Pixar: Ensinando a crescer e a sonhar – Parte 3: Wall-e

Publicado em 16 de abril de 2016 | Por Natan Rocha | Cinema, Colunas

Já parou pra pensar como eram aqueles filmes mudos antigos, em preto e branco, onde a tecnologia do cinema não possibilitava que os atores falassem em cena (como Chaplin, Buster Keaton entre outros) e, ainda sim, eles conseguiam dizer mais do que muitas superproduções atuais conseguem com seus diálogos rasos e expositivos?


Acredite ou não, esses filmes foram as principiais influências para Wall-e (2008, direção de Andrew Stanton). A ideia inicial para o filme surgiu em um almoço, durante um brainstorming das principais mentes criativas da Pixar. Dentre várias histórias que surgiram na mesa como Procurando Nemo e Monstros S.A, surgiu também uma questão que levou à criação do robozinho mais querido da Pixar:

E se o último robô funcionando na face da Terra ficasse sozinho, depois que até mesmo os humanos deixassem o planeta?

W-121: ÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊWALL¥E (right)

Essa foi a premissa para a criação de Wall-e, que, não falando nem uma palavra além de seu nome (e o de Eva) e emitindo sons engraçados, conquistou o coração de muitos que se apaixonaram pela sua simplicidade e inocência. É interessante notar que inicialmente o filme não tem nenhum diálogo além dos sons inorgânicos dos robôs (a primeira fala humana só acontece aos 39 minutos de filme!), mas, mesmo assim, a atenção é fisgada graças à performance e interação de Wall-e com Eva, que surge posteriormente em cena para completar a sua missão “diretriz” secreta.

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Pode-se dizer que Wall-e seria uma mistura de comédia romântica com 2001, Uma Odisseia no Espaço, mas isso limitaria a crítica mordaz que a película faz ao estilo de vida dos humanos no futuro: vivendo não só na ociosidade como também sem tempo para tirar os olhos das telas e interagir entre si.

A personalidade de Wall-e vai contra essas imposições, uma vez que quando o robô está na Terra, assiste todo dia religiosamente uma fita VHS de “Alô, Dolly”, musical de 1969, no qual sugere que a interação humana é o segredo para ser feliz.

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Tendo isso como base, pode-se estabelecer porquê a personalidade de Wall-e se desenvolveu ao ponto em que os humanos a bordo da nave AXIOM não mais sabiam: ele é um ser essencialmente sozinho por imposição, mas suas virtudes estão justamente em poder notar as coisas ao seu redor com uma curiosidade inocente que muitas vezes acaba criando confusão, mas que também ajuda as pessoas a verem um pouco além do que está à sua frente: outras pessoas iguais.

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Cada vez mais estamos caminhando com o olhos grudados nas telas do nossos smartphones e usando-os até mesmo para evitar certos tipos de contato a qualquer custo (no trânsito, em um restaurante com os amigos, etc). Acabamos confundindo a vida virtual com a real.

A mensagem que a Pixar passa nesse filme (entre tantas outras) é que, talvez, precisamos sair da Terra para poder vê-la. Mais além, para poder nos ver. Para poder vermos uns aos outros.

E para isso, palavras nem sempre são necessárias. Wall-e bem sabe.


Sobre o Autor

é estudante de publicidade, da vida, do universo e tudo o mais. Gosta de manhãs chuvosas e de noites serenas. Só ainda não entendeu qual é a das quinta-feiras. Tem um monte de camisas nerds e de bandas descoladas mas ainda não sabe como se livrar delas.

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