago estava exaurido fisicamente pelos dias exaustivos de caminhada no escuro. A pedra guia – tão logo adentraram os dois tremareanos no caminho por ela indicado – cessou sua emissão de luz. Em absoluto negror, Zitri e Melikae caminharam apreensivos adentrando mais e mais nas profundezas das Femiaren. A escassez dos provimentos de Zitri para a execução de suas magias o fez administrá-las austeramente, e o mago se privou de iluminar o caminho até então com seu cântico elemental para o surgimento de fogo.

Te silencia, bardo! Se criaturas nos observassem, meus sentidos aguçados já teriam me avisado. Meu treinamento se fez muito além do aprendizado sobre poemas e canções!retrucou o desperto e aborrecido Zitri.

Já havia alguns dias que Melikae dizia a Zitri sobre a constante sensação de estar sendo observado. Talvez meu irmão esteja enlouquecendo, era o pensamento recorrente de Melikae sobre isso, afinal, sua essência aguçada o alertaria a respeito de ameaças se assim o fosse. Seu grande domínio sobre os meandros psíquicos e dimensões espirituais eram capacitados para tal.

– Venha, Melikae… me ajude a levantar, pois ainda estou cansado… porém, creio que seja prudente caminharmos mais algumas horas seguindo o caminho que nos foi indicado por Fyr –  disse o exausto Zitri. Melikae prontamente se levantou e tomou seu amigo pelo braço esquerdo.

***

Após certo tempo de caminhada às cegas pelo caminho estreito e frio, os dois jovens tremareanos estavam ainda mais exaustos. A umidade do lugar não era contribuinte para sua disposição em busca de seu objetivo. A voz grave do Senhor do Outro Mundo Inferior ainda era ecoante na mente de Melikae e Zitri. Apesar de não compreenderem o significado das palavras de Fyr, os dois jovens continuavam a caminhar. Lentamente. E em silêncio. A sensação de desolamento e perdição era constante na mente de ambos. Porém, tal sentimento não os impedia de seguirem seu caminho. O desconhecido destino de sua jornada era enormemente esmagador sobre suas esperanças de chegarem a bom termo em sua demanda. A saudade de seus lares e da vida simples nos domínios dos cavaleiros imprimia sobre os jovens a constante ideia de insucesso. Os bons sentimentos cultivados durante suas vidas, até participarem da reunião do conselho do povo da Visão em Thelim, eram apenas resquícios de um passado agora aparentemente muito distante para eles. Ao que parecia para Melikae e Zitri, àquela altura dos últimos acontecimentos de suas vidas, já não existia mais espaço em seus corações para eles. O que restara era apenas incerteza e medo. E ainda assim os dois continuavam a caminhar.

– Não tenho suportado essa escuridão, meu amigo. Estamos aqui há já não quanto tempo andando… nossas provisões estão a se esgotar, e sabemos que não há mais retorno para nós à superfície. Sinto imensa saudade do que ficou para trás. Não sei ao certo o porquê do Uno ter traçado tal rota para a minha vida. Agora, aqui, no interior dessa imensa caverna, posso perceber o quanto a esperança para nossa raça se faz diminuída, pois se antes ela ainda existia em dependência de mim e você, meu caro mago, é bem verdade que são ínfimas. Tenham melhor sorte minha amada Ranemann e a nobre Atelith! Acheron jaz em perdição e os Maiorais não parecem se importar. Fyr poderia ter feito mais pela Terra dos Carvalhos do que simplesmente nos indicar esse caminho escuro e brincar com nossas vidas através de jogos de palavras e adivinhações. Minha crença, meu amigo… está se esvaindo junto com a minha força. Precisamos de alguma certeza… precisamos de luz. Não consigo vislumbrar uma Acheron restaurada. A destruição do Malgaroth, a aridez e as ruínas das Terras Proibidas, o Makalabeth desolado… tudo o que presenciamos em nossas andanças, a fúria dos animais e dos homens degenerados às margens do Samehim… aquela beleza singular que ouvíamos nos poemas e nas canções não existe mais, Zitri! O que vimos ao longo de nossa demanda na Terra dos Carvalhos nada mais é que a decadência de nossa raça e do mundo em que vivemos. Nossos povos foram fragmentados e decaíram ao longo dos anos. A glória dos homens contidas nas canções do meu cancioneiro já se foi há muito tempo. E me pergunto se ela um dia realmente existiu… –  discursou lentamente um desesperançoso Melikae.

