Pirando o cabeção com o enredo de Silent Hill: Shattered Memories

Publicado em 15 de dezembro de 2015 | Por Antonio II | Games

Uma coisa a dizer: sou fã alucinado da franquia Silent Hill. E que fiquei inconsolável por um bom tempo ao saber que o projeto de Kojima-Del Toro para a franquia foi cancelado em meados de abril desse ano. E claro, acredito que vocês – gafanhotos aprendizes de zangões vingadores – que acessam o Mapingua Nerd já devam saber a essa altura do campeonato que o ancião aqui é aficionado em games do gênero Survival Horror. Logo, mais lógico pra mim que amar Silent Hill e seus mistérios… somente o amor que tenho por Minha Senhora!

Sendo assim, por que não viajar na maionese e teorizar por universo tão ricoso e cheio de avenidas tortuosas que o de Silent Hill? Quem não nasceu ontem e curte games com certeza já ouviu falar da série da Konami, e também sabe que a mesma é um dos pilares do Horror no mundo dos games. Silent Hill, desde seu debut (em 1999) tem arregimentado fãs e ditado tendências do gênero. Cada game novo trás um universo repleto de simbolismos sobre o caráter humano e suas relações com a soturna Silent Hill, onde elementos da Filosofia, Psicologia e Psicanálise se misturam à Parapsicologia e o Sobrenatural para compor aventuras inesquecíveis ao gamer que se delicia com excelentes enredos. E hoje vos trago divagações minhas sobre o arrebatador Silent Hill: Shattered Memories… lançado discretamente em 2009 para Wii, Playstation 2 e Playstation Portable  (vulgo PSP)…produzido pelo Climax Studios (que também produziu a pequena pérola Sillent Hill: Origins) e que alcançou rapidamente o status de cult pelos sorumbáticos adoradores  do gênero Survival.

Mas deixa eu falar um pouco mais sobre o game antes de conversarmos sobre seu enredo…

Bom, é chover no molhado falar aqui que o game é uma reimaginação do primeiro capítulo da cultuada franquia da Konami e que o pessoal do studio Climax resolveu recontar a sua história de uma nova forma. Isso quer dizer que Silent Hill: Shattered Memories não é idêntico ao game original lançado para o vovô Playstation. Na verdade, eu  diria que apenas o argumento é o mesmo. Fora isso, temos um roteiro totalmente diferente que leva o gamer a uma irresistível realidade paralela à da trama original. E o que é mais legal: mais do que nunca Silent Hill: Shattered Memories nos apresenta um mundo de simbolismo que permite diferentes interpretações sobre as coisas que acontecem durante o desenrolar dos acontecimentos. E é sobre isso que vou conversar aqui com vocês!


 Mas antes de continuar, um aviso:

Se você nunca jogou o game é melhor parar por aqui, pois muitas informações contidas na nossa conversa serão spoilers pesadíssimos. Agora se você já terminou o game, venha comigo! Vamos especular! Silent Hill: Shattered Memories é um game apaixonante e no mínimo merece isso de seus fãs…


Preâmbulo: Sobre o que parece simples… mas não é.

O game começa nos apresentando o psiquiatra Dr. K. Estamos em seu consultório realizando testes quantitativos. Logo em seguida, passamos a controlar o escritor Harry Manson em busca de sua filha de sete anos desaparecida Cheryl. Ambos sofreram um acidente de carro na estrada e quando Harry acorda, Cheryl não está ao seu lado. Então,  com apenas uma lanterna na mão andamos pelas ruas da escura e nevoenta Silent Hill procurando pistas sobre Cheryl. Argumento simples, não?! Parece. Mas não é. O gamer a partir daí se insere em uma série de intricados acontecimentos que levam  a um desfecho surpreendente e aterrador. No decorrer da fases do jogo logo se percebe que a história de Silent Hill: Shattered Memories se desenvolve em três planos: o consultório psiquiátrico (que precede o início de cada fase), a cidade envolta em neve e neblina (onde Harry tem liberdade de explorar os locais com sua lanterna e seu celular em busca de pistas sobre o paradeiro de Cheryl), e o “pesadelo” (onde ele tem que escapar das criaturas “Raw Shocks” para se salvar). E no fim do game, a revelação: quem está na verdade realizando tratamento psiquiátrico é Cheryl. Harry Manson morreu há 14 anos atrás.

WHAT D’A F@(#*#*@&!!!???

