Revoadas do Uirapuru – Reflexos no Multiverso – Parte 5: O Escolhido de Yavanna

Publicado em 5 de julho de 2016 | Por Naka | Contos, Literatura, Manaus, Revoadas do Uirapuru

Atenção: Esta é uma obra de ficção. Todos os serumaninhos mencionados serviram apenas como inspiração para a obra e em nada aqui relatado condiz com a realidade.


Parte 5: O Escolhido de Yavanna – O Sacrifício

Manaus, 10 de junho de 2017

Thiago estava saindo de uma daquelas reuniões praticamente improdutivas quando foi chamado por Diego enquanto voltava para sua mesa. Diego era um daqueles colegas que despendia horas do seu dia vasculhando idiotices da internet.

Quase sempre eram vídeos pífios, sem a menor graça, mas que, para Diego eram as melhores coisas da internet e ele fazia questão que todos vissem. Thiago ia ver os vídeos simplesmente para não criar inimizade. Ele era o tipo de pessoa que fazia de tudo pra manter a boa convivência com todo mundo, especialmente no local de trabalho, afinal, eram pessoas que ele veria todos os dias.

E manter a boa convivência exigia sacrifícios. Como esse, de se prostrar a ver um vídeo idiota mesmo que jamais disfarçasse a expressão de desapontamento sempre que via algo do tipo.

Mas dessa vez havia um fator diferente. Envolvia animais: em uma cidade no interior de Minas Gerais, alguns moradores decidiram caçar os cachorros que viviam nas ruas, matando-os com tiros de espingarda e filmando tudo, inclusive um aterro com mais de cinquenta cães mortos empilhados. E, de alguma forma doentia, isso parecia divertir Diego e mais dois colegas que assistiam ao vídeo.

Thiago não conseguiu terminar de ver. Na verdade, ao entender do que se tratava, fez questão de virar o rosto. Sentia vontade de vomitar. Sentia uma fúria incontrolável. Queria poder ir até aquela maldita cidade e ir atrás de cada um desses caçadores e dar a eles um destino igual ao daqueles cachorros.

Sua concentração foi quebrada quando Diego comentou:

– Tá vendo? Tá mais do que certo! Essas pragas só sabem revirar lixo e sujar a cidade! Tem mais que morrer mesmo!

Thiago pensou em tudo que poderia dizer. Em tudo que poderia fazer. Pensou em mostrar o quão estúpido e babaca Diego era por pensar daquela forma. Pensou em tanta coisa que poderia dizer…

Mas também pensou na inefetividade de suas palavras para uma mente tão pequena e intransigente em suas certezas distorcidas quanto as de Diego. E pensou em como a maioria das pessoas era limitada e detinha um potencial destrutivo terrível em defesa de pensamentos tão egoístas. E ele sentiu a frustração devastadora pela sua impotência diante de toda essa gente.

Ele se aproximou de Diego com seus mais de um metro e noventa centímetros de altura, já fazendo sombra diante do rosto de seu alvo. Seu semblante mostrava uma raiva ancestral pela primeira vez, desde que começou a trabalhar naquela agência.

Thiago ficou do lado direito de Diego, desceu sua mão com os punhos cerrados se apoiando na mesa e inclinando o rosto para perto do colega. Fitava-o incisivamente, dizendo de forma calma e, ao mesmo tempo, intensa:

– Eu poderia perder alguns minutos preciosos do meu dia, além dos que eu perco diariamente vendo seus vídeos, te explicando o quão errado é fazer isso com animais. Mas vou me poupar disso.

Nesse momento todos ao redor pararam o que estavam fazendo e voltaram suas atenções para aquela cena inédita. Thiago continuou:

– Apenas não me deixe saber que você está vendo esse tipo de vídeo, ok? Na próxima vez posso não ficar tão calmo como estou agora.

Diego estava paralisado e apenas concordava, olhando para Thiago, que parecia um gigante furioso do seu ponto de vista. Para os olhos alheios parecia uma reação exagerada diante de algo indiferente para a maioria das “pessoas de bem”, mas a frustração que Thiago sentia era algo antigo. Algo com o qual teve que lidar a vida toda.

Thiago voltou à sua mesa lentamente, procurando respirar e abstrair tudo aquilo, diante do silêncio sepulcral que reinaria por mais uma hora.

Já passava das vinte da noite quando Thiago conseguiu terminar as atividades do dia e ir embora. Ninguém falou nada sobre o ocorrido e muitos o apoiavam, embora fossem muito covardes para tomar um partido e defender o que era certo. Preguiça, comodismo… Havia vários motivos que levavam as pessoas a agirem assim, e Thiago odiava todos eles.

Já estava próximo de casa quando ouviu o barulho de Ka, seu melhor amigo, latindo feliz e cheio de saudade. Ele havia conseguido pular o muro da casa e corria pela rua em sua direção. Ka não estava acostumado a correr pela rua e não percebeu o ônibus que vinha em alta velocidade em sua direção.

Thiago viu que o ônibus ia atropelar seu cachorro e correu desesperadamente em direção de Ka. Ele sabia que não ia dar tempo. O ônibus estava muito próximo. A avenida era muito longa e a essa hora estava quase deserta, o que fazia o ônibus acelerar cada vez mais.

