Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos – Parte 19

Publicado em 20 de março de 2016 | Por Naka | Contos, Literatura, Manaus, Revoadas do Uirapuru

Atenção: Esta é 19a. parte do Revoadas do Uirapuru. Para ver todos os outros capítulos de Revoadas do Uirapuru, clique aqui.

Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos

Parte 19: A Escolha de Milena 

Manaus, 16 de Fevereiro de 1988

Havia finalmente entendido o motivo do Primeiro não ter me contado nada sobre essa batalha. Não conseguia pensar direito, estava em choque e uma música tão horrível quanto alta tentava me ensurdecer enquanto me empurravam festivamente jogando confetes e serpentinas.

Minha mãe era uma Wander. E pior: Ela havia se tornado nossa inimiga. Uma das mais poderosa por sinal. Havia se aliado aos que querem cada vez mais poder. Não entendia como minha própria mãe havia se permitido seduzir pelo poder.

Lembrava-me tão pouco dela. Minha mãe havia entrado em coma quando eu tinha onze anos. Até então ela era uma mãe distante, vivia trabalhando. Estava sempre ausente. Após o coma fui morar com um casal de amigos dela uma vez que não cheguei a conhecer meu pai e tão pouco sabia da existência de tios, primos, avós.

E agora entendi o que aconteceu: Ela havia perdido a batalha. Mas ela era tão poderosa que conseguiu manter seu corpo caso conseguisse uma maneira de voltar pra ele mesmo depois de ter sido derrotada. Mas alguns anos depois esse casal de amigos dela ficaram impossibilitados de manter os custos hospitalares e tiveram que desligar os aparelhos.

Lembro claramente desse dia. Do quanto chorei. Eu lembro que ia todo dia no hospital contar o que aconteceu comigo. Todos os dias. E quando ela foi enterrada eu passei a escrever e levar as folhas do meu diário pra ela toda semana. Fiz isso por muitos anos.

Aos dezessete comecei a trabalhar para me sustentar e assim a quantidade de folhas foram reduzindo, assim como as visitas. O tempo e a rotina venceram e me acostumei a viver sem ter família alguma.

E agora via sua mente ali. Sua síntese. A única família que eu já tive. Eu não sou egoísta o suficiente para defendê-la. Eu não precisava pensar quanto a isso. Eu já havia superado a necessidade de ter uma família. A humanidade precisava ser salva. Era algo que eu sabia que precisava fazer e era o que eu queria fazer.

Olhei a trama ao meu redor e vi que os fios vitais das pessoas haviam sido manipulados pelo Primeiro. Ele havia feito com que todos ignorassem os dois. O mesmo poder que Helena já havia usado, mas esse era infinitamente superior. Era difícil até pra mim acompanhá-los.

Uma vontade enorme me fazia desviar meu olhar. Mas era minha mãe, era o Primeiro, era o destino da humanidade que dependia desse momento. Era muita informação. Muita pressão e eu estava sozinha. Como em toda minha vida, só podia contar comigo mesma.

Me aproximava com dificuldade enquanto eles se distanciavam cada vez mais. Vi que eu estava no corpo de um homem de seus trinta anos. Sentia que era o corpo dele que criava a maior resistência para acompanhar a batalha.

Era como se o controle fosse do corpo e da alma do meu hospedeiro. E isso dificultava e me distanciava deles. Eu percebi que não poderia ficar muito tempo nele. Ele ia em direção a uma mulher, estiquei a mão e a toquei e logo estava nela.

É isso! Eu poderia fazer isso até chegar neles. Quanto mais pessoas eu pulasse, mais perto me aproximaria e não teria muito tempo para haver resistência.

E de toque em toque, pessoa por pessoa, fui me aproximando. Cada vez mais. Entendia que isso só foi possível graças a Julia. Esse poder era a única coisa que me permitia viagens tão rápidas e passar de corpo a corpo sem que tivesse que voltar ao meu próprio corpo e iniciar tudo de novo.

Quando notei, vi que havíamos chegado na Avenida Eduardo Ribeiro. E ela estava parada e deserta devido ao Carnaval. Eles também precisavam se concentrar ou isso tudo foi uma manobra do Primeiro para não envolver inocentes. Era agora que poderia tentar encontrar uma brecha.