 Sim, a ação do game se passa dentro da cabeça de Cheryl…

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Os Símbolos são as respostas: a Psicanálise e Silent Hill: Shattered Memories

Shattered Memories é um game peculiar dentro do universo de Silent Hill pois apesar da franquia ter evoluído em seu Sistema de Combate, a Climax decidiu de forma radical remover isso da ação. E foi uma atitude arriscada que no entanto se revelou chave para a construção da narrativa e dos planos onde ela transcorre. Tá, eu sei. Vocês devem agora estar pensando na seguinte pergunta :

“Se Harry Manson morreu, Cheryl está viva e é ela quem está realizando tratamento psiquiátrico com Dr. K, como podemos compreender de forma objetiva a história do game?”

 É que tudo o que acontece no game é fruto das lembranças e da imaginação de Cheryl. Na verdade, pode-se afirmar que todos os componentes da ação são símbolos que apontam para o que realmente está ocorrendo na mente dela: o embate entre a Verdade Presente e os censores do Ego de Cheryl.

“Espera, espera … agora você enrolou tudo! Ego, Verdade Presente…o que isso significa e qual a relação desses conceitos com o game?”

 Calma, gente… vamos lá. A teoria psicanalítica sobre a Personalidade Humana divide-a em três forças: o ID, Ego e o Superego. O ID é responsável pela produção dos sentimentos primais do ser humanos na busca incessante pelo prazer. O Ego é o censor mental que protege a integridade física/psíquica do indivíduo frente às constantes decepções e frustrações da vida, mediando os desejos do ID e as regras do Superego. Finalmente, o Superego é o censor social que tenta anular a busca desenfreada pelo prazer do ID e equilibrar as decisões do Ego com o meio em que as pessoas convivem socialmente. Toda vez que passamos por uma frustração, nossa mente (através do Ego) busca uma forma de fazer com que ela não se torne uma “Verdade Presente” (que nos levaria a uma profunda e persistente reflexão sobre a frustração, podendo produzir algum tipo de distúrbio ou neurose), resolvendo-a através dos mecanismos de defesa mentais como a Negação, a Idealização, a Sublimação… só para citar alguns.

Esse parece ser o caso de Cheryl.

 Eu sei, talvez vocês ainda estejam achando tudo isso meio complicado de se entender mesmo já tendo jogado o game e terminado todos os seus finais. Mas não se preocupem, é fácil. Continuem lendo!

As frases do Dr K no fim do game são relevadoras da situação de Cheryl. Enquanto a ação do game acontece somos levados a crer que Harry e Cheryl tem uma relação saudável de pai e filha, certo? Porém, no fim da aventura descobrimos que além de Harry estar morto,Cheryl o idealizou como um “pai perfeito”, quando na verdade ele esteve muito longe de ser isso. Ora, Cheryl tem na realidade 25 anos anos e perdeu seu pai aos sete. Em alguns momentos da trama podemos nos deparar sutilmente com isso, como quando Michelle faz sua primeira aparição no game e Harry conversa com ela sobre Cheryl. Harry diz que procura sua filha de sete anos Cheryl, e Michelle diz que conhece uma Cheryl que estudou em Midwich, mas que ela não tem apenas sete anos e que inclusive parece com Harry, mostrando uma foto dela a ele. Outros pontos importantes que revelam isso são dois encontros que Harry tem com Cybil e em um a policial fala que “ele não pode ser Harry Manson pois Harry Manson está morto” e em outro diz que conhece a Cheryl e mostra uma foto dela presa.

Assim podemos construir o cenário em que Cheryl se estabelece como uma garota problema, que passou por inúmeros tratamentos psiquiátricos sem sucesso (isso é dito no início do game pelo Dr K). No final do game é revelado que Cheryl não superou a morte de seu pai e que por isso estava indo à Light House receber tratamento psiquiátrico. Ora, a moça perdeu seu pai aos sete anos, idade em que (segundo Freud) o Complexo de Electra está em franca ação no indivíduo bem como o florescimento da sexualidade infantil. Com o desenvolvimento do sentimentos de hostilidade para com a mãe e amor para com o pai que é característico da idade, torna-se razoável pensar em que a morte de Harry tenha prejudicado a superação de tal complexo produzindo transtornos comportamentais e neuroses em Cheryl.

Mas Cheryl não enlouqueceu. Isso fica claro no game através da existência do plano do “Pesadelo”, que é o que vamos falar um pouco agora…

Os Raw Shocks. Ou, mecanismos de defesa mental de Cheryl.

