Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos – Parte 21

Publicado em 3 de abril de 2016 | Por Naka | Contos, Literatura, Manaus, Revoadas do Uirapuru

Atenção: Esta é a 21a. parte do Revoadas do Uirapuru. Para ver todos os outros capítulos de Revoadas do Uirapuru, clique aqui.

Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos

Parte 21: Promessas de uma nova paz

Manaus, 25 de novembro de 2015

Liam chegou finalmente à estufa. Chegou da forma mais rápido que pôde correndo em direção a Helena.

– Há quanto tempo ela está assim? – Liam estava esbaforido.

– Em torno de meia hora. Assim que notei que algo estava errado, liguei para você. – Julia permanecia aflita.

– Não entendo porque Helena usaria sua estufa quando temos toda uma estrutura para vagar. Sem falar nos Psiônicos que patrulham e protegem nossa Sede por dentro e por fora garantindo nossa segurança num raio de quilômetros.

– Mas lá vocês não tem ninguém como EU. Talvez seja a única que possa, fisicamente, impedir qualquer um de vossos inimigos. Pelo menos os declarados. Ou você acha que pode confiar em todos os Wanders do Conselho? Lembre-se que todos os inimigos que já tivemos também foram um de vocês um dia.

– Sim. Eu tenho notado que Helena só vai à Sede para reuniões. Há semanas não usa seus poderes. Ela havia mencionado um incômodo que vinha sentindo há algum tempo. Como se algo grande e terrível estivesse para acontecer. Mas ela já diz isso há tanto tempo que achei que fosse uma paranóia criada como efeito colateral de tantas viagens. Vivemos dias de paz. Jamais ocorreu algum incidente em que não contornássemos facilmente.

– …Até agora.

Liam se aproximou de Helena. Ela estava calma agora. Não lutava mais como Julia havia descrito na ligação. Mas sua respiração estava fraca como se tivesse num estado de profunda inconsciência.

Ele se aproximou do rosto de Helena e tocou sua face, pressionando as têmporas dela e fechando os olhos em concentração.

– Ela ainda está viva. Mas sua mente parece estar… Presa. Fora do seu corpo. Mas de alguma forma sua mente ainda existe. Ela deve ter sido aprisionada… o que ela falou pra você, Julia?

– Ela mostrou em minha mente o que aconteceu. Liam, essa realidade que vivemos foi alterada de modo substancial para os Wanders. Vivíamos tempos de guerra. Psiônicos e Wanders eram inimigos. Uma Wander chamada Laís se tornou tão poderosa que quase destruiu nosso mundo. Foi necessário que o Primeiro intervisse, fazendo-o usar sua força vital para conter e manter o mundo intacto. E uma Wander chamada Milena, Filha de Laís, se sacrificou fazendo com que sua mãe morresse antes dela nascer e tudo isso tivesse acontecido. Assim, Helena foi até o dia 17 de julho de 1992 no estacionamento do Hiper C.O., data e local em que Milena matou sua mãe, para entender o que tinha acontecido e ver se haveria possibilidade de salvar a garota. Pelo que lembro era próximo ao meio dia.

Liam já tinha informações suficientes e se reclinou ao lado de Helena enquanto Julia erguia seu corpo telepaticamente da mesma forma que fez com Helena. Mas algo estava errado. Ele não conseguia ir até esse evento. Como se houvesse um bloqueio.

– Algo errado, Liam?

– Não consigo acessar essa data, local e hora. É como se existisse alguma espécie de bloqueio.

– Se alguém foi capaz de impedir o acesso de Wanders, então Helena está realmente em perigo. Tente ir em outro momento.

Liam tentou novamente. Alguns minutos antes. Sem sucesso. Uma hora antes, duas, três, quatro… não funcionada. Mesmo que o tempo de viagem durasse alguns minutos, ele tentou horas antes na possibilidade de deixar um aviso.

Mas nenhuma hora que ele tentara antes do evento parecia funcionar. Resolveu tentar minutos depois. Um por vez. Até que conseguiu no décimo minuto após a chegada de Helena.

Manaus, 17 de julho de 1992

Ao chegar ao estacionamento, avistou uma pequena aglomeração de pessoas. Ele estava no corpo de um homem que acabara de estacionar. Ao olhar no banco do passageiro, viu um jaleco branco. Deveria ser algum médico. Saiu do carro e foi em direção à aglomeração.

Ao se aproximar mais, viu uma mulher deitada no asfalto. Parecia ser uma funcionária a caminho do supermercado. Duas pessoas a viram cair, parecia que tinha desmaiado.

Liam deduziu que seja lá quem aprisionou Helena sabia sobre os Wanders e havia matado a hospedeira. Liam disse ser um médico enquanto se aproximava para checar o pulso da moça. As pessoas abriram espaço. Ele tocou no pescoço procurando a jugular e deslizou discretamente as mãos em direção à nuca da moça e percebeu que havia um papel dobrado escondido no cabelo.

Ele já havia visto isso antes, Enis costumava matar os hospedeiros e deixar recados nos cabelos, bem próximo a nuca. Acabou se tornando sua assinatura. Mas Enis estava morto. E em todos os registros de suas viagens, nenhuma foi para esse dia, nesse lugar e nesse momento. Sem falar que ele não conseguiria extrair a mente de um Wander de seu hospedeiro sem um ritual apropriado.