Mas antes que bolasse um plano, outros Wanders se aproximaram vindo de todas as direções. Era tudo parte do plano do Primeiro para emboscá-la. Inicialmente vi três, depois nove, então quinze… Trinta… e ao se ver acuada, minha mãe parou. Ela estava totalmente cercada. Eles iriam finalmente se enfrentar.

Fui me aproximando cada vez mais e quando cheguei a poucos metros, uma barreira opaca surgiu protegendo os dois. Era uma espécie de bloqueio mental. Tinha a aparência de uma grande bolha de sabão de seus quatro metros de raio.

Via como uma bolha de sabão porque haviam cores se alternando, mas sabia que, diferente da minha referência, aquela barreira não emitia aquelas cores por causa da luz do sol.

Ao chegar um pouco mais perto vi que as cores eram passagens pra outras épocas em outros lugares aleatórios da existência humana. Era uma espécie de barreira temporal. Era uma criação da minha mãe para manter a batalha apenas entre os dois. E eu precisava quebrá-la.

Não conseguia mais ver o que estava acontecendo lá dentro. E os demais Wanders ficaram nervosos e resolveram partir em direção a barreira. Olhei com mais atenção aos fios da trama e percebi que todos que tocassem a barreira teriam suas mentes levadas para corpos de suicidas nos momentos em que suicidariam. Uma armadilha que os levaria para a morte certa.

Eu não podia atrair a atenção deles. Eu não podia avisá-los. Minha mãe me notaria e poderia fazer alguma coisa para se proteger mais. Eu não deveria interferir até que pudesse influenciar de forma decisiva nessa batalha.

Eu tentava de todas as formas encontrar uma brecha enquanto via cada um deles se jogar contra a barreira. Meu desespero aumentava cada vez mais. Era uma atitude totalmente imprudente. Mas eles estavam sendo manipulados pela minha mãe a fazerem isso sem que pudessem perceber.

E de um a um, vi os corpos de seus hospedeiros caiam inertes ao redor da barreira. Eu não podia fazer nada. Apenas vê-los morrer.

Quando o ultimo deles caiu, eu ainda não havia encontrado maneira alguma. Eu estava desesperada. Chorava imersa em tanta raiva e frustração por não conseguir fazer nada para impedir. Era uma barreira impenetrável. Não havia como entrar de forma alguma. Cai de joelhos. Não havia como quebrar aquilo.

Mas quando parei de pensar em como quebrar aquela barreira. Pensei finalmente na única maneira de entrar ali: por dentro.

Manaus, 02 de Outubro de 2004

Esse era o dia que minha mãe entrou em coma. De acordo com os médicos ela foi encontrada inconsciente às 8h da manhã em casa e nunca mais acordou.

Faltavam alguns minutos para as oito e estava no corpo da minha vizinha, a dona Érica. Uma senhora muito próxima da minha mãe e que sempre estava em casa. Era a pessoa certa.

Fui em direção a minha casa e peguei a chave que estava escondida no vaso de flores ao lado da porta e abri cuidadosamente. Deixei a sandália no tapete de entrada e caminhava descalça a passos leves.

Passei pela sala e pelo meu quarto que estava com a porta aberta. Me vi com onze anos ali do corredor. Dormindo tranquilamente. Alheia a tudo que estava acontecendo. Naquele momento eu mal sabia que aquele seria o pior dia da minha vida.

 Fui em direção ao quarto dela e ela estava lá. Deitada. Inconsciente. Seria muito simples cortar seu fio vital. Principalmente nesse estado. Mas eu precisava de respostas.

Estava dentro de sua mente. Não era um deserto asteca, como foi com Júlia. Estava em um corredor quase infinito. Cheio de quartos dos dois lados. E a cada quarto havia uma lembrança sua.

De porta em porta procurava a sua lembrança mais recente. Não havia uma ordem. Algumas portas levavam a outras portas. Era surpreendentemente caótico tudo aquilo. Até que entrei numa porta que era um quarto de hospital. Minha mãe estava deitava me segurando em seu colo. E meu pai estava do lado. Ela olhava e chorava de felicidade enquanto olhava pra mim.