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Então, estamos no ponto de nossa conversa em que Cheryl sofre com a morte do pai de maneira que não consegue equilibrar tal fato psicológicamente. Quando isso acontece com qualquer pessoa, o inconsciente produz mecanismos que impedem o confronto direto com tal problema, resolvendo-os a nível de consciente. Porém, tais mecanismos podem acabar modificando a realidade dos fatos. No caso de Cheryl, ela simplesmente anulou suas memórias reais sobre seu passado com o pai, transformando-as em acontecimentos idealizados. Enquanto estamos controlando Harry na Silent Hill gélida e nevoenta em busca de pistas de Cheryl encontramos seis tipos de pistas: os mementos, as mensagens de texto e voz (haunting voices) recebidas através do celular, as sombras de Cheryl, os fantamas, e os diálogos entre as pessoas de Silent Hill. Os mementos, as mensagens de texto e voz, as sombras de Cheryl e e os fantasmas são na verdade ecos (echoes) do verdadeiro passado de Cheryl emergindo vez ou outra como lembranças nebulosas de algo que ela não sabe ao certo se viveu. Sim, o Ego de Cheryl está operando como censor durante o game, impedindo que qualquer informação contraditória ao passado idealizado por seu inconsciente seja confrontada com o seu consciente. Se vocês prestaram atenção no game, cada vez que Harry descobre fatos reveladores de sua vida ( como quando Cybil diz que ele não pode ser Harry Mason pois o mesmo está morto, ou quando descobre que era casado) entramos na fase do “pesadelo,” onde somos perseguidos por criaturas bizarras: os Raw Shocks.

O que representariam eles?

 Se aceitamos que Cheryl não deseja inconscientemente conhecer a Verdade Presente, então fica fácil inserir os Raw Shocks dentro desse conceito. De fato, esses monstros representam os mecanismos de defesa que o inconsciente de Cheryl lançou mão para preservar sua integridade psíquica, pois a mesma não suportaria o confronto direto com a terrível Verdade Presente. Porém lembrem-se que Cheryl está em tratamento psiquiátrico. Logo, o conflito está em curso durante o game. Os Raw Shocks (mecanismos de defesa do Ego de Cheryl) não destroem Harry, apenas querem dominá-lo. Querem ele inerte, sem forças para continuar buscando a Verdade Presente. E o mais intrigante: quando Harry é capturado pelos Raw Shocks e “morre” o que acontece? Os Raw Shocks, o abraçam, o acariciam. Estranho, não!? Tal ação pode nos levar a supor algumas coisas que vão ser explicadas no próximo tópico da nossa conversa. Continuem lendo!

Silent Hill e seus Mistérios: os personagens secundários e o Complexo de Édipo/Electra de Cheryl

Enquanto Harry está em busca de pistas de sua filha Cheryl, acaba tendo contato com vários personagens diferentes. Curiosamente a grande maioria é do sexo feminino. Alguns deles desenvolvem histórias paralelas que nos levam a refletir sobre algumas possibildades em relação ao caráter de Cheryl. O que seriam esses personagens? Pessoas reais que fizeram parte em algum momento da vida conturbada dela? Ou seriam inflexões psíquicas que contornam como reforço ao caráter de Cheryl e sua não superação do Complexo de Electra?

Tomemos Lisa como exemplo. Em dado momento do game, ela e Harry conversam sobre relacionamentos. Lisa fala sobre suas dificuldades de encontrar o homem ideal. Com lucidez de quem entende suas próprias neuroses, afirma que todos os homens com quem se relacionou de uma forma ou de outra se assemelhavam ao seu pai. Ainda, temos Michelle, garota com quem Harry presencia uma discussão com o namorado que mora em outra cidade. Fica claro que Michelle idealizou o seu relacionamento com o namorado, pois enquanto ela esperava que ambos ficassem felizes juntos, ele não podia mais sustentar a relação pois simplesmente já não era a mesma pessoa que a conheceu e nem nutria mais os mesmos sentimentos em relação a ela.

É interessante aqui lembrar também que o game deixa pistas de que Michelle e Harry tiveram algo através das haunting voices e mensagens de texto durante a fase da Midwich High School. E que Cheryl de alguma forma sabia disso, nos “abrindo” assim possibildades sobre o seu significado dentro do contexto psíquico de Cheryl. Seria Michelle uma projeção de seus sentimentos deturpados a respeito de seu pai? Ou um símbolo afetivo de significado pregresso para Harry?

Dahlia: o “X” da questão?

