O curta-metragem de ficção “O Necromante” nasceu de uma inquietação nerd. Cresci jogando RPG com os amigos e meu favorito sempre foi o “Vampiro, a máscara”, um jogo de fantasia urbano e sombrio em que um dos personagens possui um poder chamado “visão cadavérica”. Ao usar essa habilidade o jogador pode olhar nos olhos de um morto e enxergar a última imagem que este viu em vida. Desde garoto isso me pareceu o poder perfeito pra usar num filme de detetive, mas a ideia só veio se completar anos depois quando, ao relembrar jogos antigos de RPG pra computador, surgiu a questão: se um mago usa uma substância química chamada Mana como combustível pros seus feitiços, não existe a possibilidade dele simplesmente ficar viciado nela?

O trecho acima é parte do depoimento que o roteirista e diretor Ricardo Manjaro me deu sobre seu filme, O Necromante, produzido pelo Pula Pirata com o Velho 7 e que está sendo oficialmente levado a público hoje, em um lançamento exclusivo para o Mapingua Nerd.

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Em Necromante, um homem usa de Necromancia, a arte da morte, ajudando a polícia a resolver casos violentos na noite sombria da cidade, sob o véu da realidade e do outro lado do crime.

Ricardo Manjaro divide a direção com Edson Presto. A produção é de Roberto Russo; Caio Tasso; Milton Silva; Ricardo Manjaro e Edson Presto, com o diretor de fotografia Leandro Rezende, contando com William Souza como assistente de fotografia. Maquiagem de Frank Padilha, som direto de Caio Tasso, trilha sonora de Moysés Carvalho, e no elenco do curta temos Breno Castelo; Sidney de Paula; Diego Bauer; Amanda Magaiver e Fátima Santagata. Os realizadores pretendem ainda levar o filme a festivais, e aqui ficamos na torcida para ver o cinema amazonense crescendo cada vez mais.

Você confere a segur o restante do relato de Ricardo Manjaro:

Se um mago usa uma substância química chamada Mana como combustível pros seus feitiços, não existe a possibilidade dele simplesmente ficar viciado nela?

Isso parecia dar a densidade que faltava pra encarar a ideia e escrever o roteiro. O nosso personagem seria dependente de uma substância que suga sua vitalidade em troca de poder.

Definido o tom sombrio da estória, eu e o Edson Presto, que produziu e dirigiu o curta comigo, entramos no território dos filmes de Horror, mais especificamente o subgênero do Detetive Sobrenatural. Típico de filmes derivados de quadrinhos ocultistas como Hellblazer, Dylan Dog e Hellboy.

A próxima parte do desafio envolveu criar o modus operandi desse mago da morte. O jeito que ele opera num mundo equivalente ao nosso, pra trazer algum realismo e envolver as pessoas nesse ritual investigativo. O problema era como representar o metafísico e o sobrenatural sem parecer falso, sem parecer “mais uma homenagem a um filme” ao invés de simplesmente um Filme.

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Nós abraçamos a ideia de que tudo na natureza se expressa através da vibração. Um conceito da Teoria das Cordas na Física Quântica, e de algumas correntes espirituais, que afirma que o nível de vibração de um elemento fundamental define a forma como a energia se manifesta no universo.

Eu também não entendo nada de física quântica, mas as ideias que um conceito assim provocam quando associadas a espiritualidade são estimulantes. Dentro desse universo sobrenatural proposto, seriam espíritos simplesmente outras formas de expressão da mesma coisa vibrando em outros níveis de existência? Assim como a água transita entre estados nunca deixando de ser água?

Então seria de alguma forma possível nos sintonizar com eles através do som?

A consequência natural dessas associações foi a de que a principal linguagem do filme seria a sonora, sendo essa a última peça no quebra-cabeças do Necromante – a constatação de que o universo do personagem principal é musical.

Para traduzir o mundo de Nestor, o necromante, tivemos o privilégio de ter Moysés Carvalho, músico e produtor musical amazonense trabalhando na composição da trilha sonora original. Seu projeto Rainbug nos atraiu e ele terminou se transformando na verdadeira voz desse filme.

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Finalmente lançamos essa que é a versão definitiva do nosso esforço coletivo, então não vou me aprofundar mais na lógica do universo do Necromante. Bastou-nos criativamente e me empolga de pensar até hoje, três anos e três meses depois da realização desse material, o quão louco fomos de encarar isso de forma independente.

“O Necromante” foi um projeto bancado pelos amigos do PulaPirata e do Velho7 e tendo como ator principal o parceiro recorrente Breno Castelo.  Todos fãs de universos fantásticos e cinema. As referências principais da nossa equipe foram o longa independente canadense “Beyond the black rainbow”, de 2010, e o clássico e inalcançável “O Iluminado”, de 1980. Eles serviram para nos nortear na busca por um clima que permeasse o filme de estranheza e negatividade sinceras.

E assim acho que prefiro não focar no que eu considero serem defeitos e irregularidades na execução do filme. Fazer o curta foi um grande aprendizado e deixo o resto para o público.