Pixar – Ensinando a crescer e a sonhar | Parte 1: Toy Story

Publicado em 2 de abril de 2016 | Por Natan Rocha | Cinema, Colunas

O que será que há de tão especial em filmes como Toy Story, Procurando Nemo, Monstros S.A, Divertida Mente etc? Será que enquanto nossas barrigas doem de tanto rir, ou nossos olhos se enchem de lágrimas, não há nada ali que signifique mais do que dinossauros, brinquedos, monstros e super-heróis realmente queiram dizer? A Pixar,  empresa responsável por nos trazer estas deliciosas aventuras, tem a resposta.


Pixar significa “Pixels + Art”, e o seu princípio básico é auto-explicativo:
Fazer arte através de Pixels.

A primeira obra da Pixar que assisti (Toy Story) marcou não só minha infância como de muitos marmanjos que choraram quando Andy doou seus brinquedos em Toy Story 3. Hoje em dia, filmes em CG ou CGI não são mais novidade pra nenhuma criança, mas nos anos 90 aquelas renderizações em 3D que chegavam 99% perto do que era real e colorido, como tudo o que existe de verdade no nosso mundinho, não eram só filmes… aquilo era mágica.

Mágica essa que a Pixar faz e continua fazendo com maestria. Além de possuir a incrível habilidade de criar conexões entre quem assiste e as personagens, o que torna seus filmes especiais não são só as técnicas rebuscadas de computação gráfica – que só melhoram a cada ano -, mas sim a carga emocional de cada história que ela conta. Se você parar pra pensar, cada personagem tem um coração. Um coração pulsante de vontades, desejos e sonhos… assim como nós.

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Talvez o mais admirável não seja as lições de moral, mas o estímulo ao desenvolvimento e ao crescimento pessoal nas entrelinhas de suas películas. Woody, Nemo, Sr. Incrível Remy são alguns exemplos que poderíamos citar, mas isso seria se limitar apenas aos protagonistas de seus filmes. Existem vários aspectos do Universo Pixar que poderiam ser analisados, como personagens secundárias, situações e acontecimentos extraordinários, mas todas as histórias são desenvolvidas com base em dois princípios: mudanças e diferenças.

A seguir, uma análise de como os conflitos em alguns filmes são abordados em prol do crescimento de seus personagens (e, por que não, de nós mesmos?):


Toy Story (1995, Dir. John Lasseter)

Quem não conhece o xerife de corda mais temido do oeste e que solta frases clássicas como “Tem uma cobra na minha bota!”? Amado por seu dono (Andy), Woody (Tom Hanks), por ser o boneco preferido, desempenha a função de líder e guia dos outros brinquedos que habitam o pequeno universo de brincadeiras do garoto, e todos o respeitam.

Mas quando Buzz Lightyear (Tim Allen) aterrissa no quarto, os brinquedos passam a admirar a nova persona, tratando Woody como velho e ultrapassado. O sentimento de rejeição que Woody sofre não só por parte de seus amigos, mas também pela pessoa que considera ser a mais importante, seu dono, o que é o cerne para que ele tome umas atitudes impensadas, chegando a ponto de derrubar Buzz da janela do quarto para o quintal (embora tenha sido um “acidente”).

O ponto é que Woody sente ciúmes de Buzz porque a partir do momento que o astronauta surgiu na vida dos brinquedos, ele deixou de ser o centro das atenções e “coisas estranhas” começaram a acontecer. Quem nunca se sentiu trocado ou deixado de lado quando um amigo conhece um novo amigo e só fala dele? Ou, como era no meu caso haha, quando surge um irmãozinho novo e todos começam a dizer que você vai ficar no canto? O sentimento de rejeição atinge em cheio a autoestima, principalmente quando todos que você gosta não dão a mesma atenção que costumavam dar a você. Buzz é o fator diferente que surge na vida de Woody, o “novo” que ele não está pronto para aceitar com medo que seu lugar no coração daqueles que estima seja tomado.

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Por outro lado, Buzz acredita ser algo que não é (um astronauta de verdade) e essa crença terá um impacto na maneira em como ele se enxerga posteriormente. Em seguida, quando os dois vão parar na casa do vizinho “anjinho” Sid, é Buzz quem tem uma queda na autoestima (literalmente!) após ver um anúncio na TV e descobrir que é um brinquedo. Interessante notar é que Buzz, assim como Woody, também pensava ser “especial” pela sua natureza e é Woody quem tenta recuperar sua autoestima quando o astronauta se enxerga como realmente é: “um brinquedo de criança!”. Reconciliando-se com Woody, os dois tornam-se amigos, deixando suas diferenças de lado e aceitando um ao outro.

Às vezes temos que olhar para nós mesmos em relação às pessoas que convivemos e amamos, e as pessoas que não curtimos muito, para aprender que, por mais que sejamos diferentes, não faz diferença se podemos ser amigos. E, às vezes, temos que aceitar quem somos de verdade. Afinal, é muito mais válido saber que temos amigos e pessoas que gostam da gente pelo o que realmente somos do que pelo que aparentamos ser. É como diz a música: “Os outros podem ser até bem melhores do que eu / Bons brinquedos são, porém / Amigo seu, é coisa séria / Pois é opção, do coração viu...”


Sobre o Autor

é estudante de publicidade, da vida, do universo e tudo o mais. Gosta de manhãs chuvosas e de noites serenas. Só ainda não entendeu qual é a das quinta-feiras. Tem um monte de camisas nerds e de bandas descoladas mas ainda não sabe como se livrar delas.

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