Revoadas do Uirapuru – Reflexos no Multiverso – Parte 2: A Lady Sith

Publicado em 13 de junho de 2016 | Por Naka | Contos, Manaus, Revoadas do Uirapuru

Atenção: Esta é uma obra de ficção. Todos os serumaninhos mencionados serviram apenas como inspiração para a obra e em nada aqui relatado condiz com a realidade.


Parte 2: A Lady Sith – Carne Viva

“Medo…

Raiva…

Ódio…

Sofrimento…

Eles falam sobre o caminho…

… o caminho para o lado negro.

Eles falam dos passos… de cada um desses sentimentos

Mas eu…

Eu sinto tudo isso.

Eu sinto todos eles vibrarem em cada célula do meu corpo

E elas querem explodir.”.

Manaus, 10 de junho de 2017

Juçara estava debruçada sobre o teclado. Finalizava os últimos retoques no texto que estava trabalhando. Fim do expediente. Ela precisava correr.

De um evento a outro, nenhum instante estava solto. Nenhum minuto era seu. Havia sempre uma reunião, seja presencial ou virtual. Sempre um afazer. Sempre algo em mente a ser planejado e executado.  

Trabalhos, Projetos de realizações pessoais nerds, Casamento, Filha. Todos preenchiam perfeitamente o tempo do dia que se mantinha consciente.

Havia uma cadeia detalhada de eventos em sua vida totalmente amarrados. E essa era a melhor forma que conseguia prender o que havia dentro de si.

Muito embora essa cadeira parecesse efetiva, tratava-se de simples aparências. Existia ali uma dualidade contraditória nisso tudo: quanto mais tempo o tempo passava, quanto mais ela prendia, mais esses sentimentos se acumulavam.

– É meu paradoxo preferido – Disse pra si mesma enquanto perdia-se em pensamentos ao olhar a vista pelo elevador panorâmico do prédio de onde trabalhava.

– O que você disse, Ju? – Luciana, sua colega de trabalho, a indagava de dentro do elevador.

– Nada não. Estou apenas divagando.

– Como sempre, né?!

– Sim, como sempre.

Depois de algumas trocas de palavras sobre trivialidades, notícias do dia e bobagens da internet que levaram os minutos que compreendiam as paradas entre o vigésimo andar e o térreo, Juçara havia reparado algo que não notava em anos.

Era algo que sua rotina jamais permitiria reparar em meio a tanta coisa que girava ao seu redor: as pessoas não falam mais sobre coisas realmente pessoais.

Ao ver Luciana ir embora percebeu que mesmo trabalhando com ela há mais de cinco anos e tendo contato diário durante todo esse período, ela só sabia de coisas superficiais sobre a vida pessoal de sua colega: Como no dia que o marido dela bateu o carro, ou a viagem que fizeram nas férias e as dúvidas do apartamento que se acumulavam.

Mas ela tão pouco sabia onde Luciana foi criada, ou onde estavam seus pais, se ainda estavam vivos ou que colégio ela havia estudado.

E em seguida parou para pensar nas pouquíssimas pessoas que sabiam sobre ela e sobre seu passado.

“Que bom”. Pensou, e por um breve momento isso lhe trouxe contentamento.

Manaus, 25 de abril de 1987

Juçara brincava com seus amigos na comemoração de seus oito anos de vida. Essa era uma de suas melhores lembranças, uma lembrança realmente pura e boa. Sua gargalhada mostrava toda a alegria que uma criança poderia ter. Seus gritos de alegria tão altos e vivos que contagiavam todos ao seu redor. Ela corria cheia de vontade de viver. As pessoas mais queridas da sua vida estavam lá e ela fazia questão de abraçar todos. Foi a última vez que se sentiu como uma pessoa normal.

Alguém gritou rompendo o clima de festividade. Ainda a impressiona até hoje como naquele instante a felicidade se tornou desespero em tão pouca fração de segundos quando três homens chegaram à festa atirando nas pessoas.

Sua primeira reação foi o choque. Ela travou o corpo com as mãos próximas ao rosto. E no instante seguinte correu para dentro do guarda-roupa como fazia em tantas vezes que sua mãe a procurava para repreendê-la ao descobrir uma de suas travessuras.

Tudo aconteceu em menos de um minuto. E foi nesse dia que ela descobriu que se levam gerações inteiras para nascerem as pessoas mais importantes da nossa vida e menos de um minuto para matar todas elas.

Seu pai era um jornalista político famoso de Manaus e sua mãe uma fotógrafa premiada. Juntos denunciaram diversos casos de corrupção em diversas reportagens. Viveram seus breves anos de profissão combatendo políticos corrutos, mas poderosos demais para respeitar a vida alheia.

Manaus, 11 de junho de 2017

Juçara estava no meio da floresta. Havia se perdido em uma trilha próxima a Caverna do Maroaga a poucos quilômetros do município de Presidente Figueiredo. Presumiu ter se perdido depois do trigésimo sétimo “que diabos estou fazendo aqui?!”.

