As Crônicas de Acheron | A emboscada dos homens do leste e a partida de Damonih

As Crônicas de Acheron é uma série de fantasia publicada toda quarta-feira no Mapingua Nerd.
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“-Veja, Sabretil… lá vai ele! Não faça barulho…” sussurrou Zitri andando lentamente encurvado enquanto apontava para o coelho que se escondia no interior de um tronco podre. “–Calma, ele é meu. Minha zarabatana é infalível!” Respondeu a menina ruiva se abaixando e sorrindo para o jovem mago. Enquanto Sabretil se aproximava do esconderijo do pequeno animal, Zitri relaxava o passo observando a moça avançar em sua frente. “- Pobre coelhinho, me entenda…sua carne servirá a um bem maior!” Disse Sabretil baixinho, deitando-se na grama a certa distância do tronco e preparando-se para atirar o dardo paralisante.

O coelho então saiu em disparada para fora do esconderijo. “-Corra Zitri, eu o acertei! Logo ele vai desmaiar!” O mago rapidamente correu atrás do animal ferido em fuga, que após certa distância passou a tropegar quando enfim, caiu de lado. Zitri o pegou pelas orelhas. “Deve dar um bom assado com banha e ervas… e uma luva razoável para o outono que se aproxima.” Pensou o mago enquanto cortava a garganta do coelho desmaiado e retornava caminhando rapidamente para Sabretil. “-Veja, menina caçadora… aqui está.” Disse Zitri. Com a mão estendida, o mago sorriu para a moça ruiva de rosto estreito e grandes olhos azuis. O sorriso delicado de Sabretil então retribuiu o do jovem. Sua pele transpirava devido ao calor primaveril daquela manhã ensolarada repleta de borboletas e pássaros coloridos no Makalabeth. A grama verde estava alta, e em meio a elas diversas margaridas, rosas e girassóis povoavam os arredores do pequeno bosque onde os dois caçavam.

“-Ainda falta madeira. Damonih solicitou que trouxéssemos alguma para não faltar esses dias. “Disse Zitri, entregando ofegante, a prenda para Sabretil.

“- Meu pai pensa sempre preocupadamente no futuro. É certo que ainda exista madeira no celeiro o suficiente para esses dias. Não levai tanto a ferro e fogo o que Damonih diz quanto às provisões de nossa casa! Ele é assim mesmo… vamos voltar, e dizemos que nada encontramos.” Respondeu Sabretil, dando de ombros.

“—Não posso fazer assim, menina! Damonih tem sido mui gentil em permitir minha permanência em seu lar por todo esse tempo. A essência íntegra se faz no exercício de sempre se decidir pelo correto, mesmo às vezes a despeito de nossas vontades e consequências… estou convosco há pelo menos dois meses comendo e bebendo de sua despensa. Não é justo que não atenda os pedidos de meu anfitrião.” Falou o mago em leve tom de repreensão.

“-Ah, Zitri. Por vezes esqueço o quão és reto em tuas atitudes. E admiro isso em ti! Porém, não creio que a vida exija toda essa rigidez de caráter para o cumprimento do Ciclo. O Uno deve ver e pesar as circunstâncias de cada situação no Malion do Juízo. Sim, Ele é o Reto Juiz, mas também dele emana a Bondade e a Misericórdia. Retrucou a impetuosa Sabretil, em passos rápidos tornando para o sul.

“-Argumentas bem, apesar da pouca idade, e quase sempre me convences quando estamos a discutir sobre diversos assuntos. Mas o tempo que te ainda faz jovem te levará a outro plano de compreensão sobre as coisas da essência quando mais velha o fores. E apesar de minha afeição a ti, não poderei estar contigo por muito mais tempo. E sinceramente me preocupo sobre teu caráter e onde ele te levará, pois onde quer que eu estiver, as boas lembranças desse tempo que passei no Makalabeth sempre me trarão de volta a ti e a teu pai. Veja, ali tem boa madeira…” respondeu o jovem, caminhando em direção de alguns troncos frescos, apanhando-os.