– Meu amigo, não desanime! Ainda existe esperança para os homens. Sou crente no bom termo de nossa demanda, pois veja… estamos vivos e com saúde. A provisão ainda existe e os Atemporais sim, nos guardam. Fyr – em matéria! – nos fez visita em nosso auxilio! Anima-te! Assim como tu, vislumbrei toda a destruição que sobreveio sobre os de nossa raça durante nossas andanças por Acheron, mas veja! Conhecemos a história como ela está registrada no Livro dos Dias e sabemos que todos os males que sobrevieram sobre os grandes povos do passado se deram por conta de seu malfazejo e desobediência aos desígnios do Uno para os homens. Não desviemos de nossos caminhos e vamos animosos. Cumpramos nosso ciclo com a dignidade que possuímos… pois creio que nossa essência boa é. O que quer que esteja reservado a nós – êxito ou perdição – aceitemos de bom grado. No Outro Mundo Inferior seremos recompensados. E talvez sejamos ainda mais agraciados pelo Uno para assim poder habitar com os nobilíssimos abençoados que estão junto dele em seus domínios. Venha, vamos nos animar com a luz do fogo que invocarei para aquecer nossos corações e abrasar nossa esperança adormecidaretrucou o implacável devoto Zitri.

Assim, Zitri, de seu bolso de provisões, tocou nas pequenas pedras incandescentes  – colhidas do riacho que brota da nascente do Acherontis subterrâneo e nutre as terras dos Thelim – que estavam lá guardadas. Imediatamente, poder emanou através delas em encontro com a polpa dos dedos do mago. –Zetriquia sobrevati, zetriquia sobrevati, zetriquia sobrevati, balbuciou Zitri, de olhos fechados, enquanto de mãos estendidas proferia em tom crescente o encantamento do fogo aprendido com o povo oracular que o fez poderoso mago psíquico dos elementais. Imediatamente seus dedos passaram a emitir luz que enfim clareou o lugar. Os dois amigos tiveram suas visões ofuscadas momentaneamente pela súbita luz mágica, mas logo em seguida puderam finalmente enxergar um ao outro e observar a aparência do caminho estreito que há dias percorriam.

– Mericalhos… sabia que estávamos sendo observados. Não eram servos da grande serpente caída, Atheran? –  disse Melikae, enquanto elevava sua visão ao alto da galeria estreita.

– Sim, porém não nos farão mal. Foram tragados pelo medo desde a queda do Deus degenerado. Muitos deles estavam na galeria central, e nada nos fizeram. Não creio que sejam capazes nos atacar, pois segundo o que é dito no Livro dos Dias, perderam sua vontade desde a queda de seu Senhor. Lembra-te disso, Melikae: a mente das criaturas servas de Atheran eram ligadas a ele e assim ele as controlava. Com a sua queda, tudo o que restou foi o medo oriundo do sangue negro do moribundo Draemoniach. É provável que esses mericalhos possuam mais medo desse lugar que nós mesmos – respondeu o erudito Zitri.

– Ainda assim não me sinto confortável em saber da presença dessas criaturas. Afinal, não sabemos quantas mais ainda subsistem às ruínas dessa cidade esquecida. Ademais, temos que lembrar que estamos à procura de Mitranil, consorte de Atheran! Por vezes não vejo com bons olhos essa decisão… a de encontrá-la. Fyr a esse respeito brincou conosco em meio a jogos de palavras e enigmas incompreensíveis. Tudo isso incomoda meu espírito – comentou Melikae.

– As palavras de Fyr estão por mim guardadas e certamente seu significado será revelado em tempo oportuno, meu irmão. Agora observe a glória dos artesãos. Veja como nossos ancestrais eram habilidosos e confeccionaram suntuosos entalhes nas paredes graníticas desse caminho estreito. A raça humana é gloriosa, Melikae. Ainda temos muito das habilidades conferidas pelo Uno quando da nossa criação. Com Acheron restaurada poderemos recuperar o tempo perdido para a indolência e descrença que assolou nossos povos após o surgimento do Caos em movimento e dos Deuses degenerados. Tenho plena consciência que somos parte do início de uma nova aurora para a Terra dos Carvalhos! – disse Zitri, fitando Melikae com olhar otimista.

Então Melikae passou a observar o lugar atentamente através da luz que emanava das mãos de seu amigo mago. Os detalhes arabescos sinuosos e floreantes concebidos em pedra, que preenchiam todas as paredes do lugar estreito no qual os dois jovens tremareanos se encontravam, assombrariam qualquer homem vivo após o fim da Era dos Profetas do Caos  – também conhecida como “a Dissenção entre Vento e Sol” –  que os observasse. A glória dos homens artesãos da pedra fora tamanha que envergonharia os construtores das delicadas e coloridas construções cavaleirescas dos Tremares.