Era evidente que ele não chegaria a tempo. Algumas lágrimas caíam de seus olhos enquanto ele corria o mais rápido que podia. Thiago saiu da calçada. Agora corria pela rua em direção do ônibus e de Ka.

Seu corpo começava a ceder ao esforço. Deu um grito de dor sentindo forte dor nos músculos que queimavam e ardiam, mas ele corria cada vez mais. Não importava nada além de Ka.

Ele estava bem próximo de seu amigo e pôde enxergar a expressão de felicidade de Ka ao lhe ver, mesmo sendo parcialmente ofuscado pela luz forte dos faróis do ônibus.

Não daria tempo de salvar nenhum dos dois. Ele já sabia desse sacrifício desde o momento em que viu Ka. Thiago não hesitou nem por um instante.

Quando ele finalmente abraçou seu amigo restava apenas um segundo antes que o ônibus atropelasse os dois. A luz por fim tomou toda sua visão.

Quando a luz finalmente diminuiu, Thiago viu uma mulher. Jovem, de aparentes vinte e poucos anos. Seus olhos não possuíam íris. Ela usava um longo vestido com várias tonalidades de verde.

Possuía uma coroa dourada e repleta de penas. Ela sorriu para Thiago e Ka, entoando as seguintes palavras:

Filho de Ilúvatar

Tua morada finalmente o clama

Para Hildórien de monde viestes

Do seio de Arda, desperte

Que a graça de Manwë guie seus passos

E os ventos de Gwaihir te levem!

Floresta de Fangorn, Terra-Média – Terceira Era

Thiago olhava para a copa das árvores que fechavam quase completamente o céu, permitindo apenas alguns raios solares e deixando a floresta com pouca luz. Uma voz cortou o silêncio:

– Ah! Até que enfim acordou!

Thiago olhou para a direção de onde vinha a voz e viu um senhor com longa barba marrom e vestes da mesma cor, que estava distraído conversando com uma andorinha. Thiago sabia quem ele era.

– Radagast? É mesmo você? – Thiago estava intrigado.

– Oh! Pelo visto sabe meu nome! O que dispensa apresentações! Não esperava menos de um enviado de Yavanna!

– Yavanna?! – Thiago lembrou da mulher da visão que teve. Radagast sorriu.

– Bem, vejo que está bem. Levante! Preciso da sua ajuda!

 Thiago levantou então procurando por Ka. Viu mais à frente um grande lobo branco e não teve dúvidas de que se tratava de seu amigo. Poderia reconhecê-lo em qualquer lugar e em qualquer forma. Havia uma pequena hobbit de cabelos laranja brincando com ele.

Thiago correu em direção ao amigo e o abraçou forte. Radagast o acompanhou.

– Ele é um animal belíssimo! – comentou a hobbit, enquanto acariciava o dorso de Ka. – Me chamo Lilian!

– Me chamo Thiago. – disse, olhando para Lilian e acariciando a cabeça de Ka.

– Thiago? Esse não é um nome muito comum! De onde você vem?

– Lilian, não se deve fazer esse tipo de comentário! Seja menos curiosa! Ele é um enviado de Yavanna e tem uma grande missão aqui!

– Desculpe, Thiago… não fiz por mal – Lilian comentou, desconcertada.

– Sei que não. Está tudo bem. Não há nada a ser desculpado. – Thiago sorriu para Lilian.

Lilian ia dizer alguma coisa quando ambos ouviram o som de cavalos. Thiago partiu em direção ao barulho para ver o que estava acontecendo.

Andaram alguns metros até chegarem aos limites da floresta de Fangorn, quando Thiago viu milhares de Rohirins cavalgando juntos. Ele se apoiou em uma árvore, maravilhado com a cena que presenciava. Jamais imaginaria que os veria assim ao vivo e tão de perto. Pensou em ir até lá e falar com eles…

Radagast o segurou pelo braço.

– Um humano em um Warg? Não acho que seria uma boa ideia.

– Entendo… – Thiago suspirou.

– Mesmo ele sendo uma criatura fantástica! Ele claramente não é deste mundo. – Radagast acariciava Ka. – Eles não entenderiam. Não por enquanto.

Thiago os viu se distanciarem cada vez mais.

– Eu posso ver em seu coração que deseja aventura. E não se preocupe, uma aventura incrível lhe aguarda. Ah, disso você pode ter certeza.

Thiago sorriu.

Sobre o Autor

Contador, Cozinheiro, Vocalista, Ator, Roteirista, Diretor de Esquetes de Humor, Escritor, Colunista e mais outras coisas que não consigo lembrar.

Comentários

  • Véi… arrepiei. O que eu posso dizer, além de obrigado? Primeiro o César me retrata em um mundo de fantasia medieval e agora tu me coloca na Terra-Média com minha própria história! Porra, sensacional, Naka! Achei tudo muito foda e adorei meu Ka-tioro haha

    • eeeEeEeEeEeEEeEeEeEeEe confesso que esse foi o mais difícil.
      É muita responsabilidade em todos os sentidos!
      Que bom que gostou! mas ainda tem muito mais por vir!