Ao ouvir as palavras de Zitri, o semblante de Sabretil mudou. O tempo passado em companhia do mago de Ziporih aproximara dele seu coração. Seu caráter íntegro e sereno havia cativado sua essência. Depois daquela noite no celeiro, não haviam mais conversado a respeito de partirem do seu pequeno mundo nos campos do Makalabeth, porém Sabretil ansiava por retomar ao assunto mais uma vez. Mas não esperava que fosse naquele momento. Parada, e franzindo suas ralas sobrancelhas disse:

“- Se assim fizeres, muito me magoará, pois, minha essência à tua está ligada. E todo esse tempo pensei que assim o fosse para ti também. Mas percebo que tua vontade de ir embora das minhas vistas é maior que o que aparentas sentir por mim, pois pelo que dizes, nem cogitas me levar consigo. Isso me entristece e quero que saibas disso quando partires, e onde quer que estiveres.”

O mago então tornou seu olhar para a pequena moça ruiva, que cabisbaixa tomava o caminho de casa. O discurso de Sabretil atravessara como seta o coração de Zitri, que vivenciava tal conflito em sua essência diariamente desde que chegou ao Makalabeth. A impetuosidade e leveza de caráter de Sabretil o encantara pouco a pouco conforme fora conhecendo a jovem em seu cotidiano. Os mistérios que também a envolviam enigmaticamente o atraíam a ela. Afinal, não esquecera da primeira noite de seu retorno ao Makalabeth e tudo o que havia acontecido. Andando logo atrás de Sabretil, o mago a segurou pelo ombro e virando-a, disse:

“-Não fales desse modo. Me entristeço também! Tua mente não está na minha para conceber os dilemas que tenho vivido esses tempos, pois tenho pensado com frequência no que me disseste logo que aqui cheguei. E não aches que não tenho me inclinado a desejar que venhas comigo. Mas creio que minha jornada seja solitária de volta a minha terra. E tu… tu tens teu pai. A quem posso dizer que amo. O velho Damonih ainda é um dos homens de sangue bom da vastidão da Terra dos Carvalhos e a sua gentileza cativou a minha essência. Não creio que ele sobreviva sozinho pois essas terras perigosas, mesmo a despeito da beleza que elas ainda possuem. Cuidai dele, pois já é velho. Mesmo contra tua vontade… pois deve haver retribuição por tão bem ter cuidado de ti como única filha amada, já que é viúvo.”

“-Damonih é um bom pai. Mas nem sempre assim o foi. É dito que ele na juventude foi um grande homem… guerreiro valoroso… ou algo do tipo. Porém, quando minha mãe Selaim1 era ainda viva, sofreu por seus malfazejos. Era afeiçoado a bebida e a vida dissoluta, e nossa família sofreu com isso. Se não fosse seu amigo – o Guardador das Maçãs2 – teríamos sucumbido ao seu vício, pois certa vez tivemos que em Thelim habitar em fuga de sua fúria ébria. Minha mãezinha, para sobreviver… fazia belos tecidos para tendas, como os de seu povo. E eu… eu passei uma parte da minha infância longe de Damonih. Algumas coisas aconteceram na vida de meu pai para ele subitamente mudar de atitude… e reatar com minha mãe. Mas lembro-me de diversas vezes encontra-la chorando…em silêncio… para que não a ouvisse, próximo aos poços de Mithmard onde buscávamos água. De qualquer modo, apesar de amar meu pai, rusgas de mágoa habitam em minha essência quanto a isso. Talvez minha mente as use como justificativa para deixa-lo e seguir minha vida, mas agora também meu coração tem desejado tua companhia para assim fazê-lo. Pondera sobre isso, mago… pois é tua a responsabilidade sobre esse respeito, já que o cativaste.” Revelou Sabretil, fitando os olhos de Zitri ao se virar.

Zitri emudeceu. As revelações da jovem o fizeram engolir em seco, pois não estava ainda preparado para conhecer seus mais profundos pensamentos apesar de ansiá-los. Ainda que estivesse ligado profundamente a Sabretil, cria não ser adequado que ela o soubesse, afinal não poderia permitir que ela abandonasse Damonih. Além do mais, ele como mago monástico não poderia assumi-la como consorte, pois tal decisão implicaria em deserção como servo de Orath. Sua vida amorosa estava nas mãos do Uno e do Oráculo do Maioral na escolha de uma das servas de Orath. O conflito entre a mente e o coração de Zitri era naquele momento visível, e após algum tempo de silêncio respirando fundo, largou a madeira à grama e abraçando Sabretil disse:

“-Ah, minha querida e pequena mulher! Se eu fosse poeta como meu saudoso amigo Melikae, te faria um lamento para externar minha angústia. Pouco entendes o que sinto por ti… mas é porque não sabes do meu esforço para não permitir que tal sentimento se estabeleça acima das copas dos carvalhos e das gigantescas sequoias que ainda restam nas terras do leste, como contam por aí! Teu pai, que já foi um grande homem de lutas agora precisa de cuidados e ele só tem a ti… quanto a mim, meus votos não me permitiriam uma vida plena para contigo! Compreenda que como já disse…devemos procurar agir de acordo com o que é correto, mesmo a despeito de nossas vontades e do desfecho que não nos agrada.

