Gham – O conto que inspirou Revoadas do Uirapuru

Publicado em 29 de abril de 2016 | Por Naka | Contos, Literatura, Manaus

Gham abriu os olhos que ainda ardiam relutantemente. Seu corpo cansado se recusava, mas ela levantou mesmo assim. Suas insistências…Suas esperanças… Mesmo sem propósito, existiam e queimavam dentro de seu corpo. Corpo que agora estava mais leve de uma forma que ela não conseguia entender…

Pensamentos… algo que ela quase havia esquecido, agora retornavam…Lembrando-a que sua mente agora estava ativa… Questionou-se inicialmente quanto tempo ela havia dormido…

– Por exatos mil anos tens dormido, querida Gham – Uma voz feminina e potente quebra sua linha de pensamento.

– E sim, a “nossa” gravidade é diferente da que você está acostumada. Sente-se! Levantar só a deixará mais confusa. – ela continuou.

Gham olhou em direção à voz que escutava e viu uma mulher, ela aparentava ter seus quarenta anos e seus cabelos eram prateados e sua pele era alva e usava vestes cerimoniais que por mais que Gham nunca tivesse visto algo assim, um sentimento novo trazia familiaridade a tudo aquilo.

Gham lembrou daquelas modelos das revistas que costumava ler. E lembrou também de sua vida… Seus amigos, sua família… e de Hiro. E logo ela foi tomada pelo desespero.

– Acalme-se! Disse a mulher. Você precisa esquecer seu passado. Ele só trará uma dor desnecessária. Seu mundo morreu… Seus pais seguiram suas vidas, seus amigos cresceram, tiveram filhos, netos… Assim como Hiro que casou e formou uma linda família… ele envelheceu e por fim morreu assim como todas as pessoas que um dia você conheceu.

Mesmo assim, Gham não conseguia se controlar e chorava compulsivamente.

Está tudo em nossos arquivos, nós acompanhamos seu mundo há milhares de anos. Mas o importante é que Você foi nossa escolhida. Você possui o espírito mais bondoso da sua época. Não há ganância, egoísmo ou qualquer outro mal em seu ser. Você foi o único ser realmente puro que existiu nos últimos três mil anos depois Dele.

– Dele? – Gham questionou.

– Sim! Ou você esqueceu sua religião? Não estou aqui para contar histórias, mas sim para lembrá-la porque está aqui!

Você foi escolhida para dar VIDA ao seu planeta.

Nesse instante, Gham parou de chorar.

– Venha comigo… há algo que quero lhe mostrar! – E assim as duas saíram do quarto e a mulher continuou.

Desde muito antes de sua época seu planeta estava destinado a morrer. E ele ia. Mas devido à tecnologia de seu povo, vocês conseguiram manter a terra viva por mais mil anos, mas agora, é impossível e não há tecnologia que possa reverter tudo que sua raça fez e por isso vocês também estão destinados à extinção.

Não sei que sentimentos a tomarão quando lhe propuser a escolha a seguir.

– Veja! Este é o seu mundo como você se lembra… o planeta azul, como preferimos chamar. Mas infelizmente ele não é mais assim… Hoje ele está cinza e somente o deserto existe, e as cidades agora esquecidas lutam para sobreviver em suas cúpulas de vidro. Mas se você quiser… você será capaz de torná-la azul novamente…Somente você pode dar vida a seu planeta. Mas isso custará a SUA vida. Você morrerá por seu mundo e fará parte dele. Você será a alma do seu mundo! E enquanto você tiver forças a natureza que há nele irá se manter. Essa é uma escolha sua. Se você aceitar, seu planeta e sua raça irão prosperar. Mas se recusar, seu mundo e tudo que você conhece sumirão.

– Pelo seu olhar você já sabe minha resposta! – Gham disse sem rodeios.

– Sim! Senão não a teríamos escolhido.

– Então não preciso responder.

– Se você prefere assim.

– Mas lhe aviso que devido sua escolha decidimos lhe dar um presente… e não há nada mais precioso que conhecimento. Qualquer informação que você quiser lhe será concedida… mas apenas uma informação.

Gham hesitou por um tempo, ela queria saber mais sobre aquela mulher, quem ela era e porque se preocupava tanto com a Terra e os humanos, mas ela sabia que saber aquilo não faria diferença e mesmo que houvesse maldade neles ela não poderia impedi-los.

Mas só uma coisa lhe interessada de verdade.

– Quero que me contes como Hiro viveu.

– Seu desejo é uma ordem! – a mulher disse.

Nós a trouxemos para cá no dia que ele ia se declarar para você, e graças a essa atitude você manteve sua pureza. Deixamos um bilhete como se tivesse sido escrito por você se despedindo de todos. Fizemos com que acreditassem que você havia cometido suicídio e Hiro ficou devastado ao saber da notícia.

– Meu hiro…

– Ele se afundou em um mundo que nem mesmo ele conhecia. Ele se perdeu em desespero e profunda tristeza. Mas ele foi salvo, por uma garota. Eles se casaram e tiveram dois filhos… mas algo o impedia de ser feliz… O amor que ele mantinha por você o seguiu pelo resto de seus dias. Você era a melhor lembrança que ele tinha. Você era quem ele pensava quando olhava as estrelas. E não houve um dia em que ele não pensasse em você e não chorasse. Ele viveu e morreu sem ter grandes desejos ou ambições… a vida dele perdeu sentido sem você, e…

– Pare! Já tenho informações suficientes…

– Tem certeza?

– Sim, e… já estou pronta!


N.E: Há dez anos eu escrevi esse one-shot por causa de um término de noivado. Escrevi como uma espécie de homenagem e despedida. E alguns meses atrás lembrei dele ao iniciar o Revoadas do Uirapuru. Em minha opinião pessoal “Gham” continua tão bonito quanto era dez anos atrás.


Sobre o Autor

Contador, Cozinheiro, Vocalista, Ator, Roteirista, Diretor de Esquetes de Humor, Escritor, Colunista e mais outras coisas que não consigo lembrar.

Comentários

  • Eliane Solar

    Caramba primeira vez que leio algo escrito por ti O.o fiquei super curiosa pra saber mais hahhahaha Agora que voce despertou minha curiosidade vou ler Revoadas do Uirapuru !!!

    • Mario Nakamura

      Que bom que gostou! espero que goste do Revoadas! =)