– Porque eu não fiquei na minha cama? Porque decidi fazer algo diferente nesse domingo? Lição mais que aprendida! Duvido me fazer algo do tipo novamente enquanto eu viver – Praguejava sozinha enquanto procurava a trilha que a levaria de volta a seus amigos.

Ela parou subitamente quando notou o silêncio. Percebeu estar completamente sozinha como não estava em trinta anos. Colocou as mãos nos bolsos e nem o celular estava com ela. Ouvia apenas o barulho dos pássaros, demais animais ao seu redor e do vento balançando as árvores e folhas.

Sentiu inicialmente um leve desespero. Como um desconforto por estar em uma situação nova. Algo que ela passou todos esses anos evitando: Começava a confrontar tudo que havia dentro dela. E todos esses sentimentos começavam a aquecer seu corpo cada vez mais. O vento soprava cada vez mais forte.

Aproximou-se de uma enorme árvore caída. O diâmetro do seu caule tinha quase dois metros e a protegia da ventania de folhas secas que atrapalhava sua visão. Nesse momento ouvia apenas o barulho do vento e o som de um pássaro. Um único pássaro que voava perto dela.

Ele pousou no caule da árvore e assim ela percebeu com mais detalhes que era um pássaro pequeno de asas negras, mas sua cabeça tinha uma mistura de laranja com vermelho.

– Não é todo dia que se vê um Uirapuru… Só espero que isso seja um bom sinal – tentava permanecer otimista com tudo aquilo que estava acontecendo.

O pássaro voou para próximo de uma caverna sumindo na escuridão e ela entendeu que deveria segui-lo. Sentia-se ligado aquele pássaro de uma forma que não conseguia explicar. Ela caminhou também sumindo na escuridão.

 Há muito tempo atrás, numa galáxia muito distante

Quando saiu da escuridão percebeu que sua roupa havia mudado. Um capuz negro dobrava-se ao redor do seu pescoço junto a um peitoral de um metal que ainda não conseguia identificar. Uma peça única de Collant, longas botas negras e dois sabres de luzes.

Sentia seu cabelo maior embora ainda estivesse cinza e negro. Sentia bem mais que isso, sentia que não estava mais em Manaus, sentia que aquele não era seu corpo, mas a representação de tudo que ela conteve em si por tanto tempo. Sentia que tudo aquilo era real.

Saiu da caverna e se viu em um deserto. Olhou para o céu constatando os dois sóis: tatoo I e II, tendo certeza assim de que estava em Tatooine. Logo na entrada viu os restos mortais de um Caçador Tusken. Reconheceu pelas vestes e pelo gaderffii.

“Talvez se eu conseguir usar psicometria nessa arma..,” – Juçara tocou o gaderffii e logo em seguida recebendo visões de tudo que aconteceu com aquele Tusken.  

“Seu acampamento fica a leste e a menos de um dia a oeste encontrarei Mos Entha.”. – concluiu já sabendo o caminho que deveria percorrer.

Quando estava no meio do caminho, parou. Viu ao longe dez Tuskens vindo em sua direção. Pensou em contorná-los, mas percebeu outros dez vindo pelos lados e por trás. Estava sendo caçada há algumas horas sem ter notado. E agora o confronto era inevitável.

Quando a cercaram, havia vinte deles ao seu redor apontando suas armas para ela bradando algo em Tusken que ela tão pouco compreendia.

– Saiam do meu caminho! Não falarei de novo! – Juçara se viu confrontada e acuada.

Eles se prepararam para atacá-la. Ela finalmente não precisava mais se controlar.

– Eu passei todos os dias da minha vida contida. Suprimindo tudo dentro de mim. Eu nunca pude me dar o privilégio de deixar fluir todo o medo, a raiva, o ódio e o sofrimento. Eu sempre precisei prendê-los com todas as minhas forças para proteger as pessoas que amo. – Dizia enquanto as pedras e areias começavam a levitar com a Força.

– Eu precisava evitar a todo custo. Controlar-me com todas as minhas forças. É como uma vida inteira segurando fios finos demais com dedos em carne viva. – Levantou os braços fazendo com que nenhum deles conseguisse mais se mover.

– Mas hoje, pela primeira e última vez… Vocês terão o privilégio de sentir toda a extensão da minha fúria. – Ela cerrou os punhos e todos eles foram instantaneamente trucidados tendo todos os seus ossos e carnes despedaçados.


Para ler a parte 3: Clique aqui.


Sobre o Autor

Contador, Cozinheiro, Vocalista, Ator, Roteirista, Diretor de Esquetes de Humor, Escritor, Colunista e mais outras coisas que não consigo lembrar.

Comentários

  • woooowww

  • Fernanda Brandão

    – Mas hoje, pela primeira e última vez… Vocês terão o privilégio de sentir toda a extensão da minha fúria.

  • Juçara Menezes

    – É meu paradoxo preferido

  • Mônica Aensland

    Apenas uma palavra: caralhoo!

  • Mônica Aensland

    Muito bom o texto!