Inumanos: o que houve com o Universo Marvel na televisão?

Publicado em 6 de outubro de 2017 | Por Jan Santos | Entretenimento, Quadrinhos, Resenha

Como marvete, ignorei as impressões negativas dos trailers, os comentários da ComicCon e os 4% de aprovação da série. Eu resisti. Por quê? Porque sou marvete com orgulho, porque estamos vendo uma bateria de séries medíocres ganharem infinitas temporadas, porque não vejo motivo de não dar uma chance se fiz isso até com Punho de Ferro.

Desde a morna estreia da excelentíssima Agents of S.H.I.E.L.D. em 2013 e os planos de levar os Defensores para a Netflix, o universo televisivo da Marvel nos presenteou com algumas das melhores histórias que nós, fãs, poderíamos pedir, dando vida a personagens que não gozam da mesma visibilidade que o Capitão América e o Homem-Aranha. Pudemos ver uma nova e melhorada versão do Demolidor, conhecer Jessica Jones e Luke Cage, acompanhar histórias complexas e bem elaboradas povoadas por personagens menores que em Agents ganharam destaque, como Tremor, Harpia, o Motoqueiro Fantasma, vários representantes da H.Y.D.R.A. e, finalmente, os inumanos.

A nova minissérie da Marvel, apesar de insana (uma supercomunidade que vive secretamente na Lua terrestre), tem todo o escopo para dar certo, considerando que, quem acompanha as missões do agente Phil Coulson em Agents, já sabe o que é de fato um inumano. Na série, conhecemos a Família Real, o topo da hierarquia dos seres humanos cujo potencial genético lhes permitiu desenvolver habilidades extraordinárias.

Na trama dos dois primeiros episódios, vemos Maximus (Iwan Rheon), irmão do rei dos inumanos, Raio Negro (Anson Mount), dando um golpe de estado e usurpando o poder da Família Real, capturando a Rainha Medusa (Serinda Swan), sua irmã Crystal (Isabelle Cornish) e os chefes da Guarda Real, Gorgon (Eme Ikwakor)  e Karnak (Ken Leung). Com a ajuda do fofíssimo Dentinho (Lockjaw), que merecia mais tempo de tela, a Família Real foge para a Terra e ficam perdidos no Havaí, enquanto Crystal é mantida refém por Maximus.

Uma coisa precisa ficar clara: há um potencial enorme ali, mesmo considerando a caracterização amadora que vinha nos desanimando desde a primeira foto oficial do elenco (o que inclui o cabelo da Medusa, que funciona melhor do que o esperado quando se mexe). Existe a possibilidade de esse potencial ser alcançado ao longo dos próximos seis episódios? Sim, mas considerando a natureza dos problemas que vimos nesses dois primeiros, é algo extremamente improvável.

Eu não quero parecer o cara crítico que leva em conta particularidades técnicas da produção, mas não dá para desconsiderar que algumas (senão a grande maioria) delas contribui para que Inumanos não seja sequer um guilty pleasure. A primeira, e essa fica evidente a cada minuto, é a interpretação dos atores. Se prestarmos atenção, ninguém se esforça para transmitir uma sensação de urgência que um golpe de estado exige, ninguém parece de fato preocupado, irritado com a traição do vilão, nem incomodado com as repercussões da coisa toda, inclusive o próprio Maximus.

As cenas de luta, que exigem comprometimento físico dos atores, também carecem de qualquer impacto, resultando em momentos constrangedores como uma das mortes mais Zorra Total que já vi em qualquer lugar (inclusive no Zorra Total) e uma cena de coreografia marcial que faz Punho de Ferro parecer uma boa referência.  

Há quem se esforce, como os intérpretes de Medusa e Gorgon, mas os personagens foram escritos de forma tão genérica que nos leva a outro quesito que prejudicou muito a série: o texto não nos faz gostar ou se importar com nenhum deles. Cada um dos protagonistas soa extremamente mimado, antipático, mais preocupado em continuar sendo parte da realeza do que com a iminência de guerra para a comunidade inumana. Sendo assim, Maximus soa mais como o herói que os inumanos precisam, e a Família Real, os parasitas que se aproveitaram por anos da servidão de seu povo.

A ocorrência insistente de flashbacks também incomoda bastante. Se alguns tentam dar plano de fundo para os protagonistas, outros retomam cenas que acabamos de assistir. Tipo, ACABAMOS de assistir. Enquanto telespectador, fico imaginando se me acham estúpido o suficiente para esquecer algo que vi há menos de dez minutos.

Ao final das 1h20min que os dois episódios duram, não temos por quem torcer, não temos o que defender, tampouco por que voltar para mais um episódio. O que é extremamente triste, porque eu realmente gostaria de ver um novo espaço dentro do Universo Marvel sendo explorado como se deve, conhecendo personagens que nos impeçam de enjoar das equipes de heróis que já conhecemos tão bem e vendo arcos icônicos dos quadrinhos ganharem vida nas telas.

Sabendo que as desventuras de Danny Rand, o resultado bem qualquer coisa que foi Os Defensores (que também rendeu uma resenha minha), o final próximo de Agents of S.H.I.E.L.D. e Inumanos foram os segmentos mais recentes da Marvel para a televisão, eu preciso perguntar: o que fucking está havendo com a divisão televisiva do MCU?

Pelo menos o Dentinho é a coisa mais fofa.


Sobre o Autor

é graduado em Letras – Língua e Literatura Portuguesa – pela Universidade Federal do Amazonas e atua como professor e revisor. É autor dos livros Evangeline – Relatos de um Mundo sem Luz (2013), A Rainha de Maio (2016) e O Dia em que Enterrei Miguel Arcanjo e outros contos de fadas (2017).

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