Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos – Parte 10

Publicado em 10 de janeiro de 2016 | Por Naka | Contos, Literatura, Manaus, Revoadas do Uirapuru

(Essa é a décima parte deste conto. Leia as outras aqui: Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4Parte 5Parte 6Parte 7Parte 8 e Parte 9)

Revoadas do Uirapuru – Contos na Paris dos Trópicos

Parte 10: O último voo de Liam

Manaus, 24 de novembro de 2015

Enis caminhava lentamente ao meu redor, seus passos eram coordenados e precisos. Entoava palavras em tupi e ao olhar para o chão, vi um circulo com runas desenhadas com tinta preta.

O que estranhava é que aquelas runas não pareciam em nada com inscrições indígenas… no máximo se pareciam com runas nórdicas.

Estava familiarizado com escritas tribais e dos povos nativos das Américas desde os sete anos de idade quando morei alguns anos com minha tia antropóloga logo que meus pais se separaram. Ela tinha uma casa incrível na Praça 14. Uma floresta inteira dentro de seus módicos 150m².

Dentro: um quarto, uma cozinha, um banheiro e uma sala que ela fez um atelier, algo extremamente despojado com telas semiacabadas espalhadas pelos cantos… Manchas de tinta por todo o chão em suas diversas cores…  

Se fechar os olhos ao lembrar, seria capaz de sentir o cheiro de tinta sem o menor esforço. Havia livros por toda parte, em sua maioria relacionada à antropologia. Aquele era um lugar tão pequeno, mas de lá saíram minhas melhores lembranças.

Mas não era hora de me ater a lembranças. Estava preso novamente por Enis e há muito tempo já não sentia Helena. Era como se nossa conexão tivesse sido cortada. Ela não iria me salvar dessa vez. Eu tinha que me virar sozinho.

– Em 1900 eu falhei ao tentar tomar o corpo de Eduardo Ribeiro, você atrapalhou meus planos e desde então venho vagando por beócios, medíocres e toda a escória da humanidade. Nenhum outro corpo além desses malditos me aceitava. – Enis disse interrompendo meus pensamentos

– Eu preciso do corpo de um Wander! Eu preciso de um corpo que possa torná-lo imortal. E por mais de um século eu esperei você, Liam. Procurando-o de todas as formas possíveis! Você virou minha nova obsessão! – ele continuou.

– Mas finalmente consegui te achar! E dessa vez Helena não irá lhe salvar! O Circulo está finalmente concluído! Agora tenho total controle sobre você! E dessa vez você será meu! Mas não se preocupe… Como prova de que sou um homem piedoso, deixarei você vagar uma última vez. Você terá um minuto. Será apenas para sentir uma última vez essa sensação maravilhosa. E enquanto você vai, eu cuido do seu corpo pra você! – continuou enquanto sorria sadicamente.

Eu sabia que não podia voltar para o mesmo corpo. E sabia que em um minuto não daria tempo de pedir ajuda de ninguém. Também sabia que precisava voltar ao meu corpo de qualquer forma ou morreria. Eu realmente tinha que seguir as regras de Enis e precisaria sair dessa sozinho.

Olhei então ao meu redor. O círculo… os cânticos em Tupi proferidos por Enis… É isso! Já sabia o que fazer!

Manaus, 12 de abril de 1991

Acordei e vi que estava no Atelier da minha tia. Consegui voltar a 1991. E estava dentro da minha tia Ana. Tudo estava exatamente como lembrava. Os quadros, o cheiro de tinta, as pinturas, pedaços de ceras de vela derretida na base da janela, e os livros!

Eu precisava ser rápido. Eu tinha apenas um minuto. Acessei a memória da tia Ana para saber o livro certo. Eu me lembro dela ter me contado sobre certo ritual de uma tribo Baré que ela dizia que eles faziam uma espécie de viagem astral onde eles saiam de seus corpos. Mas não lembrava onde estava.

Ao conseguir a informação fui até a pilha de livros o mais rápido que pude. Passei por mim mesmo com 7 anos de idade, extremamente concentrado, brincando de pintar. Passei a mão na cabeça dele. Ele se virou e sorriu pra mim e voltou a se concentrar na pintura.

Comecei então a revirar os livros… tinha que estar lá. O tempo passava e não sabia se conseguiria encontrar a tempo. Se passasse do tempo perderia meu corpo e nada disso teria valido a pena.