Sabretil então retribuiu o gesto do mago e tomando-o pela cintura o envolveu em seus braços. Por alguns minutos os dois jovens ficaram de olhos fechados em silêncio, com seus corpos próximos. O mago recostou seu rosto sobre os cabelos ruivos e macios da moça, acariciando-os. Pensava admirado, em como afeiçoara-se tão rápido a ela. Seria o distanciamento de sua mente e coração do Uno e seus Filhos? Afinal, tinha sido um tanto displicente nos últimos meses quanto às suas preces diárias e momentos de meditação, bem como o jejum regular. Por toda a sua vida não se envolvera com mulheres, pois fora um devoto dos assuntos de planos superiores e da guerra. Mas agora, seus sentidos estavam sendo dominados por um tipo de amor que lhe é proibido. E consciente disso, o mago monástico dos Tremares sabia que entregar-se a tal sentimento representaria mais cedo ou mais tarde sua queda. Pressionando involuntariamente o dorso de Sabretil contra o peito, Zitri finalmente quebrou o silêncio em meio a suspiros dizendo:

“-O que desejo para nós não pode ser realizado, doce Sabretil. E contra o que tenho sentido, lhe digo que devo partir o mais breve possível. Hoje conversarei com Damonih a esse respeito. Não te entristeças… pois assim chorarei por ti em meu retorno a Ziporih. Meu coração tem sido amordaçado pela minha mente quanto a esse negócio. Mas se queres saber o que me conforta…veja… quando cumprirmos o Ciclo… estarei livre de tal fardo… e nos encontraremos nos Outro Mundo Inferior para assim vivermos o que não se pôde aqui, no lar dos homens. Não… não chore… toma minha mão… e vamos. Teu pai nos espera e já é hora próxima de comermos.

Sabretil então chorosa segurou na mão do mago. Os dois não tiveram coragem de se olhar, enquanto andavam cabisbaixos, de volta para a choupana naquela manhã.

***

O silêncio então foi interrompido pelo granir de Crafaeins que arrastavam uma carroça de madeira. Após cerca de meia hora de caminhada -e já bem próximos de seu lar – os jovens avistaram uma caravana na pequena estrada que passa ao largo da propriedade. “-Veja, vem em nossa direção. Mantenha-se atrás de mim.” Disse Zitri. Os dois corpulentos animais abençoados com suas penas coloridas se agitavam freneticamente emitindo sons estridentes enquanto um homem os chicoteava para que continuassem a marcha. Uma comitiva com seis cavalos e doze homens de pele morena seguia atrás. Sua aparência era do leste, pois estavam ornados com colares de dentes e seus olhos estreitos eram delineados com tinta vermelho vivo. “-Veja, são selvagens das terras orientais. As cabeças rapadas e a pele coberta de tinta branca são inconfundíveis. “-Vamos continuar nosso caminho…” Disse Sabretil, enquanto caminhava na direção deles.

Ao se aproximarem da caravana os Crafaeins em muito tornaram-se ariscos com a presença dos jovens, irritando assim os cavalos dos outros homens. O alvoroço das criaturas assustou um deles, que subitamente se pôs de pé, derrubando os dois homens que estavam nele montados. Zitri então rapidamente correu para acudi-los enquanto o cavalo saiu em fuga.

“-Estais bem? Toma a minha mão…” Disse o mago, enquanto levantava um dos homens. Sabretil auxiliou o outro. Os viajantes restantes interromperam seu caminho e dois desmontaram para ajudar também os homens caídos.

