Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos – Parte 17

Publicado em 6 de março de 2016 | Por Naka | Contos, Literatura, Manaus, Revoadas do Uirapuru

Atenção: Esta é 17a. parte do Revoadas do Uirapuru. Para ver todos os outros capítulos de Revoadas do Uirapuru, clique aqui.

Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos

Parte 17: O Encontro com o Primeiro

Manaus, 25 de novembro de 2015

Comecei a perceber os detalhes a minha volta: seis homens e seis mulheres usavam roupas normais, calça jeans e camiseta, pareciam pessoas extremamente normais se não fossem os coletes, proteções táticas e os fuzis de assalto que carregavam e os apontavam para nós.

– Não ousem olhar nos nossos olhos ou iremos disparar diante de qualquer tentativa. Embora seja óbvio que não iria funcionar de qualquer forma. – O que parecia ser o líder deles não estava mais tão animado quanto estava quando nos referia a sacrifícios. Eles estavam de óculos de visão noturna embora a lua nos permitisse ver da mesma forma.

Olhei para Helena e ela parecia não relutar. Seriamos levadas, de fato. Não haveria conflito. Não haveria resistência. Eles pareciam bem precavidos para qualquer tipo de ameaça. Mas os óculos pareciam desnecessários a não ser que já prevenissem contra Wanders.

Era apenas mais um sinal de que eles e Wanders já haviam interagido anteriormente. e isso me deixava cada vez mais confusa. Soube a poucas horas que sou uma Wander e quase fui morta duas vezes e essa parecia ser a terceira.

Eu nunca havia visto uma arma de fogo ao vivo. Videogames não contam, mas serviram pra ajudar a identificar e saber que não temos a menor chance.

Eu comecei a sentir algo dentro de mim. Uma energia azul clara brilhava intensamente e me aquecia por dentro. Era o segredo de Julia. E ascendia em mim.

Eu não conseguia saber o que estava mudando. Não conseguia definir o que era. Mas era extremamente poderoso e a luz ardia de uma forma que sentia que iria explodir se não me segurasse.

Em um piscar de olhos tudo estava diferente. Como uma lente em meus olhos que me fizesse ver as coisas como realmente são. Julia era a índia asteca com roupas douradas, os doze eram os guardiões em suas vestes de batalha.

Pude ver por trás deles, bem ao longe na floresta, as pirâmides. Era como se pudesse ver a real natureza das coisas. E era um alívio para mim que sempre busquei a verdade e cansei de ser iludida por camadas e máscaras.

A luz brilhava cada vez mais forte e cada vez mais claro. Eu sentia que ia vagar mas era como algo involuntário. Algo que ia além do meu controle. Como se aquela força azul estivesse querendo me mostrar algo. Como se estivesse arrancando minha mente do meu corpo. Mas não sentia nenhum tipo de dor. Eu cedi.

Em um instante estava no espaço. Ou era assim que parecia ser. Via o planeta inteiro assim como os demais planetas do sistema solar. Mas a terra era o maior destaque e era o planeta que estava mais perto. Era quase como se pudesse estender a mão e tocá-lo.

Eu estava dentro de um cilindro transparente que parecia ter seus três metros de diâmetro. E eu não estava sozinha. Ao meu lado, uma forma humana sem roupa ou adereço algum, sem pele ou cabelos, era como se fosse um corpo preenchido com milhões de estrelas e universos. Estava em pé e apreciando nosso mundo assim como eu.

– Azul sempre foi minha cor preferida. – uma voz masculina disse suavemente.

– Estou mesmo… No espaço?

– É tão difícil assim de acreditar?

– Pra mim sim. Não tem nem dez horas que descobri que sou uma Wander e já quase fui morta três vezes e agora estou no espaço conversando com… você.

– E eu presumo que você não saiba quem eu sou. Milena, eu sou aquele que chamam de “O Primeiro”. Fui eu quem viu o fim deste mundo e que passou eras tentando salvá-lo.

– Eu me tremia diante de cada palavra dele. Era como se ele fosse uma divindade. Podia sentir seu poder e sua sabedoria. Era como se estivesse falando com alguém tão velho quanto o universo.

– A essa altura você já deve ter percebido que nós Wanders brincamos com o tempo e alteramos o passado, mas ironicamente sempre estamos presos a nossa própria linha temporal. Porque estamos presos ao nosso corpo. E poderemos vagar apenas enquanto ele estiver vivo.

– Entendi. O que você quer dizer é: a cada hora que você vaga, seu corpo vive uma hora. Não podemos vagar mais do que o tempo que temos a viver.

– Precisamente. E essa é nossa maior limitação. Sem falar que você só pode ir para épocas e lugares que você já sabe que a pessoa que você procura está lá. E essa é nossa segunda maior limitação. Jamais seremos capazes de encontrar alguém sem os registros históricos. E é por isso que temos o santuário. E por isso pessoas dedicam suas vidas inteiras para registrar o máximo de pessoas possíveis. De certa forma são sacrifícios também.

– Eu sei. Também considero uma forma de sacrifício.

– Sabe por que estou falando essa duas maiores limitações, Milena? É porque você não as tem mais. Esses são dois poderes que Julia te deu. Você não depende mais do seu corpo para vagar. Você quebrou a continuidade do tempo que ligava sua mente e seu corpo. Você pode vagar indefinidamente e mesmo quando seu corpo morrer, sua mente continuará. E sim, você agora é imortal.

