Revoadas do Uirapuru – Reflexos no Multiverso – Parte 7: O Gnomo Plasmático

Publicado em 20 de julho de 2016 | Por Naka | Contos, Literatura, Manaus, Revoadas do Uirapuru

Atenção: Esta é uma obra de ficção. Todos os serumaninhos mencionados serviram apenas como inspiração para a obra e em nada aqui relatado condiz com a realidade.


Parte 7: O Gnomo Plasmático – O Cerco sobre Mandiant

Manaus, 10 de junho de 2017

Erlan estava a caminho de uma festa. Era a primeira de duas que ele tinha que ir naquela noite – nada mais que comum para alguém como ele que não conseguia ficar um instante sozinho.

Estava sempre cercado de amigos, familiares, colegas de trabalho, contatos profissionais… sua rotina respirava sozinha.

E, frequentemente, sentia-se arrastado por essa mesma rotina. Era cômodo ser apenas levado. Havia um conforto nisso que era, por muitas vezes, o paliativo necessário para evitar se estressar demais.

“Eu já tenho que fazer tanta coisa, todos os dias. Poder simplesmente me deixar levar chega a ser considerado uma dádiva”, era sempre seu pensamento mais presente quando considerava sua rotina.

A primeira festa para qual se dirigia ficava no bairro Parque Dez, no conjunto Vila do Rei, próximo ao Parque do Mindú. Ele já tinha estado ali. Costumava, por muitos anos de sua infância, passar o final de semana na casa de sua tia.

Percebeu que não tinha mais ido ao Parque Dez desde que sua tia havia falecido, há mais de dez anos. Nesse tempo havia evitado a ida a todo custo. Recusava ir para casa de amigos que moravam nas redondezas seja para o que fosse.

E assim notou com era engraçado como algumas escolhas antigas poderiam levá-lo a ser, fazer ou evitar tanta coisa por tanto tempo, a ponto de ser guiado sem notar. Seja a sua rotina ou evitar ir pra onde estava indo. Era como se sua vida se tornasse algo tão mecânico e programado que, por alguns instantes, não sabia mais nem quem era.

Pensou também em tudo que fez da sua vida nos últimos anos e percebeu que suas escolhas eram um conjunto de derivados de outros gostos próximos ou correlacionados, como se fosse um fantoche de si mesmo e de escolhas antigas.

Chegou ao endereço marcado no Google Maps e desligou o carro, mas ainda ficou algum tempo pensando em tudo isso. Por alguns instantes o silêncio tomava tudo ao seu redor. Estava tão desacostumado ao silêncio que inicialmente aquilo o incomodou.

Do outro lado da rua havia uma pequena floresta cercada de casas e prédios por todos os lados. A floresta devia ter uma área aproximada de seis quadras no máximo. Erlan a conhecia muito bem. Havia passado boa parte de sua infância nela. Muito tempo atrás.

Manaus, 07 de julho de 2005

Erlan tinha doze anos e vivia mais um dia de férias onde via desenhos pela manhã e passava a tarde toda na rua. Sua tia sempre estava lá, mas era sempre uma sombra. Uma voz. Estava sempre de costas, sempre ocupada, sempre trabalhando de frente para o computador.

Lá ele não tinha férias só das aulas, mas de tudo: dos pais, das responsabilidades. Sentia-se plenamente livre, como nunca mais se sentiria pelo resto da vida.

Como fazia de costume, no mesmo horário e todos os dias, Léo tocou a campainha logo após o almoço. Erlan abriu a porta.

– Cara! Eu achei um lugar muito legal! – Léo estava elétrico como sempre.

Léo era dois anos mais velho que Erlan. Tinha os cabelos cacheados, castanhos claros, e olhos cor de mel. Sempre se destacou entre os meninos de seu grupo e era sempre o que as garotas mais gostavam. O mais popular entre os colegas de escola e vizinhos.

