Conto | Sempre às três horas

Publicado em 15 de outubro de 2017 | Por Rodrigo Moraes | Contos, Envio do Leitor

  Clima agradável. Nevoeiro frio capaz de nos fazer sentir caricia na pele, o que vai lhe levar a lembrar dos carinhos que recebia quando criança por um pai que jamais teve. O tempo se encontra magicamente sombrio nesta época do ano, gosto disso. 

    Minhas caminhadas rotineiras durante a madrugada começam quando severas palpitações no meu coração mostram-se ferozes gritando em uma língua que eu jamais vou entender. Talvez seja um aviso, que não dou à mínima. Em dias assim costumo vestir um velho traje, meu casaco verde de tecido surrado que sempre me acompanha aquecendo o que parece ser um corpo moribundo, e caminho pelas ruas do meu bairro.

Todo o caminho pareceria morto e silencioso se não fosse pelo latido dos cães que parecem estar tramando algo, ou apenas tentando avisar sobre o que a escuridão da noite trazia quando até a lua se esconde atrás das nuvens. Sempre há orvalho por toda parte, na grama, nas flores de um jardim mal cuidado, onde vive um senhor de idade que não costuma fazer visitas corriqueiras ao mundo aqui fora. Gosto daquele lugar. Provoca minha fome por idealizações de um bom mistério sombrio em que o mocinho não sabe qual o final. Talvez seja essa a intenção do misterioso morador, tem noites em que noto os olhos por de trás das persianas acompanhando meus passos.

   Minha mão desengonçada e gentil busca por um cigarro no bolso direito do casaco, tomando cuidado para não amassar e estragar minha fonte de calor e levo a boca. Acendo o cigarro tragando a fumaça deixando que se misture a um resquício de uma bala de menta em minha boca.

As ruas estão silenciosas e até posso ouvir passos lentos e despreocupados atrás de mim, certamente mais uma pobre alma a vagar durante a hora morta. Viro-me lentamente me certificando da veracidade do que dizem meus sentidos, mas a única coisa que vejo é a velha casa caminhando para longe de mim. 

   A dois quarteirões de onde fica minha casa encontro ocasionalmente um homem, que porventura sempre está fumando um forte tabaco. A maneira de se vestir me faz repara-lo a metros antes de ultrapassar o fulano, seu trapo que deve chamar de vestes lhe cai bem. O que mais chama atenção é sua cartola tombada para frente, cobrindo seu rosto com maças pontudas e magras onde não está coberta por barba, barba negra como a madrugada na qual me encontro. Um detalhe chama atenção em sua cartola. Uma fotografia meio velha presa a uma fita, depois de tantas vezes passar em frente ao sujeito durando minhas caminhadas, consigo perceber que a gravura é de uma moça com o semblante delicado e feliz, talvez fosse sua esposa ou filha. Minha necessidade de resolver um mistério criado por mim mais uma vez me corrói por dentro, como uma abstinência de ópio. Em outras caminhadas talvez eu consiga entender o tal homem que ali fica nas horas mortas. Por fim prossigo com meus passos sem desviar o olhar do horizonte como se ninguém ali houvesse, talvez não tivesse na verdade.

     Meu cigarro já estava pela metade, retiro da boca e deixo que a fumaça deslize para fora como jovens boêmios saindo de uma danceteria. Dobro a esquina depois de três quarteirões e lá vejo mais um dos condenados vagando na madrugada fria. Uma moça que parece a espera de alguém, sempre verificando o relógio no pulso esquerdo. Tinha cabelos ondulados carmesins que refletia delicadamente a luz da lua que os tocava, pareciam retribuir o carinho da noite. Passei sem muito alarde por ela, pudera ela estar amedrontada devido à noite, e um sujeito como eu provavelmente deixava o cenário mais desagradável e sinistro. Sentiu calafrios, dobrou os braços tentando baixar os pelos ouriçados, como se minha passagem tivesse lhe trazido o frio sombrio da madrugada. 

     Sem notar o caminho que eu havia tomado chego novamente à rua em que o homem de cartola continuava a esperar, pelo quê? Não fazia ideia alguma. E mais uma vez meu gosto por resolver suspenses me esquenta. Dessa vez não estava mais cobrindo o rosto. Tinha os olhos fundos e cheios de olheira, a pele enrugada e oleosa passava um aspecto de réptil ou apenas de um vagabundo bêbado.

– Você tem horas ai, garoto? – O velho pergunta com um sorriso sarcástico no rosto. A voz parecia rachada e meio cansada, talvez fumasse e bebesse muito.

– Não. Mas lembro de ter saído pra caminhar por volta das três horas. Devem ser quase quatro. – Por um momento parei pra responder, mas logo voltei a caminhar.

O velho foi ficando para trás, desta vez notei que ele acompanhava meus passos e o sorriso estava lá estampado em seu rosto cansado e cadavérico. Tudo ficou negro e abafado, meu coração voltou a bater forte a ponto de fazê-lo doer. Por um momento achei que estava em um pesadelo até ouvir o barulho de terra na madeira, o som continuava, parecia ser de uma pá pegando terra e depois jogando em cima de uma caixa. Logo em seguida veio  uma risada rachada, era o homem que estava me enterrando vivo, meu desespero aumentava a medida em que a luzes que passavam pela brecha da caixa iam se apagando.  Então o homem para de rir e diz

– Relaxa garoto, amanhã deixo você sair pra passear de novo.


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Sobre o Autor

é só mais um pirata da internet apaixonado pelo genêro sci-fi e amante de contos de suspenses e terror. Estudante de engenharia elétrica e metido a escritor nas horas vagas.
Instagram: @patetapunk

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