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Conto – O Rastejador

Publicado em 31 de outubro de 2016 | Por Vinicius Lima | Contos, Envio do Leitor

O negro cobre a abóbada celeste. Hora para uma crônica.

Mas antes, tenho de fazer uma pergunta. Temos de fazer com que isso seja tão bom quanto pode. Você já sentiu medo do escuro?

Convenhamos, nós dois sabemos a resposta e quiçá até a justificativa. Minha questão o fez rir? Entendo se tenha feito. Por que motivo temer uma fantasia? Por que atravessar um corredor à noite receoso de bestas e visões do submundo?

Deixe-me falar. Além da luz fosca o incompreensível vem em camadas, e há mais de uma escuridão. Vocês, humanos, temem o desconhecido, mas até onde entendem o que significa temer o desconhecido? Um exemplo, a fim de entender as camadas que mencionei. Se você trafegar por uma rua baldia e ver alguns rapazes fazendo algo totalmente aleatório, você poderá achar estranho, cômico ou ficar desconfiado. Alerta. Note o contraste entre estes rapazes fazendo danças exageradas, ou o funeral de um bicho que de longe você sequer é capaz de discernir. São apenas exemplos; você não consegue entender o que diabos está acontecendo, e este é o alicerce de uma miscelânea imprevisível de emoções.

Você entende?

Você me entende?

Tem ocorrido uma certa… Inquietude, por aqui. Posso realmente culpá-los? Provavelmente não, mas é o que faço. Deus… Trancar a porta todas as noites por si só é uma inconveniência que eu não aceitaria a me submeter. Não que eu precise de um lar ou de mais sentimentos vãos. Para o serviço a que me condeno não existe necessidade de lar.

Chuva caía do céu condenado, produzindo um som serrilhado similar ao ruído das minhas presas esfregando-se uma nas outras enquanto trituram algo. A similaridade chega a me perturbar. Não deixo de lado nem sequer o mínimo desprazer; não faço o que faço sem motivos. Para mim, se há a menor oportunidade de causar dor e você escolher não tomar proveito, é uma forma de misericórdia.

Mas não vá achando que não me divirto. Faz-me rir a facilidade de assolá-los. Ódio é… Digamos assim, uma diversão tão inusitadamente imaculada. Uma atrocidade nunca falha em encher-me de júbilo. Se duvidas, é porque nunca sentistes. Não uma frustração banal, tolo. Falo de um sentimento pulverizante que faz seus dentes rangerem de vontade de estraçalhar carne, osso e alma.

Deixe-me esclarecer.

Ontem, minha vítima não sabia se gritava até rasgar os pulmões, o que tiraria o prazer de eu mesmo fazê-lo, ou rezava ao seu onipotente Deus. Enquanto eu rasgava pele, estripava fígado, vísceras, intestinos, útero, enterrava meus dentes em costela, bacia… Estilhaçava a vagina e devorava o que poderia ter se tornado um bebê, ela ainda teve coragem de murmurar “Deus”.

Jamais deixaria de alertá-la que tal Deus, da mesma exata maneira, devorei já há muito tempo. Se você me vislumbrasse com este seu par miserável de olhos, saberia que não seria perspicaz duvidar de mim. Ela não duvidou, e com corpo, fé e alma arruinadas, se tornou parte de mim.

Você daria essa misericórdia? Não?

Também sinto essa necessidade de realizá-lo de maneira, digamos, poética. Há em mim esse desejo bizarro de variar-me, pois sou assim como você, sapiente. Deram-me essa dádiva quando nasci.

Hoje irei clamar minha vítima. Atualmente o homem sequer hesitaria em responder o chamado; essa é a realidade da sua raça. Um murmúrio quieto e eles vêm até mim.

As ruas pavimentadas ficarão vazias. Tirarei o filho dos braços da mãe. Ele tem idade para entender o que está acontecendo, e isso que de fato chocará a genitora.

Eles tomaram meu alento há muito tempo atrás. Agora irei tomar o seu.

Eu sou o Rastejador da Noite. Olhe para cima, para as estrelas… Pois se olhar para frente, quiçá eu esteja lá.


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Arte de Capa: Martin Sandin

Sobre o Autor

Não sou um cantor

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