– Tem certeza? Ontem você disse a mesma coisa e subimos na caixa d’água do Ipanema para espiar mulheres trocando de roupa com os binóculos do Felipe. – Erlan respondeu, chateado.

– Não é nada disso! Eu sei que você não gostou… Eu também não gostei.

– Então por que decidiu fazer aquilo?

– Pelos outros… Felipe, Daniel… Mas eles não estão aqui! Hoje vai ser só eu e você, ok?

– Uhm… E que lugar legal é esse?

– É surpresa! Vem!

Caminharam por algum tempo, atravessaram algumas ruas, até chegarem à entrada da floresta no meio do conjunto Vila do Rei. Léo começou a caminhar em direção a floresta. Erlan hesitou.

– Léo! Você tem certeza? Você mesmo disse que nunca poderíamos entrar nessa floresta porque ela era perigosa.

– Relaxa! Hoje é um dia especial… Venha!

Erlan o seguiu mesmo sem entender. Logo que chegaram nos limites da floresta, Léo parou.

– Temos que pedir licença! – Léo avisou Erlan. – Com licença! – Léo parecia pedir licença para o nada.

– Você tá doido, Léo? Que palhaçada é essa? Pedir licença pro quê?

– Apenas faça o que eu faço! Sério! Confia em mim!

Erlan pediu licença, ainda sem entender.

– Ótimo! Lembre-se de pedir licença sempre que entrar em qualquer floresta, ok?

– E pra quem estamos pedindo licença mesmo?

– Pras criaturas da floresta, claro!

– O quê?

– Sim, Erlan! E se você quiser ver o que eu quero mostrar é melhor começar a acreditar.

Erlan teve medo e hesitou.

Léo foi em sua direção e tocou seu rosto suavemente, sorrindo. Pegou a mão de Erlan. Ele começava a se sentir seguro. Seu corpo todo formigava. Seu coração acelerou.

E Erlan finalmente sorriu. Por um instante fechou os olhos pra sentir melhor toda aquela emoção que tomava seu corpo. Ao abrir os olhos novamente pode ver todas as criaturas mágicas que Léo se referia. Sabia que sempre poderia confiar nele.

Manaus, 10 de junho de 2017

Após alguns minutos olhando para o escuro da floresta e lembrando-se do passado. Erlan saiu finalmente.

Já seguia para tocar a campainha da casa quando ouviu um barulho. Um bater de asas vindo de uma árvore próxima a ele. Olhou atentamente e viu uma coruja.

Em todos os anos de sua vida jamais tinha visto uma coruja. Estava fascinado. Adorava corujas. Já tinha inclusive planejado fazer uma tatuagem de coruja assim que possível. E ela estava em um galho alto da árvore e olhava para ele incessantemente.

Ela era marrom e branca e tinha grandes olhos amarelos. Voou na direção de Erlan passando por cima dele e voltando em direção à floresta. Parecia que a coruja queria que Erlan o seguisse. Ele sentia que ela o chamava e a seguiu.

Quando chegou nos limites da floresta, parou. Pediu licença e entrou. Por um instante lembrou de Léo e imaginou se eles estariam juntos hoje caso ainda estivesse vivo.

Caminhou por bastante tempo na floresta escura até perceber que já deveria ter atravessado a floresta de tanto ter caminhado. A coruja ainda o guiava até parar na entrada de uma caverna.

Ele havia passado boa parte da infância e adolescência naquela floresta e nunca tinha visto aquela caverna. Parou na sua entrada. Pensou em desistir. Começou a ponderar a ideia maluca que teve em seguir uma coruja no meio do mato à noite. Decidiu voltar.

Ao dar os primeiros passos voltando, ouviu uma voz conhecida que há muitos anos não ouvia. Era a voz de Léo e ele cantava uma das canções que criara na cabeça dele.

Erlan congelou. Sentiu um arrepio tomar todo seu corpo, seguido de um formigamento que o tomava inteiro. Jamais imaginaria que o ouviria novamente. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Respirou fundo, voltou para a caverna e entrou sem hesitar dessa vez.