Liam então escondeu o bilhete em sua mão esquerda, pediu que chamassem a ambulância e se afastou dizendo que iria pegar a maleta de médico que havia deixado no carro. Ele entrou no carro e abriu o bilhete com as seguintes palavras:

“Vocês crivaram uma falsa paz com o sangue de inocentes.

Vocês são o verdadeiro mal.

Eu perdi meus dois únicos filhos.

E agora vocês pagarão

E com o sangue dos seus

Irei instaurar a minha paz.”

Ao virar para o verso do bilhete:

“Sede Wander

17 de Janeiro de 2021

18h

TODOS estão convidados”

Liam rasgou o papel em vários pedaços. Não podia deixar nenhum rastro ou evidência do que aconteceu. Enquanto se livrava do bilhete pensou em tudo que acabara de ler. Entendeu que se tratava do pai da Milena. E pelo modo como ele deixou o bilhete só podia deduzir que o seu segundo filho era Enis. Era hora de voltar.

Manaus, 25 de novembro de 2015

Liam deixou Helena sob os cuidados de Julia. Mas antes de sair, contou tudo para ela e, como quem já estivesse elaborando um plano, disse:

– Você sabe onde esconder o corpo de Helena. Mas, além disso, preciso que você avise os demais Psiônicos que nessa data uma grande batalha irá ocorrer e precisaremos da ajuda de todos. Protejam-se até lá, redobrem seus cuidados durante esses seis anos. Nos encontraremos no dia 17 de janeiro de 2021 às 17:30h naquele enorme pé de taperebá que fica próxima a Sede. Precisaremos de vocês. De todos vocês. E muito.

Julia sabia que a partir de agora estariam em guerra. Precisariam despertar novos psiônicos, proteger os Wanders e sobreviver até lá. Principalmente ela. Faria questão de participar do resgate de Helena. Custe o que custar.

Liam chegou à Sede Wander e reuniu emergencialmente todos os quatro Wanders e os atualizou sobre tudo que havia acontecido.

 Jane era a única que tinha o mesmo rank que Liam. Ela tinha os cabelos pretos, lisos e longos até a cintura. Era esbelta e tinha traços indígenas os quais se orgulhava. Era a mais sisuda de todos. Falava pouco e colocava ordem sempre que preciso.

Marian era a ruiva do grupo. Ruiva natural, cheia de sardas no seu rosto. Não era tão magra e nem tão alta quanto Jane sendo mais robusta que sua superior. Era apenas um nível abaixo de Jane e Liam. Tinha várias tatuagens e piercings espalhados pelo corpo. Era a mais extrovertida e irônica de todos.

Por último, “Rick”, o novato. Enrique era loiro, mais forte e mais alto que Liam. Tinha um cavanhaque tão grande que tinha tranças nele. Sempre mencionava vikings em qualquer coisa que se referia. Estava sempre malhando na parte externa da Sede.  

Após elaborarem o plano de ataque, comunicaram o Conselho Wander e o Santuário sobre o ocorrido avisando-os para se protegerem e mudarem a Sede para outro local para que a casa estivesse vazia no ano de 2021. Após isso, eles estavam prontos para vagar.

Manaus, 17 de janeiro de 2021

A Sede permanecia a seis quilômetros da Estrada do Turismo em um daqueles ramais que Liam nunca soube o nome. Era uma casa grande, de alvenaria, estilo americano: dois pavimentos, varanda larga, janelas de madeira, telhas de barro… Tinha aquele equilíbrio entre o rústico e o moderno embora as paredes e muros descascados clamassem por uma reforma urgente. Seis anos se passaram e nada havia mudado.

Os quatro perceberam que estavam nos corpos de psiônicos próximos ao pé de taperebá, local onde haviam combinado com Julia. Controlar psiônicos era a melhor opção que tinham. Poderiam usar seus poderes, uma vez que a capacidade telecinética era potencializada quando utilizada pela mente de um Wander. Seriam os hospedeiros perfeitos para derrotar seja quem os tivesse convidado para esse dia.

Mas algo estava errado. Só haviam quatro deles. Apenas um para cada um. Era para ter pelo menos vinte psiônicos e Julia também não havia chegado.

Liam sentiu ser puxado. O corpo de seu hospedeiro caiu no chão. Os demais viraram para ver o que tinha acontecido com Liam, mas não conseguiam controlar os corpos dos psiônicos. Tentavam voltar para o anos de 2015. Não conseguiam. Estavam presos na mente dos psiônicos.

A porta da Sede abriu. Um homem de terno cinza e gravata azul clara saiu. Ele parecia muito com enis. Embora tivesse os cabelos pretos e compridos. Ele caminhou calmamente enquanto a mão esquerda permanecia no bolso esquerdo.

Se aproximou de cada um deles. Tocando seus rostos de um por um. Olhava atento com seus enormes olhos azuis. Admirava suas esculturas vivas como se fossem os melhores presentes que poderia ganhar na vida. Se aproximou do hospedeiro de liam e o levantou usando telecinésia.

– Pelo visto usei poder demais com você, Liam. Eu medi a quantidade de poder a ser gasto compativelmente com o rank de cada um de vocês mas todos sabemos que você é imprevisível. Então imbui uma quantidade maior de poder para prendê-lo, mas acho que exagerei. Pelo visto você não é tão forte assim. Quanto aos meus demais convidados, adianto que não terão a mesma sorte de morrer tão rápido assim. Eu garanto.


Sobre o Autor

Contador, Cozinheiro, Vocalista, Ator, Roteirista, Diretor de Esquetes de Humor, Escritor, Colunista e mais outras coisas que não consigo lembrar.

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