Jovens cientistas do Amazonas desenvolvem bactéria capaz de remover mercúrio da água

Publicado em 1 de abril de 2016 | Por Ayrton de Oliveira | Manaus, Notícias

Um grupo de jovens, estudantes da Universidade Federal do Amazonas, junto com duas estudantes da Universidade Estadual do Amazonas, se reuniu e desenvolveu uma bactéria geneticamente modificada que possui a capacidade de retirar o mercúrio da água contaminada. Agora, os jovens estão fazendo um crowdfunding para que possam apresentar a ciência brasileira em Boston.

Eu conversei com a estudante Julie Lima, uma amiga de longa data, que me contou um pouco melhor sobre esse projeto. Confere aí.


MN: Como começou esse grupo de pesquisa?

JL: O grupo começou em 2012, quando o professor Carlos Gustavo Nunes, agora orientador do projeto, participou da competição iGEM, em Boston – US, como ouvinte. Quando retornou a Manaus, ele estava entusiasmado com as novidades que vivenciou e recrutou alguns alunos para montar um time voltado a esta competição.

MN: Como é esta competição que vocês querem participar?

JL: A competição-foco inicial do projeto chama-se iGEM, é um evento de biologia sintética anual e mundial, destinado a estudantes universitários de graduação, bem como do ensino médio e estudantes de pós-graduação. Equipes multidisciplinares trabalham durante todo o verão para construir sistemas de engenharia genética usando peças biológicas padrão chamado Biobricks. Equipes iGEM trabalham dentro e fora do laboratório, criando projetos sofisticados, e se esforçando para gerar uma contribuição para as suas comunidades e para o mundo.

O TecNOx é uma competição muito recente, nesse ano de 2016 será sua primeira edição, e segue a mesma premissa do iGEM, com o diferencial de ser apenas voltado para a América Latina. Dessa forma, oferece a oportunidade para as equipes impossibilitadas de participar do iGEM por questões financeiras, de participar de uma competição de menor custo. Essa edição inicial será em Beunos Aires, na Argentina.

MN: Já participaram em outros anos, gostariam de contar como foi?

JL: A primeira competição que o time participou foi em 2013, no Chile, uma competição regional do iGEM na América Latina. Na época foi apresentado outro projeto, com o foco em biorremediação de óleo residual de fritura com uma bactéria da própria região. A equipe ganhou o prêmio de melhor apresentação, fato que, além de gerar maior notoriedade para o grupo, os impulsionou a perseverar e, futuramente, surgiu a ideia da Mercury Bacter.

No nosso segundo ano na competição, além de mais habituados às rotinas laboratoriais e às demais atividades que o iGEM demanda, foi a primeira vez que diversificamos o time. Foi ótimo ter pessoas de outras áreas trabalhando conosco porque eles nos ensinavam muito sobre suas nuances, e nós também tínhamos muito orgulho em poder ensinar o pouco que sabemos a eles. Ficamos muito surpresos com o resultado final e, claro, muito felizes com a medalha de ouro. É muito bom poder mostrar para todos que não devemos subestimar as capacidades dos nortistas, e que temos as mesmas condições que os outros estados, ou países mais desenvolvidos!

MN: Como começou a ideia do projeto?

JL: Estima-se que há cerca de 3000 toneladas de Mercúrio na região amazônica. Grande parte deste está acumulado no organismo de seres vivos de toda a cadeia alimentar. Nos peixes, o Mercúrio pode ser facilmente acumulado. Um fato triste, porém interessante, é que a nossa região consome cerca de 30Kg de peixe/pessoa/ano. Muitas vezes mais que as outras regiões do país. Com isso, a população ribeirinha é a mais atingida por injúrias causadas por contaminação por Mercúrio (perda da visão periférica, transtornos digestivos, problemas no sistema nervoso central, entre muitos outros sintomas), uma vez que os peixes são sua maior fonte de proteínas. Descobrimos que existiam bactérias que podiam sobreviver em ambientes contaminados, e decidimos, então, usar nossos conhecimentos em genética para modificá-las e melhorar suas funções naturais e aferir-lhes novas funções, a fim de descontaminar efluentes contaminados e desenvolver a nossa região.

MN: Como é trabalhar com ciência aqui em Manaus?

JL: Temos sorte de a Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas (FAPEAM) ser uma das fundações estaduais que mais liberam recursos para a pesquisa. Infelizmente, desde o ano passado, muitos recursos tem sido cortados, o que ocasiona na estagnação de muitos projetos. Até nós, em 2015, perdemos o investimento que recebemos nos anos anteriores, o que culminou na nossa ausência na competição no último ano. Muitos laboratórios tem sido afetados pela falta de recursos, também. Apesar disso, reconhecemos que estamos em uma situação mais favorável que vários outros estados.


Conheça um pouco melhor os jovens que estão participando da pesquisa: 


Você pode colaborar com o projeto nesse link. O site também aceita boleto bancário, então todo mundo pode ajudar. Vale a pena ligar o Nerd Power? Ajuda aí a galera!

Sobre o Autor

"Ele é um deus, ele é um homem, ele é um fantasma, ele é um guru." Apaixonado por filmes, costumo ser o Batman nas horas vagas e San Junipero até às 00:00. Sou fascinado por Doctor Who, e queria ter uma caixa azul maior por dentro. Fora isso, já falei que amo filmes?

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