Pixar: Ensinando a crescer e a sonhar – Parte 2: Procurando Nemo

Publicado em 8 de abril de 2016 | Por Natan Rocha | Cinema, Colunas

Procurando Nemo (Dir. Andrew Stanton, Lee Unkrich)

Nemo é um peixe-palhaço que tem uma nadadeira de tamanho diferente da outra e é o único sobrevivente da sua família. Seu pai é super protetor por ter somente este filho. Chega o dia em que Nemo tem que ir à escola e, enfurecido com a superproteção do seu pai, desobedece suas recomendações e vai em direção ao alto-mar. A rebeldia acaba por colocá-lo em uma situação em que ele é sequestrado por um mergulhador.

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Marlin (pai de Nemo) se desespera e tenta nadar atrás do seu filho, mas perde-o de vista. Ao passar por um cardume de peixes, ele dá de cara com Dory, uma peixinha que sofre de um tipo de amnésia temporária e esquece as coisas no segundo seguinte em que elas acontecem.

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Confesso que quando fui ao cinema assistir “Procurando Nemo” estava interessado mesmo era no filme de piratas que tinha um tal de Jack Sparrow, interpretado por Johnny Depp. Mas, como estava acompanhando meu primo e meu tio (à época meu primo tinha 8 anos e eu já era quase um adulto, tinha 12) não tive como argumentar muito e o jeito foi assistir aquele filme chato pra crianças do peixinho que era sequestrado.

O que eu não imaginava era que os 5 primeiros minutos de filme iriam impactar tanto a minha visão sobre ele quanto me deixar melancólico sobre o que eu vi em seguida, ali mesmo, na sala escura do cinema. Se tornar independente é um desejo de muitos, principalmente quando se vive sob cuidados excessivos e exagerados dos pais. Nemo entende bem isso.

Só não consegue entender o porquê de tanta preocupação de seu pai.

 

Esse filme é mais um exemplo de como a Pixar é mestra em explorar as relações entre seus personagens, não importando se são peixes, humanos ou brinquedos. Aqui, você vê isso, mas além, você vê a relação complicada de um pai e um filho.

Desentendimentos sobre o que podemos e o que não podemos fazer ocorrem o tempo todo quando se está crescendo. Às vezes, pensamos que podemos fazer uma coisa, quando todo mundo acha que a gente não pode ou não somos capazes, daí sentimos aquela necessidade de provar que podemos sim superar expectativas e mostrar pra todo mundo onde podemos chegar. A ação do filme se desenrola quando Nemo, cansado da superproteção do pai com cuidados excessivos desrespeita as “normas” nadando em mar aberto.

As mudanças e os conflitos que Nemo sofre partem da sua necessidade de autoafirmação, não só em relação à seu pai, como em relação a todos os seus colegas do coral, levando a tomar a atitude precipitada de se aproximar do “popô” – o barco do dentista (P. Sherman 42, Wallaby Way, Sidney) – que o leva, posteriormente, à sobrinha maníaca, Darla.

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Quando desafiado, Nemo tenta quebrar a barreira do seu próprio limite, uma vez que está cansado deste ser imposto o tempo todo por Marlin, mas acaba indo longe demais…

Por outro lado, a preocupação de Marlin não é sem fundamento (afinal o filho foi o único sobrevivente de uma tragédia), mas o surgimento de Dory em cena (continue a nadar!) o ajuda a esclarecer que, embora ele preze sempre pelo cuidado e segurança do filho em primeiro lugar, nem sempre o que acontece com ele estará em seu poder de decidir. O que ele precisa é acreditar que o filho pode ultrapassar as próprias dificuldades sozinho:

“Se você não deixar nada acontecer com ele…
Então nada vai acontecer com ele!”
Dory.

A nadadeira da sorte (a menor) é uma metáfora para compor uma diferença em Nemo (mais um ponto para Pixar, sacada genial!), mas isso não o invalida de maneira alguma, apenas agrega fatos que deixam Marlin mais preocupado. Após todos os perigos que passou, a prova de fogo que Marlin passa é quando Nemo entra na rede para ajudar Dory. Ele hesita alguns instantes antes de deixa-lo ir. É o momento em que o pai aceita a independência do filho. Quando os peixes que estavam sendo pescados escapam com o mantra de Dory e a rede cai sobre Nemo… Marlin, desesperado, vai ao seu encontro e vê o filho como o viu da primeira vez, quando ainda era uma ovinha.

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O medo da perda às vezes nos move a tentar proteger sempre aqueles que amamos, mas nem sempre isso está ao nosso alcance. O começo de Procurando Nemo teve um impacto maior em mim e o aperto em meu coração foi um pouco maior pois havia acabado de perder uma tia para um câncer; e ver seu marido e seu filho ao meu lado no cinema abraçados, refletiu diretamente na tela, com Marlin perdendo a esposa para o predador que os atacou.

No decorrer da vida, sempre nos sentiremos inseguros em relação a algo, assim como também seremos subestimados, não só por outros mas também por nós mesmos. Procurando Nemo é um dos meus filmes favoritos justamente por conseguir explorar essa relação não só sobre pai-filho sob a ótica universal da paternidade, mas também sobre as relações de família, confiança e amor.

 

*Lembrando que Procurando Dory têm estréia prevista para esse ano ainda.


Sobre o Autor

é estudante de publicidade, da vida, do universo e tudo o mais. Gosta de manhãs chuvosas e de noites serenas. Só ainda não entendeu qual é a das quinta-feiras. Tem um monte de camisas nerds e de bandas descoladas mas ainda não sabe como se livrar delas.

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