“-Bem, parece que o cavalo era brabo… ou os Crafaeins assustaram-no em demasia… pois ele fugiu.” Falou Zitri aos homens, que desconfiados se afastaram dele. Sem aparentemente compreender a língua do jovem mago, os homens assoviaram duas vezes chamando o cavalo de volta. “-Não entendem o que dizes. São das terras orientais…” concluiu Sabretil. Então, um deles falou:

“-Obrigado por ajudar meus irmãos, homem do oeste. Esses animais ainda não são domesticados o suficiente para levar-nos até o vilarejo mais próximo sem causar problemas, pois foram capturados há apenas alguns dias. Mas a força que possuem nos é de grande valia para levar nossas provisões, pois precisamos de alimento e segurança para enfrentar os perigos dessas terras até lugar seguro. E vocês, de onde vêm e para onde vão?”

O homem alto de olhos severos e grandes braços – apesar da aparência oriental – falava fluentemente a língua geral do oeste3. Movimentando a cabeça em agradecimento, tornou ao cavalo, enquanto os outros dois homens subiram a carroça parada, em meio aos grunhidos e movimentar nervosos dos animais abençoados. A impetuosa Sabretil, ao ver dois homens feridos, amordaçados e nus presos dentro de uma jaula atada à carroça, logo perguntou:

“- Por que eles estão presos? O que fizeram para estar assim?”

Ao perceber que o homem ficara desconfortável com tal questionamento, Zitri pigarreou e mudando o tom de voz disse:

“-Perdoai minha irmã pela pergunta inconveniente. Estávamos a caçar e procurar madeira para não padecermos do frio que faz a noite quando os avistamos, e não era nossa intenção atrapalhar a jornada de vocês pois sabemos que os lugares habitados mais próximos estão há dias de caminhada. Vivemos aqui no Makalabeth, e somos gente simples que não busca problemas com os transeuntes que passam por essas terras. Saibais, que tendes a benção do Uno para seguir por onde quer que forem. Tome! Leve a madeira que apanhamos para fazer fogo, pois ainda temos alguma guardada… e não seria problema ter que buscar mais se isso os ajudasse em sua viagem.”

“- Não se preocupe quanto a jovem. É compreensível que aja desse modo tendo em vista o estado de nossos prisioneiros. Esses homens nos assaltaram enquanto estávamos atravessando a planície das sequoias colossais4… pouco antes de subirmos o vale que leva a Floresta Escura5. O povo que lá habita é hostil e não afeito a estranhos, e sim…eles atentaram contra nossas vidas. Mas seus amigos tiveram o castigo que mereciam e os que sobreviveram agora serão vendidos como escravos pois afinal alguma coisa devem valer por sua ousadia. Seus Crafaeins agora são nossos. No fim, lucramos em cima de seu malfazejo. E agora também temos mantimentos para seguir nosso caminho. Respondeu o oriental, sorrindo em tom irônico.

Enquanto Zitri falava ao homem, Sabretil notou que no interior da jaula havia pedaços de carne salgada cobertas por alguns sacos. Aproximou-se então rapidamente da carroça com os olhos fixos naquilo. Os prisioneiros, assustados com a súbita aproximação da jovem se alvoroçaram balançando a jaula.

“- Carne de Javali. Da melhor qualidade. Se quiserem, levem um pedaço em troca da madeira.” Disse o homem do oeste. Desconfiado, Zitri agradeceu recusando a oferta. “- Aceitem a madeira como um presente de hospitalidade por cruzarem nossas terras em paz. Em nossa despensa temos o suficiente para o resto do outono, e o coelho que apanhamos deve cair bem por hoje. Que o Uno os proteja até o seu destino.” Despediu-se o mago monástico, fazendo um sinal de benção.

“-Aceitamos a benção do seu deus. E a madeira.” Disse por fim o homem oriental. E seguiram o caminho para o oeste.

***

fireplace_by_tai_atari-d4mcqgb-1Arte: Tai-atari

“-Vocês demoraram. Percebo que tiveram dificuldades para encontrar madeira, pois não trouxeram nenhuma sequer! Disse Damonih, impaciente às portas de sua propriedade. “

-Encontramos alguns viajantes do leste que passavam na estrada… eram em número maior que nós…e para evitar problemas, acabei por oferecer a madeira apanhada. Mas trouxemos carne de coelho…veja… dará um bom assado. E os ossos um saboroso ensopado!” Respondeu sorrindo Zitri, explicando sobre o atraso para tentar diminuir assim a irritação do velho homem.

“-Eles não me pareciam ser pessoas de sangue bom. E levavam consigo dois prisioneiros… amordaçados e nus! Coitados! Alegaram que eles os haviam atacado para além da Floresta Escura. E levavam pedaços de carne… disseram que os venderiam como escravos.” Complementou, Sabretil indignada.