Após alguns minutos o escuro foi rasgado por uma luz intensa que crescia cada vez mais. Percebeu que havia chegado em outra floresta. Essa era mais densa. Havia luzes dentro das árvores, como pequenos lares de gnomos e outras criaturas mágicas.

Começava a achar que as lembranças que teve na infância eram reais e não frutos de sua imaginação. Contornou as árvores para não destruir nada acidentalmente, então andou mais um pouco até chegar a uma escadaria com um arco tomado pela vegetação e cipós do lugar.

Aos pés das escadarias havia um rio. Suas águas reluziam um prisma de infinitas cores. Era hipnotizante e o atraia cada vez mais. Ao olhar para o reflexo, Erlan sentiu que poderia se perder.

Era como ver um mundo de cima. Um grande deserto com cidades que quebravam o marrom claro daquelas areias que pareciam ser infinitas.

Do firmamento, um gnomo caía em queda livre. Ele tinha cabelos brancos, uma barba pontuda, orelhas grandes e óculos de piloto. Ele esticava a mão como se pudesse ver Erlan através do reflexo na água.

Erlan esticou a mão, atravessando-a pela água. O gnomo segurou forte sua mão e sorriu. Erlan sentiu-se puxado com uma força que não poderia controlar e, nesse instante, sentiu que ele e o gnomo eram a mesma pessoa.

Céus de Mandiant,Continente de Ferro do Oeste

O Gnomo continuava a cair e isso começava a preocupar Erlan. Ele ganhava cada vez mais velocidade e o chão parecia cada vez mais próximo. Não havia nada que ele pudesse fazer. Fechou os olhos temendo o pior.

Mas de repente sentiu que não estava mais caindo. Abriu os olhos e uma coruja de metal o havia segurado com suas garras.

Ele então a escalou até seu dorso. Agradeceu sua nova amiga que se dirigia em direção à cidade de Mandiant.

A coruja pousou próximo a entrada da cidade. Não arriscaria sobrevoar a cidade temendo ser tratada como inimiga. Preferiu parar nos seus limites. Havia um rio. Um único rio que cortava toda a cidade e seguia atravessando o deserto para o leste.

Erlan desceu da coruja e foi em direção ao portão principal da cidade que permanecia fechado. Presumiu estarem em estado de sítio. Mas antes que pudesse pensar em uma forma politicamente correta de entrar, ouviu um grande estrondo que vinha de suas costas.

Ao se virar, um grande zepelim vermelho havia soltado um gigante à vapor que fez o chão tremer com o impacto.

Em seguida, outros três estrondos menores cobriram os quatro cantos da cidade. Os gigantes eram idênticos. Erlan estranhava não ter notado os zepelins antes mas notou em uma das casas que um efeito de invisibilidade estava terminando de dissipar.

De cada gigante, quatro aranhas à vapor saíram de suas costas e começaram a se posicionar para o ataque. As aranhas tinham o tamanho de carros populares e duas delas estavam bem próximas a Erlan.

A estratégia do inimigo parecia ser simples: os zepelins cuidariam do ataque aéreo às torres e demais defesas, os gigantes cuidariam de abrir passagem derrubando os muros que protegiam a cidade, em seguida destruindo as casas e demais estruturas, e as aranhas cuidariam da população.

Antes que pudesse pensar no que fazer, uma das aranhas partiu em direção a Erlan e, quando esteva a poucos metros, a coruja a capturou, repelindo a investida. Entretanto, a outra aranha também estava próxima a Erlan e a coruja já estava ocupada demais lutando com a primeira aranha. Notando a fragilidade de Erlan, a segunda aranha não hesitou em investir em sua direção.

Sobre o Autor

Contador, Cozinheiro, Vocalista, Ator, Roteirista, Diretor de Esquetes de Humor, Escritor, Colunista e mais outras coisas que não consigo lembrar.

Comentários