Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos – Parte 13

Publicado em 8 de fevereiro de 2016 | Por Naka | Contos, Literatura, Manaus, Revoadas do Uirapuru

Atenção: Esta é 13a. parte do Revoadas do Uirapuru. Para ver todos os outros capítulos de Revoadas do Uirapuru, clique aqui.

Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos

Parte 13: Milena

Estava flutuando por Manaus. Esse era meu sonho favorito. Planava com a ajuda do vento otimizando meu voo. Me sentia como um pássaro. Leve e voando com velocidade e graça por entre os prédios.

Em certo momento olhei para o lado e vi pelo reflexo das janelas de vidro que era um pássaro. Um Uirapuru. Tão pequeno com seu peito laranja, pelos com tons amarelos e asas negras. E ao me aproximar mais ainda do vidro, me vi refletida pelos olhos daquele pássaro.

Eu não tinha controle das ações dele, era apenas um passageiro nesse voo que me trazia essa paz libertadora. Fiquei algum tempo relaxando. É tão raro desligar a mente nessa minha vida tão agitada.

Eu nunca deixo a sensação de que tudo acontece se eu levar, empurrar, guiar com todas as minhas forças porque sei que se deixar nas mãos das pessoas, nada acontece. E eu já me frustrei demais nessa vida por isso.

O pássaro então subiu. Cada vez mais alto. Sempre olhando pra Manaus. E a cada piscada, eu vi uma mesma visão em várias épocas da história dessa cidade.

Desde os índios até hoje. E de uma forma que não podia explicar, sentia como se visse algo que estivesse se extinguindo. Se deteriorando tão lento e invisível que ninguém notava.

Ele então começou a descer. Em linha reta em direção ao chão. Cada vez mais rápido.

Me antecipei e vi o ponto de impacto: Era no meio do rio negro. Já podia ver o reflexo do uirapuru nas águas. Mas ao fundo eu vi fogo. Um fogo interno a ponto de explodir. E que apenas aumentava conforme me aproximava no impacto. Cada vez mais intenso.

Cada vez mais destrutivo.

Manaus, 25 de novembro de 2015

Acordei. Estava debruçada sobre uma pilha de papéis. Outras cinco pilhas de mesmo tamanho preenchiam a minha pequena mesa no décimo oitavo andar no Edifício Manaus Shopping Center na Av. Eduardo Ribeiro.

Arrumei o cabelo e esfreguei o rosto procurando despertar logo. Havia cochilado assim que o último colega foi embora. Olhei no relógio e já eram nove e vinte da noite. Estava ferrada. Havia cochilado por tempo demais e o centro da cidade a essa hora estava extremamente perigoso. Mas eu não tinha escolha. Precisava ir embora o quanto antes.

Minha camisa branca estava manchada de gotas de café. Devia ter sujado quando me debrucei. Não importava. Estava indo pra casa de qualquer forma. Passei no espelho apenas para saber se minha cara estava pelo menos socialmente aceitável ou se me parariam para me dar moedas. Mas estava tudo bem. O Bad Hair Day viria a calhar agora convencendo meu visual “despojado”.

A essa hora o elevador vinha automaticamente. Achava divertido ele parar apenas por trinta segundos em cada andar me dando a sensação de Indiana Jones moderno.

Cheguei à Rua Saldanha Marinho e tudo estava deserto como era de se esperar. Exceto algumas barraquinhas de “churrasquinho de gato” que juntava uma ou duas pessoas. Mas eles estavam longe e meu caminho era o oposto, escuro e mais deserto.

Tinha dado poucos passos em direção à Av. Getúlio Vargas quando vi que um cara de seus quarenta anos e seus cento e oitenta centímetros em seus noventa quilos vinha em meu encontro.

Ele já vinha me encarando com um sorriso nojento desde que me viu. E eu sabia que meus cinquenta quilos distribuídos em cento e cinquenta e seis centímetros não dariam conta de detê-lo se ele viesse pra cima de mim. Sim, eu sou paranoica e agora sabia que não estava errada.

Iamos nos cruzar na Rua Barroso e assim que cheguei na esquina, virei em direção ao Teatro Amazonas. Me arrependendo amargamente de ter parado de treinar kung fu há dez anos atrás.

– Peraí, gatinha! Vem cá! Quero te conhecer! – foi a frase que me fez acelerar o passo. Mas logo ele me segurou pelo braço.

– Eeeeei! To falando com você! Vem cá! – ele insistiu. Me virei sorrindo.

– Desculpa! Eu não tinha visto você de perto! Achei que era feio, mas vejo que é um gostoso! –  disse da maneira mais sensual que eu poderia ser.

– Sério? – ele disse abrindo um sorriso egocêntrico, relaxando a postura de dominador e se aproximando de mim.

– Não! – disse e logo em seguida dei uma joelhada em sua virilha fazendo ele perder suas forças e cair no chão. Era hora de correr.

Corri o mais rápido que pude e olhando pra trás sempre que podia. Ele se levantou e começou a correr atrás de mim. Meu objetivo era o Largo São Sebastião. Lá devia ter mais gente e policiamento. Assim esperava.

Ele estava me alcançando e acelerei o máximo que pude. Já não reservava energia. Era tudo ou nada. Se não tivesse ninguém no Largo, eu estava ferrada.

