O longo inverno de Game of Thrones é possível? | Yeah Science!

Publicado em 18 de agosto de 2017 | Por Alberto Carvalho | Ciência, Colunas, Yeah Science!

Esse post não contém spoilers, é sério

Não é novidade que o clima em Westeros não é nada convencional. As estações do continente desafiam a física, durando por anos e mudando sem previsibilidade, mas mesmo sendo uma história de fantasia, há quem queira uma explicação lógica para isso.

Peter Griffit e Thomas Douglas que trabalham no Laboratório de Pesquisa e Engenharia de Regiões Frias do Departamento de Defesa no Alasca aproveitaram suas horas livres para tentar achar uma explicação científica para o longo inverno que finalmente chegou.

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Os Vulcões

Nas Crônicas de Gelo e Fogo, as erupções vulcânicas causaram o fim da civilização valiriana. Então sabemos que o planeta sofreu erupções vulcânicas maciças. Essas erupções podem causar mini-invernos ou anos sem primavera. Isso acontece porque os vulcões expulsam o ácido sulfúrico na troposfera e na estratosfera, o que cria camadas de nuvens que refletem o sol antes que ele possa alcançar o planeta. É como colocar um espelho na atmosfera alta.

Peter também conta que, uma vez que está lá em cima, o ácido se espalha facilmente. Dentro de duas semanas a erupção do Krakatoa, na Indonésia, em 1883, por exemplo, já havia espalhado ácido por lugares muito distantes de seu epicentro, chegando até mesmo a Inglaterra.

Valíria, antes da queda

A Queda de Valíria, contada nos livros, tem alguma semelhança com o evento do Krakatoa. As Quatorze Chamas (série de vulcões que compunham a maior parte da Península Valiriana) entraram em erupção com força suficiente para causar terremotos e ondas de maré. Da mesma forma, as erupções de Krakatoa levaram a múltiplos tsunamis devastadores.  

Thomas também acredita que os vulcões podem ser a principal causa do clima louco de Westeros. Ele aponta para as formações de rocha de Decão, na Índia, que foram causadas pela atividade vulcânica, a maior parte aconteceu há cerca de 66 milhões de anos, durante erupções que podem ter durado 30 mil anos.

Alguns geoquímicos acreditam que as emissões vulcânicas que causaram aquela formação rochosa levaram gás e partículas para atmosfera que mergulharam a Terra no inverno por anos. Então, se houvesse vários vulcões em erupção a cada ano ou dois, por 10 anos, perto de Westeros, algo similar a erupção das Quatorze Chamas,  isso poderia causar um inverno de anos.

A Longa Noite

De acordo com as lendas de Westeros, a Longa Noite foi um inverno que durou uma geração, com uma escuridão tão completa que as pessoas nunca viram a luz do dia. Isso certamente seria estranho para um mundo que, de outra forma, experimenta anos regulares, já que as pessoas que ali habitam comemoram o dia de seu nome, ou aniversário, ou a volta do planeta de Westeros em torno de um sol.

É altamente improvável que qualquer parte do planeta se afaste do sol para toda uma geração, embora isso não seja impossível. Portanto, esta completa escuridão pode resultar de um céu cheio de poeira. 

As explicações científicas sobre como qualquer pessoa viva poderia sobreviver a uma geração de trevas exigiria esforço mental suficiente para outro post. Então, novamente, se a maioria das pessoas morresse durante a Longa Noite, especialmente aqueles que vivem em condições particularmente extremas ao norte d’A Muralha, isso poderia explicar em parte o motivo pelo qual o exército do Rei da Noite é tão grande.

O ciclo de Milankovitch

Os atributos da rotação e da órbita da Terra mudam ligeiramente ao longo do tempo, essas mudanças têm grandes efeitos sobre o clima do planeta.

A forma do caminho orbital de um planeta é chamada de excentricidade. A nossa é ligeiramente elíptica, ao longo de cerca de 100 mil anos, essa elipse estica ligeiramente e depois encolhe novamente. Quando a órbita da Terra é a mais elíptica, nossas estações são mais extremas do que quando a órbita está na sua forma mais circular.

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A obliquidade, ou inclinação axial, é a razão de termos as estações. É por isso que o hemisfério norte está mais próximo do sol do que o hemisfério sul durante metade do ano e vice-versa. A inclinação flutua, entretanto, entre 22,1 graus e 24,5 graus, e leva cerca de 40 mil anos para mudar de um extremo para o outro.

As mudanças na inclinação axial de um planeta afetarão mais os climas ao redor dos pólos, uma vez que essas áreas recebem diferentes quantidades de luz solar dependendo da obliquidade.

Mas o que isso tem a ver com Game of Thrones? Bem, no início do século XX, o matemático sérvio Milutin Milankovitch calculou quando, no passado, cada um desses ciclos estava em seu ponto mais extremo. Ele também determinou, crucialmente, quando estes extremos ocorreram ao mesmo tempo. Em seguida, correlacionou esses pontos de confluência com as maiores idades de gelo da Terra. Seu trabalho foi amplamente ignorado até 1976, quando amostras de sedimentos de águas profundas confirmaram que todas as principais mudanças climáticas nos últimos 450 mil anos, de fato, correspondem aos ciclos traçados por Milankovitch.

Portanto, se você imaginar que se Westeros estivesse em um planeta no qual esses ciclos fossem muito mais rápidos ou mais fortes, então o continente poderia entrar e sair do inverno ou verão extremo em uma escala de uma década. Sendo assim, se o ciclo de Milankovitch variasse tanto, as estações seriam completamente imprevisíveis para um habitante desse planeta, como fica bem claro na obra de Martin.

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Bom, o próprio George R. R. Martin já afirmou que a explicação para tudo isso será de fantasia (visto que As Crônicas de Gelo e Fogo são obras de literatura fantástica) e não uma explicação de ficção científica. Mesmo assim, isso não diminui o ímpeto de vários pesquisadores para achar uma explicação racional para o que acontece em Westeros, o que é muito legal de acompanhar e discutir. Quero só ver eles explicarem os dragões.


Sobre o Autor

estuda administração, produz vídeos para o Youtube (youtube.com/plotbr) e adora dormir. Ama cinema, quadrinhos, tecnologia e estranhamente também gosta de esportes.

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