Drag local impressiona ao usar o folclore como forma de protesto

Publicado em 7 de setembro de 2017 | Por Jan Santos | Artes, Entrevistas, Folclore, Manaus

Nos últimos anos, a arte drag tem tido um maior espaço na cultura mainstream, em grande parte graças ao advento trazido pelo reality show norte-americano Rupaul’s Drag Race, que também ajudou a pavimentar o caminho de um considerável número de profissionais da área, que hoje explodem nas rádios e programas de TV brasileiros. Contudo, ao contrário do que prega o senso comum, drag está longe de ser uma arte limitada à cômica caracterização de um homem como mulher, como nos mostra Emerson Munduruku, biólogo e artista que dá vida a Uýra, drag que vem chamando atenção em Manaus por sua originalidade e engajamento em questões ambientais e político-sociais.

“Uýra é a Mata que vem às ruas da cidade, através de intervenções visuais e performances em dança e teatro, reivindicar a diversidade humana e gritar pelos seres das matas dilaceradas. Suas ruas são os atos públicos/políticos de luta pelos direitos das populações às quais a humanidade é negada”, assim é descrita por Emerson, com a teatralidade e o compromisso de quem produz uma arte engajada.

O visual também é diferenciado, pois a drag não bebe da mesma fonte das colegas de profissão, trocando as clássicas técnicas de maquiagem por materiais orgânicos – como galhos, folhas, flores e tintas artesanais – ao compor sua persona, como descreve Emerson: “Gosto da liberdade de criar estéticas sem limites de convenções, e é no chão das matas onde encontro meus acessórios”. A tendência, chamada de maquiagem intuitiva, já foi tema de várias oficinas ministradas por Emerson na cidade.

Série ELEMENTAR. Foto: Keyla Serruya

“O Folclore ou, mais especificamente, o conjunto de seres encantados e narrativas originárias das coisas do mundo, a partir da sabedoria indígena, fazem parte e emanam de Uýra, pois representam uma forma bastante ancestral de se relacionar com cada elemento da Natureza”, afirma Emerson ao explicar o conceito de sua identidade drag. “Cada coisa que surgiu no mundo e cada ser mítico/encantado, a partir da sabedoria ancestral, não são apenas elementos estruturais que compõem uma teia natural, mas também são cargas energéticas que sustentam a Vida. Uýra existe a partir dessa carga mística, energética”.

Série FOGO. Foto: Matheus Belém

O artista é enfático ao destacar o engajamento de Uýra em ações educativas em áreas ribeirinhas e em movimentos urbanos de preservação do meio ambiente. Quanto a estranheza que sua persona pode causar nesses espaços, Emerson é extremamente consciente sobre como utilizá-la em prol de sua proposta: “Os mitos ao redor do mundo e, especialmente na Amazônia, são representações de seres sobrenaturais que, ao mesmo tempo, encantam pela beleza e geram medo com o mistério. Uýra é essa Beleza e Medo.”

O movimento drag, apesar de muito antigo, ainda sofre preconceito dentro e fora do próprio movimento LGBTQ+, e é frequente a associação da prática com perversão moral e sexual. Mais uma vez, o artista se apropria da percepção que os outros têm de seu trabalho e a converte em crítica social: “Achamos que é justamente moral que falta à sociedade atual, pois a humanidade segue assinando acordos internacionais sobre Direitos Humanos e Questões Ambientais, enquanto coisas fundamentais como o direito à Vida de tantas pessoas são negadas e apagadas, e enquanto o sistema capital segue trocando ecossistemas e sua biodiversidade por cifras de bolso. Muita hipocrisia e estupidez, nenhuma moral.”

Uýra em performance no Teatro Amazonas. Foto: Jhonatan Oliveira

E mesmo a quem foca apenas na identidade de gênero de Emerson/Uýra e tenta ignorar o trabalho de conscientização ao qual a drag se dedica, a mensagem é muito clara:

“Uýra grita com seu corpo aos olhos humanos que somos a Mata, a Natureza. Que queimar as matas é queimarmos a nós mesmos.

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Capa: Matheus Belém


Sobre o Autor

é graduado em Letras – Língua e Literatura Portuguesa – pela Universidade Federal do Amazonas e atua como professor e revisor. É autor dos livros Evangeline – Relatos de um Mundo sem Luz (2013), A Rainha de Maio (2016) e O Dia em que Enterrei Miguel Arcanjo e outros contos de fadas (2017).

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