Um conto sobre dinamites e o teatro do absurdo

Publicado em 11 de fevereiro de 2016 | Por Fernanda Brandão | Acônito Lapelo, Contos

Não gosto mesmo de Carnaval. Mas isso nada tem a ver com o samba, as pessoas ou toda aquela alegria durante os efêmeros 5 dias de fevereiro. Isso é um segredo tão meu que prefiro falar para os outros que vou ficar com os meus filmes e livros. Em casa.

Não sou acostumada ao Carnaval. Tenho metade da idade da minha vida – vou morrer aos 56 – e eu não saberia bem como agir nesse tipo específico de situação. O real é que pouco sei como agir em vários momentos em que preciso interagir com outras pessoas, por isso os remédios e antidepressivos.

Não, eu não vou ao Carnaval! – Foi a primeira coisa que eu disse quando o meu pai sugeriu que eu tentasse. “Você não precisa ser você, use uma fantasia”. E aquilo me pareceu tão óbvio naquele momento que me senti um pouco aliviada.

Não… Não posso me vestir de Estragon no Carnaval. Pensei enquanto escolhia uma fantasia. Ninguém vai saber quem diabos eu sou. Samuel Beckett? Godot? Babylone? É exigir demais das pessoas.

Não, no Carnaval as pessoas não estão interessadas nisso. O absurdo deve ficar apenas na peça, conclui. Depois de pensar um pouco, escolhi minha personalidade. Peguei umas roupas emprestadas do meu irmão, meu pai me ajudou com a maquiagem. O cabelo verde me incomodou. Mas, no fim, até que eu não era um Coringa tão ruim.

Sim, eu aceitei o convite para o Carnaval. Em algumas horas chegaria numa festa. Convite do Daniel, o nerd que trabalha comigo no laboratório. Ele mencionou algo mais intimista, então conclui que seria razoável. Paguei pela entrada, procurei uma mesa, em vão, e comecei a me preocupar.

Sim, o Carnaval me assustava. Desde os meus 5 anos quando um Bate-Bola correu atrás de mim me traumatizando para todo o sempre. Mas ali não tinha Bate-Bolas. Alí, eu vi: um Han Solo, um David Bowie e um Hobbit com sapatos. Respirei lenta e profundamente, reação perfeita quando o meu corpo começa a hiperventilar.

Sim, começou a tocar a minha música favorita em pleno Carnaval. Numa jukebox, daquelas antigas com luzes neon. Aquilo me animou um pouco. Pedi uma Dinamite Pangaláctica pra beber de um garçom que estava vestido de Harry Potter e sentei em um dos bancos altos do bar. O meu drink veio com alguns confetes e purpurina dentro – meio incomum -, culpa da…

Sim, uma Arlequina (não a do filme do David Ayer, a original, vermelha e preta) se aproximou de mim e jogou toda a purpurina do universo na minha cabeça e disse “oi, pudinzinho”.

Sim, se eu não tivesse o rosto pintado de branco pela maquiagem, certamente estaria vermelho de vergonha. Ela sentou do meu lado, bebeu a minha Dinamite (com purpurina) de uma vez e sorriu. Não entendi porque gostei tanto daquilo, mas a ex-psiquiatra do Asilo Arkham me pareceu tão real que eu parei de fazer os meus tão famosos julgamentos mentais.

Sim, eu falei com ela na festa de Carnaval e o que eu disse foi tão despido de sensatez que eu mal posso acreditar que aconteceu de verdade. “Temos algo a fazer hoje, Harleen Frances Quinzel?”. Ela me olhou nos olhos e perguntou, como a mais normal das perguntas, “O que acontece quando uma força que não pode ser parada vai de encontro a uma força que não pode ser movida?”.

“Elas se rendem”, respondi e a resposta não era essa. Como Mestre em física, eu sei que essa situação é impossível. Mas não me pareceu ser a resposta adequada naquele momento.

Sim, as bebidas no Carnaval demoram um pouco mais para chegar. A minha veio 20 minutos depois das mãos do mesmo Harry Potter. Arlequina sorriu diferente antes de me puxar pela mão e me levar dali.

Sim, era o Carnaval mais louco de todos. E “louco” nunca foi tão bem empregado por mim em toda a minha vida. Assim que chegamos numa espécie de corredor com luzes negras, Arlequina deixou a marreta no chão, bebeu o resto da minha segunda dinamite e me beijou furiosamente. Só consegui pensar em uma coisa antes de correspondê-la “Minha maquiagem já está borrada de qualquer forma”.

Sim, eu citei minha HQ favorita numa festa de Carnaval. E tão de repente aquilo começou, terminou. Ela, Arlequina, me soltou, pegou novamente sua marreta e me deixou ali. “A loucura só precisa de um empurrão” eu disse e até hoje não sei porque fiz isso.

Sim, ela se virou e me olhou nos olhos a curta distância. “Oh, Pudinzinho! Parece que você não pode mais acelerar a sua ‘Harley’. Vroom Vroom!”. E gargalhou antes de me deixar sozinha naquele lugar.

Sobre o Autor

é especialista em Artes Visuais, Publicitária e Editora. Também é uma dos fundadores do Mapingua Nerd. Escreve menos do que gostaria e torce pelo Holyhead Harpies.

Comentários

  • Elvys da silva benayon

    Dinamite Pangalática! Batida, não mexida, please!!!

    • Fernanda Brandão

      Quero 2!