“-Os orientais são perigosos e bárbaros. Não é bom manter conversa com eles, e vez ou outra estão pela estrada que leva ao Malgaroth. Ultimamente tenho visto eles cruzando essas terras com frequência. Fico aliviado de nada ter acontecido a vocês, pois costumam ser também mercadores de escravos. E possuem costumes estranhos e abomináveis aos olhos do Uno. Pois diz-se que se alimentam da carne de homens. Povos desprezíveis que prestam culto a Deuses degenerados e praticam malfazejo contra os filhos do Uno são os que habitam próximos do Grande Mar. Dou graças ao Uno e aos seus Filhos por retornarem a salvo para casa! Mas venham, vamos comer… já estão no fogo as cenouras cozinhando na cerveja! Vou preparar o coelho enquanto Sabretil arruma o resto das coisas para o almoço.” Disse Damonih, abraçando os dois enquanto entrava em casa.

Já dentro da pequena choupana, Damonih, Sabretil e Zitri conversavam animosamente enquanto preparavam a comida. As cenouras cortadas já assadas na manteiga e cominho, estavam à mesa como petiscos juntamente com a cerveja amanteigada temperada com mel. “-Prove essa, meu amigo. Está pronta há duas semanas… e vamos experimentá-la hoje com essas cenouras! Falou com um largo sorriso Damonih, enchendo uma caneca até transbordá-la. “-Sabretil! Olhai o coelho no braseiro e jogue sobre ele um punhado de banha derretida com a pimenta que está amassada ao lado da panela! Cuidai da carne, enquanto eu e meu amigo de Ziporih apreciamos a cerveja e os petiscos! “Disse Damonih observando o olhar carrancudo da filha se dirigindo mal-humorada para a lareira.

“-Então, meu amigo… estais aqui há um certo tempo, e o cotidiano nos aproximou. Hoje tenho a você, Zitri como um filho. A solidão do Makalabeth nos abre as portas do coração para os de sangue bom e isso o fiz a vós. Vejo também como tratas minha filha Sabretil, e isso em mui me agrada, pois já sou velho e vocês se dão bem. Formamos uma boa família! Disse Damonih, enquanto entornava uma caneca de cerveja.

“-E eu tenho a vós como pai. Tua hospitalidade e cuidado para comigo cativaram minha essência e ainda hoje disse a Sabretil enquanto buscava por madeira que sinceramente o amava. Pois nada fiz para merecer tamanha hospitalidade e confiança. Estava eu moribundo quando tu e tua filha me acudiram! Eu… um estranho! Certamente todos esses dias que passei aqui, na casa de Damonih e Sabretil, levarei comigo quando partir do Makalabeth.” Retrucou Zitri.

“-Tuas palavras me comovem, meu jovem amigo. Mas não me entenda mal… o que fiz por ti faria por todo aquele que necessitasse, pois assim fui ensinado. E tenho procurado também ensinar minha filha do mesmo modo. Sei que ela tem o ímpeto da juventude misturado ao da minha saudosa esposa. Por isso peço por mim que tu a perdoe! Na verdade, muito do caráter revolto de Sabretil tem a ver com certas birras de infância. Mas, ela é uma boa mulher… sabe das tarefas de uma casa, além manusear bem pequenas lâminas e caçar! Pois sempre me preocupei que pudesse se defender em minha ausência… já que é minha única filha e foi concebida quando era eu homem feito. Hum… essa cerveja está bem temperada! Posso sentir no final de cada gole o sabor do mel e da noz moscada! Ficou na medida certa! Não concorda, meu irmão?! Disse o velho enquanto sorvia o último gole da caneca.

“-Entendo que és nobre de essência, meu amigo. Certamente existem poucos como tu em Acheron. Louvo o Uno em te bendizer, Damonih do Makalabeth! Se meu irmão Melikae estivesse conosco estaria sobremaneira alegre e certamente faria lindas melodias no dedilhar de sua delicada castina. E declamaria com sua bela voz um poema improvisado a esse respeito! Ah, como sinto saudade do meu amigo bardo contador! E o que dizer de minhas irmãs Ranemann e Atelith?! Como a bebida me traz para tão perto de suas essências que agora estão nos domínios de Fyr! Como Melikae nunca houve irmão do templo em toda Ziporih! E como Damonih não há nas terras dos Tremares! E nunca existiram guerreiras como Atelith e Ranemann… as que se completam! E não há beleza tão singular como a de Sabretil… a zabaratanista! Viste, velho homem, como o mago aqui é péssimo em poesia!? Todos os pergaminhos por mim lidos e estudados em minúcias a respeito dos poetas da Terra dos Carvalhos não me ajudaram nisso. Mil vezes prefiro a erudição da essência que advém do conhecimento dos mistérios do Uno e de seus Filhos! Essa cerveja está ótima!” Respondeu, Zitri rindo alto… esvaziando a terceira caneca transbordante da bebida adocicada.