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O caso mais intrigante é o de Dahlia. Em Silent Hill: Shattered Memories a personagem é apresentada como uma menina desajustada (tal qual Cheryl) que tem ligações ambíguas com Harry. Sua conduta “junkie” é demonstrada claramente ao longo do game. Em alguns momentos ingere bebidas alcoólicas, fuma. Sua maneira de se expressar está longe das boas maneiras de Lisa e Michelle. E ela parece saber de coisas ruins que envolvem o passado de Harry, pois sempre está falando dele e de Cheryl apesar de nunca relatar detalhes. Em certos momentos Dahlia tem aparência de mais velha e é apresentada ao gamer como sendo esposa dele (quando Harry chega à sua casa) e em outros ela é a “garota problema“ que faz Harry perder o juízo e é sugerido que ambos tiveram “algo mais”. Entretanto, em dado momento da trama a esposa de Harry surge como alguém de aparência completamente oposta à de Dahlia…

Teria o amor de Cheryl por seu pai ultrapassado a barreira moral das relações pai-filha? Seria esse indício de que Dahlia é a transposição do desejo sexual dela por Harry? Nos momentos finais do game, descobrimos que Cheryl não tem boas relações com sua mãe (Dr K diz a ela não é o “monstro” que Cheryl acha que é). Poderia ser possível o amor de Cheryl pelo pai ser tão intenso a ponto de estabelecer uma competição de apreciação imaginariamente travada com a sua mãe? Para a Psicanálise sim. Quando a criança que outrora recebia toda a proteção dos pais percebe que eles também estão inseridos em outros contextos que não se relacionam com a dedicação total a ela, surgem então sentimentos antagônicos como fruto desse novo tipo de percepção do mundo em que vive. No caso de uma menina, o amor que sentia pela mãe passa a se misturar com o ciúme e a competição em relação ao pai, pois ao mesmo tempo em que a ama, não consegue admitir que o pai na verdade “pertença” à sua mãe. A isso chamamos de Complexo de Electra (ou Complexo de Édipo se a relação for filho-mãe). E toda pessoa passa por essa situação na infância, sendo que normalmente tal impasse é resolvido pela mente de forma racional permitindo assim que o indivíduo consiga transpor a barreira do “eu como o centro do universo” para a sua inserção no meio social. Porém, se tal complexo não for resolvido (não ocorrendo assim a superação do egocentrismo infantil) o indivíduo poderá sofrer de neuroses e distúrbios que o desajustarão em alguns aspectos de sua vida social.

Com Dahlia nos deixando tantos indícios, é plausível imaginar que Cheryl se encaixe nesse contexto. E que todas as suas idealizações foram na verdade produzidas a partir da transformação do tabu em algo aceitável moralmente e socialmente. Claro, uma paixão, um ardor sexual pela figura paterna só poderá vir à tona senão por outros mecanismos psíquicos que o disfarce. Para a mente, é mais lógico se desfazer (ou mesmo justificar) de lembranças de conteúdo traumático para preservar a própria integridade emocional do que enfrentar a Verdade Presente. No caso de Cheryl, seu ego taxou como “danosas” as lembranças do seu verdadeiro passado com o pai. E por isso temos a figura de Dahlia no game como projeção de Cheryl sobre o papel sexual de sua mãe em relação ao seu pai.

Epílogo: o fim é só o começo em Silent Hill: Shattered Memories

Gente, esse texto foi realizado a partir de muitas jogatinas de Silent Hill: Shattered Memories, leituras de textos sobre Psicanálise entre conversas com gente da área (mana Syl). Claro, são apenas minhas conclusões. O universo do game é fascinante e atribuo isso ao fato dos temas tratados nele ser de sentimentos tão familiares a cada ser humano. Perda, encontro, amor e desamparo. Quem nunca sentiu isso antes?

Espero que vocês tenham gostado, então é isso, inté mais!

Sobre o Autor

perdeu as contas de quantos mantras realizou para zerar aos onze anos Faxanadu. Suas habilidades crescentes já na infância o levaram a fazer uso da Master Sword todas as vezes em que houve necessidade (desde a Criação até a Era o Caos e da Prosperidade). Atualmente anda às voltas com os reinos de Boletaria, Lordan e Drangleic porém nunca esquecendo que deve estar de pé às seis para levar luz àqueles que necessitam. Gosta de caqui, sustos, games, comida-que-mata, poesia, pringles, fantasia-fantástica, pôr-do-sol... e Pepsi! Não necessariamente nessa ordem.

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