Mal tinha cruzado a Rua 24 de Maio tropecei em um dos buracos, estes, adereços cada vez mais comuns nos pavimentos das ruas dessa cidade. Ele se jogou em cima de mim, me impedindo de me levantar. Não havia ninguém na rua. Ele me arrastou para o vão que havia entre uma das árvores daquela rua e um carro estacionado.

Com uma mão ele tapava minha boca e com a outra ele ia abaixando minha calça junto com minha calcinha. – você agora é minha – dizia enquanto lambia meu rosto.

Eu nunca me senti tão tomada pelo ódio como naquele momento. Assim como nunca me senti tão impotente.

Manaus, 02 de abril de 2003

Estava correndo na rua com meus vizinhos que tinham a mesma faixa etária que eu. O Lucas tinha nove e o Daniel que tinha onze anos. Corríamos pelas ruas do Conjunto Tiradentes atrás de jambo. Já estava no fim do dia e sabíamos que não tínhamos muito tempo. Entramos em um matagal e com alguns minutos procurando, encontramos um jambeiro carregado e decidimos subir nele.

Lucas era o mais medroso e sempre dava a desculpa de juntar os jambos do chão pra que a gente não tivesse que descer com eles. Tudo pra ele não subir. Daniel já era mais obstinado. Eu sabia que Daniel fazia mais para me impressionar mas meninos nunca foram a minha praia e eu sabia daquilo desde bem antes à essa época.

Tínhamos terminado de pegar mais de vinte quando Daniel decidiu pegar o último que ficava mais no alto. Era o maior e parecia ser o mais suculento. Insisti em dizer que não precisava, que já tínhamos muito mais que o suficiente. Mas ele era teimoso. Subiu e ao se apoiar num galho fraco acabou quebrando-o e caindo de nove metros.

Havia caído em cima de seu braço, quebrando-o. Nunca tínhamos visto alguém cair tão feio assim e o desespero nos tomou. Fui a primeira a me controlar e pedir que Lucas corresse pra casa de Daniel, que era a mais próxima, e pedisse ajuda.

Lucas correu, sumindo por entre as árvores em direção à rua. Eu fiquei junto do Daniel. Não podia deixá-lo sozinho. Fiquei próximo dele acariciando sua testa enquanto tentava pensar em alguma forma de ajudá-lo. Ele apenas gemia de dor mas estava mais calmo por eu estar ai com ele.

Não demorou muito ele dormiu, ou desmaiou, não sei dizer ao certo. Devia ter sentido muita dor e não aguentou. Mas continuei ali do lado dele olhando ao nosso redor esperando ajuda. Mas comecei a ouvir um barulho na mata. Vindo da parte mais adentro da mata como um rastejar. E logo ví uma sucuri vindo rápido em nossa direção.

Abracei forte o Daniel e a encarei fazendo barulhos numa tentativa de assustá-la. Nunca havia sentido tanto medo em minha vida. Eu sabia que pela primeira vez, poderia morrer. E de uma força horrível.

A cobra se aproximou e começou a nos circular, como se procurasse um ponto fraco para atacar mas sem tirar os olhos de mim.

E eu não parava de gritar. Até que ela decidiu atacar. Iniciou a investida, vindo cada vez mais próximo de mim e olhou no fundo dos meus olhos já abrindo a boca.

Ao olhar nos olhos da cobra eu senti como se visse dentro dela uma das infinitas pontas de fios de luz que ligava cada criatura viva desse mundo. E assim senti que nossas mentes se conectavam e ela podia ver tudo sobre mim e eu sobre ela. Assim ela hesitou, parando a tentativa de ataque.

– Perdoe-me senhorita. Não sabia que você era um Wander. Não existem muito por ai, você deve imaginar. Perdoe-me mais uma vez – uma voz em minha mente me fez acreditar que era a cobra se comunicando comigo.

Manaus, 25 de novembro de 2015

Voltei à realidade como quem tivesse viajado pelo tempo e espaço por alguns segundos. Voltei a sentir tudo que sentia naquele instante. Toda fúria, todo ódio. Havia voltado ao mesmo instante como se o tempo tivesse parado.

Imaginei que poderia fazer a mesma coisa que fiz com a cobra. E decidi superar o nojo e olhei profundamente nos olhos dele. e vi a mesma ponta de fio de luz. Mas agora vi a ligação com seus impulsos elétricos cerebrais que se distribuíam por todo o seu corpo. Assim como as linhas de fluxo sanguíneo. Era como se fossem cordas que poderia puxar ou arrancar. E eu queria explodí-las.

Em um grande espasmo seguido de um grito de extrema dor, ele se jogou para trás retorcendo cada músculo do seu corpo e jorrando sangue por todos os seus orifícios. Estava morto instantaneamente.

Ainda tentava entender o que aconteceu, respirando ofegante quando ouvi passos seguidos de aplausos. Virei para trás e vi uma ruiva com um blazer e uma saia executiva branca com detalhes em azul escuro e longos cabelos ondulados. Ela estava encostada na parede de uma loja no canto mais escuro da rua a uns vinte metros de mim.

– Pelo visto não terei trabalho de te ensinar muita coisa – ela disse com tom de satisfação.

– qu..quem… é… você? – sussurrei ainda consternada com tudo aquilo.

Ela saiu da escuridão com um sorriso no rosto.

– Você pode me chamar de Helena!

Sobre o Autor

Contador, Cozinheiro, Vocalista, Ator, Roteirista, Diretor de Esquetes de Humor, Escritor, Colunista e mais outras coisas que não consigo lembrar.

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