“-Acalma-te com a cerveja, meu amigo. Pelo que já te conheço, percebo que és afoito com isso. Mas te digo que a alegria da bebida depois amordaça com grilhões o que escravo dela se torna. Posso te dizer a esse respeito pois já fui escravo dela. Hoje ainda bebo, mas para aperfeiçoar a minha soberana vontade de liberto desse tipo de escravidão. Quando era jovem como tu, tinha o mundo sob meus pés e todos me adoravam… e isso me levou à arrogância de crer que eu poderia me fazer herói por mim mesmo! Mas o Uno tinha outros planos para este aspirante a herói lendário, e a minha queda levou-me a refletir sobre os malfazejos que pratiquei por conta do orgulho e arrogância. E perdi muito nos anos que passei lutando contra tal compreensão. E a respeito de minhas escolhas más que fiz na juventude… as que mais me magoam até hoje foram as que me levaram a separar me de Sabretil e minha amada Selaim. Esteja certo, clérigo de Ziporih… os que ficam para trás, sofrem. Tu falas em partir, e saibas que sofrerei. Mas eu já sou velho e apesar de gozar boa saúde… não muito mais terei a aproveitar em meus poucos anos de vida restantes. Mas Sabretil está afeiçoada a ti. Vejo como ela te admira e te tem em alta conta. Atenta para isso, Zitri dos Tremares. Reflita com serenidade!” Falou Damonih, olhando nos olhos de Zitri, enquanto levantava-se perguntando a Sabretil se o assado já estava pronto.

Naquele momento Zitri respirou profundamente pensando nas palavras do velho Damonih. Fora surpreendido pela sua perspicácia em perceber os sentimentos de sua filha para com ele. Sentiu-se curiosamente desconfortável com tal conversa, pois nunca passara por situação semelhante. O discurso de Damonih não havia sido desfavorável à sua permanência em casa nem tão pouco em relação a Sabretil. Entretanto apesar da grande bondade do velho homem e da afeição que sentia por sua filha, Zitri sabia que não poderia ficar. Isso representaria seu não retorno ao templo de Orath e aos seus. Sua vida erudita e serena deveria ser deixada de lado se quisesse estar ao lado de Sabretil. Enquanto perdido estava em tais pensamentos, um estrondo se fez às portas da choupana.

“-O que foi isso?” Falou em voz alta a menina ruiva assustada, derrubando o assado que acabara de tirar do braseiro. Os gritos estridentes que vinham do lado de fora acompanhavam o barulho e o impacto na porta, que se partiu. O grande Crafaein então adentrou o pequeno cômodo virando a mesa e lançando Damonih e Zitri ao chão. Aturdidos, os dois permaneceram caídos quando Sabretil correu para junto deles. “-Veja, o maldito homem do leste que encontramos na estrada! Eu sabia que devíamos tê-los matado! “ Meu pai, levanta-te! Zitri! Voltaram para nos fazer mal!” O agressivo Crafaein então passou a alvejar os três com seu grande bico acertando o ombro de Damonih e lançando o mago para o alto. Montado em cima da criatura, o guerreiro de pele morena gritava palavras em sua língua enfurecendo ainda mais o grande animal, que com sua cabeça batia no teto da choupana. Repentinamente, fogo passou a consumir o telhado feito de palha do lugar.

–“ A casa! Atearam fogo!” Falou Zitri, assustado enquanto se levantava e observava Sabretil ajudar Damonih a ficar de pé. “-Temos que sair daqui! No celeiro existem armas!” Disse o velho homem, ferido no ombro.

