Por que a comunidade geek não se lembra do 5 de novembro?

Publicado em 5 de novembro de 2017 | Por Jan Santos | Críticas, Quadrinhos

“Em V DE VINGANÇA, também não há muitos personagens alegres e descontraídos; e é pra gente que não desliga na hora do noticiário“.

Essa é a frase que encerra o prefácio que David Lloyd escreveu para a edição de V de Vingança publicada no Brasil pela Panini Books em 2012. Lloyd é a pessoa que ilustrou essa que é uma das histórias de maior impacto cultural escrita por Alan Moore na década de 1980, e que todos conhecemos devido à adaptação escrita pelas irmãs Wachowski e dirigida por James McTeigue em 2006.

Nesse mesmo prefácio, o próprio Alan Moore, lenda viva no que diz respeito à roteiros de quadrinhos (sendo também o autor de obras como A Saga do Monstro do Pântano e Watchmen), confessa que, ao produzir a história, que hoje é considerada uma ode à luta contra sistemas totalitários (a.k.a. ditaduras), admite certa ingenuidade política ao escrever sobre o anarquista vestido de Guy Fawkes, ao dizer que supôs ser “necessário algo tão dramático quanto um ataque nuclear para lançar a Inglaterra no fascismo”.

Moore ainda nos fala sobre a época em que escreveu o prefácio, já no terceiro mandato de Margaret Thatcher, no qual os partidos conservadores já declaravam sua permanência no governo, o estado policial se consolidava e rumores sobre campos de concentração para portadores do HIV e o apagamento do conceito de homossexualidade eram ouvidos com frequência. Dadas tais circunstâncias, era de se esperar que Moore se achasse ingênuo mesmo.

Lembrem, lembrem do 5 de novembro, a traição e a trama da pólvora 

Não, não é necessário que uma guerra nuclear aconteça para que o fascismo se espalhe. Basta que a pessoa certa fale, na hora certa, a coisa errada: e eis instalada a situação que a obra de Alan Moore e seu vingador mascarado nos avisavam lá nos anos 80.

Se chegou a ler até este ponto do texto, você pode estar se perguntando: e sobre o que é isto mesmo? Bem, eu apenas vi a necessidade de nos lembrarmos do 5 de novembro.

Segundo a História, essa é a data na qual Guy Fawkes, o homem cujo rosto inspirou a máscara de V e integrante um movimento de insurgentes católicos que desejavam depor o rei protestante James I da Inglaterra, a quem acusavam de fomentar a perseguição contra católicos na Inglaterra, foi descoberto sob o Parlamento com pólvora suficiente para explodir todo o lugar. Foi para manter o ideal de resistência contra um governo opressivo que V teria adotado o rosto de Fawkes em sua cruzada, e clama tanto à população inglesa quanto ao seu leitor: lembrem do 5 de novembro.

V de Vingança, ao contrário do que possa parecer à primeira vista, não é um mero panfleto sobre anarquia: é um aviso sobre apatia política, e o que resulta de nos calarmos frente ao roubo da liberdade. A necessidade de nos lembrarmos do que Moore percebia como o significado do 5 de novembro vem justamente do momento perturbador pelo qual nosso país passa, e do pensamento constante de que tudo é por culpa nossa, porque nos omitimos quando, à luz do dia, fomos acuados, feitos de reféns de políticas que em nada favorecem a população que mantém o país funcionando.

Governos deveriam ter medo de seu povo

Justamente nós, leitores, consumidores ávidos de bens culturais, que até um tempo atrás nos considerávamos o futuro esclarecido, que consideravam inferiores os que não liam Asimov ou confundiam os heróis da DC e da Marvel. Nós deixamos isso acontecer, ou pior, participamos ativamente dessa onda conservadora que vem tomando conta do país, ideologia que é contrária a toda cultura que consumimos.

Não aprendemos nada com Star Wars, Jogos Vorazes ou o próprio V de Vingança? Não demos utilidade às artes que tanto nos orgulhamos de consumir? E de repente, somos nós os que desligam a TV na hora do noticiário.

Somos nós que achamos suficiente comentar sobre brasileiros pobres sendo alimentados com ração feita de restos, sobre museus sendo repreendidos pela ignorância dos hipócritas, sobre justificativas para a violência contra a mulher, sobre discursos que semeiam o ódio como algo natural.

Escrevi este texto simplesmente porque fico me perguntando: o que falta acontecer com nosso país para que nos lembremos, lembremos do 5 de novembro?

Ideias são à prova de balas


Sobre o Autor

é graduado em Letras – Língua e Literatura Portuguesa – pela Universidade Federal do Amazonas e atua como professor e revisor. É autor dos livros Evangeline – Relatos de um Mundo sem Luz (2013), A Rainha de Maio (2016) e O Dia em que Enterrei Miguel Arcanjo e outros contos de fadas (2017).

Comentários

  • Juliana Aquino

    Às vezes penso nisso aprendemos tanto sobre igualdade, respeito e liberdade nos quadrinhos mais não praticamos isso no nosso dia a dia vemos isso com a falta de respeito das mulheres Gamers ou fãs de quadrinhos de cultura pop.mais não para aí nós nerds temos que levantar a voz para construir um país melhor

    • Jan Santos

      Tantas referências, tanto material, tanta informação que eu n acredito que n seja possível o mínimo de empatia com questões alheias. E é tudo q heróis e heroínas mais nos ensinam