Era a primeira vez que eu via meu pai embora ele estivesse de costas pra mim. Era extremamente doloroso ver aquilo. Segui para a próxima sala contrariando a vontade de ficar. Na sala seguinte minha mãe chorava sozinha comigo em seu colo sentada na sua cama, ela me abraçava forte como se fosse seu bem mais precioso. Ela estava desesperada por nada da vida dela dar certo e tinha apenas a mim como motivo de felicidade.

A sala seguinte, ela estava me vestindo pro meu primeiro dia de aula, e ela chorava enquanto me distanciava dela em direção à sala de aula. E assim, me deparei com várias memórias nossas durante toda minha vida. E eu precisava desesperadamente parar aquilo.

Percebi que não haveria fim. E não iria encontrar um fim. Eu simplesmente ia de lembrança em lembrança eternamente.

Até que entrei em uma sala. Era o estacionamento do supermercado Hiper C.O. que ficava entre a Avenida Constantino Nery e a Avenida Djalma Batista. Minha mãe estava indo em direção ao supermercado. Ela encontraria meu pai pela primeira vez e eles se apaixonariam. Me aproximei e coloquei minha mão nela e segurei o mais importante de seus fios vitais.

– É melhor você parar agora. Se eu puxar esse fio, você morre. – Eu disse a ela fazendo-a parar.

– Você teria coragem de fazer isso com sua mãe? Você viu as lembranças! Viu o quanto eu te amo! Você teria coragem de matar a única pessoa que te amou nessa vida? – ela parecia aflita.

– Seu único erro foi achar que eu cairia na sua ilusão. Eu não lembro desses detalhes da minha infância. E poderia facilmente ter acreditado no que vi. Só o que você não sabe é que tenho acesso a todos os acontecimentos já existentes. E eu sei que nada disso jamais aconteceu.

– Isso é impossível! Como você conseguiu? Julia? Não acredito que Julia deu o poder a você! – Minha mãe não parecia acreditar no que eu havia conseguido. – pois se veio para me matar então o que está esperando?

– Eu preciso saber o motivo de você ter mudado de lado.

– E não é obvio? Cansei de ser uma marionete de Helena e do Primeiro! Cansei de cumprir ordens sem saber por que estava fazendo. Ou você acredita em toda aquela baboseira? Você realmente acredita que a humanidade é a melhor coisa desse mundo? Coitadinha! Você não aprendeu nada! Não existem motivos pelo qual vale a pena se sacrificar pra salvar as pessoas! A maioria é podre! Egoístas! Falsos! Manipuladores! Sanguessugas! Farão o que puder para se aproveitar ao máximo e sugar o máximo de você e abandoná-la quando você não tiver mais valor pra eles! Prefiro aceitar minha própria natureza e viver intensamente os meus dias com todo o poder que conseguir adquirir!

– Mas nem todos são assim! Ainda existe esperança! Ainda existe quem lute contra essas pessoas todo dia e tente fazer desse mundo um lugar melhor! E é por isso, pela construção de um mundo melhor que pessoas como você devem morrer!

Mas antes que puxasse seu fio, Minha mãe me interrompeu.

– Antes que você me mate, tenho uma surpresa pra você! As minhas reais lembranças estão ligadas à realidade. Ou seja, se você me matar nessa lembrança, eu morrerei em 17 de julho de 1992 enquanto ia em direção ao supermercado e jamais conhecerei seu pai e você jamais nascerá e todo o curso da história será alterado. Ou você acha que deixaria você vagar pelas minhas lembranças sem que nada acontecesse?

Eu olhei ao meu redor e vi que ela estava certa. Essa lembrança estava de fato ligada à realidade. Eu podia ver os fios. Tudo estava conectado. Eu não poderia deixá-la ir, iria falhar em salvar o mundo. Ela precisava morrer, mas matando-a, o futuro seria salvo, aquela batalha jamais aconteceria e o Primeiro não ficaria aprisionado. Mas eu jamais nasceria. Jamais viveria tudo que vivi… Eu jamais teria existido.

– No fim, é tudo sobre sacrifícios, não é, mãe? – disse sorrindo.

E assim puxei o seu fio vital.


Sobre o Autor

Contador, Cozinheiro, Vocalista, Ator, Roteirista, Diretor de Esquetes de Humor, Escritor, Colunista e mais outras coisas que não consigo lembrar.

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