Em meio aos grunhidos estridentes e coices do Crafaein revolto, pularam Damonih, Sabretil e Zitri através da janela dos fundos que dava para o celeiro também em chamas. Em minutos a pequena choupana foi derribada pela violência do grande animal, que sob as ordens do bárbaro empurrava as paredes de madeira com sua cabeça maciça. Com rapidez os três adentraram no celeiro e tomaram machados e foices.

“-O maldito não deve estar sozinho. Temos que sair rápido daqui. Se preparem para lutar. Fiquemos todos às nossas vistas!” Disse Damonih ofegante à porta do celeiro, segurando o machado.

Sabretil e Zitri foram então à frente já fora do celeiro. O mago empunhava em suas mãos uma grande foice. Em alerta, ele e a menina cobriam suas retaguardas caminhando rapidamente ao derredor da casa demolida em meio a fumaça do fogo que ainda não havia se extinguido e o Crafaein que aos gritos os procurava. Damonih ferido, seguia-os atrás com o machado levantado. A pedra guia de Zitri então subitamente brilhou em vermelho, dissipando a fumaça espessa ao redor dos três quando num instante uma flecha acertou o braço da jovem.

“-Sabretil! Malditos ingratos! Retribuem bondade com malfazejo! Hoje purgarão seus crimes pelas minhas mãos! Mostrem-se, bárbaros!” Gritou Zitri, enquanto retirava a flecha da carne da moça em meio aos seus gritos de dor. “ -Temos que ir para campo aberto, pois aqui não teremos chance contra eles!” Falou Damonih. Correram os três para a frente da propriedade quando então viram os outros três bárbaros próximos ao Crafaein que se agitava assustado por conta do fogo que consumia os escombros da choupana. Então Sabretil, com um tiro certeiro acertou um deles com a sua funda, derrubando-o. Agressivamente a corajosa moça se lançou sobre ele com uma pequena faca desferindo vários golpes contra seu peito ferindo o bárbaro gravemente.

“-Maldito! Não verás hoje a luz do Sol se pôr pois te enviarei agora para Fyr onde sofrerás tormentos por teu malfazejo contra minha casa! “Gritava em fúria a jovem enquanto estocava a lâmina no tórax do homem. O sangue jorrava abundante se misturando ao suor do corpo de Sabretil quando o Crafaein desferindo um violento golpe com sua grande garra a lançou sobre o chão.

Zitri então correu com sua foice ao encontro da jovem, que desmaiada não se movimentava. “-Sabretil! Sabretil!” Gritou o mago tentando reanima-la. O outro bárbaro bradou então sua espada curva e desferiu um golpe contra as costas de Zitri, que caiu na grama. Rapidamente o mago em um lance de reflexo se desviou do segundo golpe e deitado chutou  as pernas do selvagem, desequilibrando-o. O jovem levantou-se e apanhando a grande foice que estava no chão cravou-a no seu ventre. “-Encontre Fyr e receba dele sua prenda.” Disse o mago, em meio aos gritos agonizantes do inimigo moribundo.

“-Damonih! Damonih! Onde estais?!” Gritou então Zitri, buscando o amigo. Ao longe viu o velho guerreiro em luta feroz contra o outro bárbaro. Ferido, se defendia com seu machado dos golpes ágeis do selvagem com suas pequenas lâminas duplas. O mago então saiu em disparada para auxiliar o amigo em apuros quando o grande Crafaein o tomou pela boca agitando-o no ar. Enquanto Zitri se debatia tentando livrar-se do animal, Sabretil despertou e ao se deparar com a cena terrível levantou-se avistando a grande foice que estava fincada no ventre do cadáver ao seu lado. A jovem ensanguentada então correu com a lâmina em riste estocando-a nas cochas do grande animal, que gritando estridentemente libertou Zitri. Tornou assim o Crafaein ferido para Sabretil, que agilmente flanqueou o animal ferindo furtivamente em seu lado. E com um golpe firme feriu a criatura em seu peito, penetrando-o profundamente com sua longa foice O Crafaein agonizante, então tombou frente a agilidade de Sabretil, lançando o bárbaro que estava montado sobre si.

Zitri já de pé, procurou Damonih que ainda lutava contra o inimigo a certa distância. Já cansado, o velho ainda conseguiu arrancar com apenas um golpe de seu machado a mão de seu adversário, que revidou ferindo-o no ombro e na perna. Damonih então ajoelhado sucumbiu ao homem do leste com um último golpe no peito. Sabretil estripava ensandecida o bárbaro que tombara e desmaiado estava junto ao Crafaein quando viu seu pai cair sangrando de joelhos no chão. A jovem então correu até Zitri aos gritos:

“-Zitri! Pelo Uno! Meu pai foi ferido! Zitri! Zitri!”