Eu estava me tremendo mais ainda. Meus joelhos perderam as forças e caí ajoelhada me apoiando na esfera. Mesmo sendo apenas minha mente, eu sentia meu coração acelerar e faltar ar para respirar. Procurei me concentrar e não me prostrar dessa forma. Havia ganho o poder da imortalidade e estava desesperada como uma garotinha de sete anos.

– Você também é capaz de localizar qualquer pessoa que já existiu em qualquer momento da vida dela. Até mesmo Wanders em outros corpos em outras épocas. E funciona assim.

O Primeiro estendeu a mão esquerda e foi como se surgisse uma linha em cima do Planeta Terra e a ponta esquerda é o Big Bang e a ponta direita, quando a Terra foi destruída. E nessa linha horizontal havia vários traços verticais marcando cada ano. E a cada ano, os pontos luminosos mudavam. Bilhões deles representavam cada ser humano existente em cada época.

Estendi então a mão no começo e fui deslizando até o fim e vi os pontos luminosos aumentarem cada vez mais até o apocalipse. E era incrível a dimensão disso tudo. Era toda a história do mundo na palma da minha mão.

Levantei rapidamente. – Isso significa que o santuário não é mais necessário! Ninguém mais precisa abrir mão de sua vida para registrar. É só eu pesquisar para eles e passar as informações, certo?

– Você tem uma missão maior. Você não pode dedicar sua vida a dar informações sobre pessoas e lugares. Você precisa salvar o mundo! E isso que está a sua frente não é algo que possa ser comprimido em .pdf e salvo em um pendrive. Essa é uma dádiva individual.

Mais uma vez ficava indignada como tudo isso funcionava. Porque salvar o mundo utiliza métodos tão egoístas? Esse era mais um pensamento para a minha pilha de indignações.

– Porque se difundido e aberto, o conhecimento pode ser usado para o mal. Essas pessoas se sacrificam para que o mal não vença. E é isso que você precisa começar a entender, Milena. Apenas duas pessoas no mundo tem esse poder: eu e você e por isso deve continuar assim. Use seu poder para salvar as pessoas e entenda que muito se sacrificarão por isso também. Você já deveria entender que a razão disso tudo é o controle populacional. Nós somos o câncer desse mundo. Paz e Harmonia não significa ver o maior número de pessoas vivendo. As pessoas precisam morrer. E essa é a maior ironia da nossa imortalidade.

– Mas se você tem os mesmos poderes que eu, porque você não salvou a Terra antes? Porque já não fez isso? Porque preferiu sumir e nos deixar desamparados, dando vantagem pros inimigos?

– Eu sabia que você me perguntaria isso. Eu também fiz um sacrifício. Abri mão de tudo para sustentar o nosso mundo. Eu preciso ficar aqui para suprir a energia vital do universo. O apocalipse aconteceria em 2030, mas na minha última batalha, vi que o inimigo havia antecipado o apocalipse sem perceber e foi assim que vim para cá e impedi isso. É como se estivesse tapando as rachaduras de uma barragem com minhas mãos e que, se soltar, faria a barragem ceder. Isso exige toda a minha força e concentração. Se eu sair daqui o mundo começará a ruir e em poucos instantes tudo que conhecemos será destruído. E só quem tem o mesmo poder que eu seria capaz de me encontrar. Por isso todos acham que o apocalipse ainda acontecerá em 2030: Porque eu não pude avisá-los e ninguém pôde me encontrar.

– Mas porque eu teria o poder de salvar o mundo se ele depende de você?

– Simples. Agora que você me descobriu e sabe tudo isso, você precisa ir até o momento da minha última batalha e impedir que o inimigo vença. Olhe para a linha do tempo. Aquele ponto vermelho é quando e onde isso aconteceu. Você precisa detê-lo. Mas para isso você precisa salvar a você e a Helena. Sua viagem para cá não consumiu o tempo da sua realidade, mas qualquer outra viagem que faça, ele o consumirá. A força que prende o tempo que vagamos ao tempo que nosso corpo vive ainda é inquebrável. Salve-se, Salve Helena, conte tudo que sabe e prepare-se. E quando estiver pronta, salve o nosso mundo, Milena.

Voltei ao meu corpo e parecia ter passado apenas um segundo. Mas agora a luz era vista por todos alí. Os doze e Helena estavam tão admirados quanto eu. Eles podiam ver com seus poderes o quão genuíno e poderoso era o que havia dentro de mim.

Uma dos doze baixou sua arma e tocou o ombro do líder deles. – Aconteceu, Ricardo. Ela é a escolhida de Julia. – disse enquanto os demais baixavam suas armas.

Todos então se inclinaram em reverência. E eu lembrei que enquanto tocava a linha do tempo do mundo eu vi em alguns lapsos de imagens que Psiônicos e Wanders já lutaram juntos há muito tempo atrás.

Estendi os braços e um fluxo de centenas de faíscas dessa luz azul lentamente saiam de mim e tomavam o local iluminando tudo. E tocaram todos que estavam ali fazendo com que vissem tudo que vi e passei naqueles instantes.

E assim todos perceberam que eu tinha muito o que fazer. E eu já estava pronta.

Sobre o Autor

Contador, Cozinheiro, Vocalista, Ator, Roteirista, Diretor de Esquetes de Humor, Escritor, Colunista e mais outras coisas que não consigo lembrar.

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