– Os homens do passado eram afeitos a grandes monumentos e construções portentosas – comentou Melikae.

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– Sim, e crente sou que recuperaremos essa afeição. Imagine, meu amigo… que poderemos reconstruir a Nutherion do passado! Após o fim dessa demanda, nosso povo poderá reerguer a glória de nossos pais desde aqui até as Terras Proibidas. Com Acheron restaurada, haverá demanda no coração dos homens para recuperar suas aptidões do passado que se perderam em meio à idolatria de baixo nível e crença. Viveremos finalmente em uma era nova e grandiosa para nossa raça – respondeu Zitri.

***

Após algumas horas de caminhada em meio ao corredor de grandes paredes entalhadas, os dois jovens tremareanos se depararam finalmente com um grande salão com diversas ruínas do que outrora fora morada dos habitantes do povo de Nuth.

– Veja meu amigo, aqui eles habitavam. Tudo o que estamos vendo provavelmente foi morada dos que aqui se diziam ser os nutherianos – disse, admirado, Melikae.

 – A fenda que leva para a pedra entalhada do outrora vivo traz as brumas que separam o mundo que buscas do qual nele estais… foram estas as palavras de Fyr. Só é isso que temos de concreto” – retrucou o pensativo Zitri.

O lugar era imenso. Uma cidade inteira construída no interior de um complexo subterrâneo de cavernas colossais. A entrada do grande salão ainda possuía colunas finamente entalhadas na rocha que sustentavam seu teto vasto. O olhar atento dos dois amigos pôde observar as diversas pilastras espalhadas em pontos estratégicos para a estabilidade física do lugar que continha o outrora orgulhoso povo de Nuth. Tudo parecia ter sido destruído violentamente por forças maiores que a capacidade humana. As construções estavam em frangalhos. Diversas paredes das construções estavam demolidas. As ruas graníticas pareciam ter sido parcialmente arrancadas por poderes de destruição maiores que os homens seriam capazes de promover. O povo de Nuth – outrora grandioso – havia sido destruído certamente por mão forte sobrenatural.

 -Foram dizimados por conta de sua desobediência e obstinação em adorarem a grande Serpente. Veja só o que restou. Mais uma vez, os antigos falavam a respeito com verdade em suas palavras – refletiu Zitri, em voz alta.

– Isso foi obra da Água Súbita… assim o foi!? – indagou o perspicaz Melikae.

– Sim. Mas certamente também somos testemunhas do que restou desse povo a partir da obra dos Míticos Alados. Assim é dito no Livro dos Dias – Complementou Zitri – Nossos pais encheram a taça do malion do Uno tal qual os Milcah em obstinação e desrespeito contínuo aos desígnios do Uno e os Atemporais. Esse é o galardão para os que os desobedecem, meu amigo.

A entrada da cidade continha treze grandes pilastras de sustentação que iam do solo até o teto da grande galeria. Em meio a elas, uma rua central parecia dividir o salão ao meio. A se perder de vista, os jovens puderam observar a rua que adentrava o interior da Nuth abandonada. Alguns crânios e ossos secos estavam dispersos por todo o lugar até a entrada do caminho estreito que trouxe os dois tremareanos até a Nova Nutherion. Ruínas de uma construção – aparentemente uma muralha – circundavam todo o salão, se entremeando às pilastras ainda intactas que juntamente a elas percorriam toda a periferia da gigantesca galeria.

– Só nos resta seguir esse caminho, meu amigo – disse Zitri.

– Vamos. Aqui estamos, porém aqui não ficaremos. Devemos encontrar a passagem para o Mundo Mosaico de Atheran. Fyr declarou que Mitranil lá está. É a nossa única chance agora que presos estamos nesse lugar abandonado que transpira desobediência e morte – retrucou Melikae. Assim foram os dois jovens tremareanos seguindo a estrada do meio rumo à deserta Nuth.

– Espere, Melikae! Sinto que não estamos sós no lugar. E isso me intriga, pois mericalhos estão por toda parte e minha essência não os reconheceu como ameaça. Agora sei que, além deles, outras criaturas ainda vivem aqui. E essas, até agora desconhecidas, representam perigo certo para nós” – disse Zitri, agora apreensivo.

As palavras de Zitri adentraram a mente de Melikae como seta que perfura a carne profundamente. Enquanto caminhavam, os dois jovens observavam atentamente tudo ao seu redor. A pedra guia engastada no pescoço de Zitri subitamente passou a emitir uma fraca luz vermelha…

Continua…