Então foram os dois até o velho que jazia moribundo nos domínios de sua pequena fazenda em ruínas. O fogo havia consumido a choupana e o celeiro e a fumaça produzia forte tosse nos dois sobreviventes.  Aproximando-se do agonizante Damonih, disse chorando desesperadamente Sabretil:

“-Meu pai! O que te fizeram… não merecias tamanho malfazejo. Não te esforces para não piorares. Vamos te levar daqui e tu ficarás bem. Não é Zitri?”

O mago de pé observava chorando a moça ajoelhada com o pai em seus braços. Damonih num último esforço falou com dificuldade a Sabretil: “- Não te aflijas… por mim, filha. Pois meu corpo…ele está alquebrado…e dila…cerado. Mas, não poderia…cumprir o Ciclo da melhor…melhor forma possível. Pois sei que já estarei logo mais…com tua mãe…a me …me lavar… às margens…do Acherontis. Me perdoe…”

Damonih então expirou. Sabretil em desespero deitou o rosto sobre o corpo do pai e chorando copiosamente segurou a espada que estava em seu peito. E a retirou. O sangue de Damonih então cobriu a grama ao seu redor. Não disse nada a Zitri, que em silêncio se pôs de joelhos abraçando firme a jovem destemida. A pedra guia do mago não parara de brilhar em vermelho desde que o Crafaein invadira a casa de Sabretil, e agora brilhava fortemente em matizes amarelos e azuis.

Naquele breve momento onde nada podia ser dito, Zitri pensou inesperadamente em Melikae, Atelith e Ranemann. Todos haviam perecido à demanda. E agora seu amigo Damonih. Parecia que o Uno nos últimos meses se divertia em tomar dele todos aqueles a quem amava. Seria essa a recompensa por toda sua vida devota? Não compreendia os ditames do Uno para a sua vida, apesar da vida reta que buscara ao longo dos anos. Sentimentos de descrença e perdição dominavam sua essência fadigada. E raiva. Pensava que se estivesse com suas pedras elementais talvez o desfecho do violento ataque que sofreram tivesse sido outro. Seus pensamentos então foram interrompidos pela voz embargada de Sabretil que chorando disse:

“-E agora, meu amor. O que será de nós?”

“-Preciso de minhas pedras elementais. E depois, de vingança. Vamos caçar bárbaros. Eles não devem estar longe.”

Continua…


1-Dizem os Antigos que a consorte do herói caído Damonih possuía em sua essência o Amor da esposa do quase meio de Orath, por ter suplicado a Illil que o preservasse de suas fraquezas, sacrificando secretamente seu próprio sangue na Pira dos Pedidos onde os apaixonados costumavam se encontrar nos Jardins de Zetricon durante os Festivais.

2- Ou Morjal. Consorte da oracular Claekuth. Maioral do povo de Thelim.

3-Ou o acheroniano médio. A língua que os homens do ocidente falavam até o fim da Era do Declínio.

4-A esse respeito dizem os Antigos que as sequoias colossais subsistiram à chegada da Água Súbita e sua longevidade ainda era preservada como resquício da Era da Prosperidade. Alguns falavam que havia na essência das sequoias o segredo da imortalidade, como o Uno planejara no princípio para os habitantes da Terra dos Carvalhos.

5-Outrora o Bosque Abençoado de Bel. Lugar onde a essência de Draemoniach usurpou do Uno como habitação para estabelecer seu ódio e inveja sobre Acheron. A fortaleza negra do Caos em movimento fora construída a partir dos carvalhos abençoados que lá existiam.

Sobre o Autor

perdeu as contas de quantos mantras realizou para zerar aos onze anos Faxanadu. Suas habilidades crescentes já na infância o levaram a fazer uso da Master Sword todas as vezes em que houve necessidade (desde a Criação até a Era o Caos e da Prosperidade). Atualmente anda às voltas com os reinos de Boletaria, Lordan e Drangleic porém nunca esquecendo que deve estar de pé às seis para levar luz àqueles que necessitam. Gosta de caqui, sustos, games, comida-que-mata, poesia, pringles, fantasia-fantástica, pôr-do-sol... e Pepsi! Não necessariamente nessa ordem.