Faltando poucos segundos para completar o minuto, achei o livro e revirei suas páginas o mais rápido possível. Quando senti que começava a voltar pro meu corpo. No último instante, um segundo antes de voltar, vi a página que procurava.

Manaus, 24 de novembro de 2015

Voltei ao meu corpo e me senti um intruso. Parecia não ser mais meu corpo. Era como se fosse um hospedeiro dentre de mim mesmo.

As runas do círculo negro abaixo de mim brilhavam. Enis estava sentado em uma cadeira à minha frente. Seu corpo não se mexia mais e sua máscara me impedia de ver se ele estava de olhos abertos.

Não. Ele estava aqui. Ele estava tomando meu corpo como se fosse o verdadeiro dono. E eu sentia isso. Sentia que estava começando a perder o controle de mim mesmo.

Logo logo minha existência sumiria e eu não seria nada além do que uma lembrança enquanto Enis usava meu corpo para atingir sua imortalidade.

 – Preparado para perder sua existência para sempre, Liam? – a voz de Enis ecoava dentro de mim – quais são suas últimas palavras? – disse sarcasticamente.

Eu sabia que era realmente minhas últimas palavras. Em questão de instantes meu corpo pertenceria a Enis. Já não conseguia me mexer. Só conseguia falar e por muito pouco tempo.

– sim, tenho minhas últimas palavras, Enis – disse sorrindo.

– e quais seriam elas? – Enis disse em tom pretencioso.

Mo-sem… Mo-îebyr… Eté Mo-sem… Eté Mo-îebyr… Mo-eté!!!

O círculo então se despedaçou em um estrondo que fez o prédio inteiro balançar e uma parte da cidade tremer. Havia tinta preta espalhada por todo cômodo. Eu tinha o controle do meu corpo novamente. Corri.

Corri o mais rápido que pude para fora do apartamento. E ao fechar a porta vi que os seguranças vinham atrás de mim.

Cheguei às escadas. Inicialmente pensei em descer os degraus e correr dali.  Mas pra onde eu iria? Iria continuar fugindo? Enis iria atrás da minha família, da Silvia… e de todas as pessoas com quem me importava… e se me entregasse ele usaria meu corpo e iriam achar que era eu que estaria fazendo seja lá o que ele pretendesse fazer.

Não. Não adiantaria fugir. Eu só poderia fazer uma coisa: ir para cima.

Conforme subia as escadas eu sentia que o ritual havia se concretizado. Eu não consegui cancelá-lo, apenas consegui alguns minutos e logo Enis voltaria.

A porta da cobertura estava aberta.

Entrei e corri para a borda. Não tinha reparado que já era noite a algumas horas. Era possível ver boa parte da cidade daqui.

Lembrava agora de tanta coisa… Tantas lembranças.

Quando na adolescência dormia no telhado da casa de um amigo.

Do apartamento de uma ex-namorada que ficávamos na varanda da casa dela em silêncio por horas olhando o dia se pôr.

Do passeio de asa delta motorizado que fiz com meu tio aos treze anos.

De todas as vezes que viajara de avião e sempre escolhia a janela para olhar por alguns momentos a cidade.

Tantas lembranças vinham agora. Tantos momentos que apreciei a cidade do alto.

Se eu soubesse que tudo terminaria assim, teria aproveitado mais. Sim, a frase clichê que todo mundo pensa veio a mim também. É uma frase tão poderosa que não poderia pensar diferente.

Ouvi barulho da porta da cobertura. Os capangas de Enis chegaram.

Sentia novamente a perda do controle começando. Enis estava voltando e dessa vez era por definitivo.

Olhei para o horizonte mais uma vez. E lembrei em um instante de todos os grandes momentos da minha vida e das pessoas que fizeram parte dela.

Lembrei dos meus pais, lembrei da Silvia… e lembrei de Helena.

Abri os braços, me inclinei e pulei.

Cair do alto de um edifício é sempre uma sensação inexplicável.

São aqueles instantes em que você sabe que nada pode fazer.

Como um caminho sem volta.

Tão rápido que não daria tempo de pensar em nada conclusivo.

Agora seria realmente a hora das minhas últimas palavras.

E eu só tinha quatro em mente.

gûyrá nhe’eng gûatá Îy


Sobre o Autor

Contador, Cozinheiro, Vocalista, Ator, Roteirista, Diretor de Esquetes de Humor, Escritor, Colunista e mais outras coisas que não consigo lembrar.

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