Conto – O parlamento da lua

Publicado em 29 de outubro de 2016 | Por Jan Santos | Contos, Envio do Leitor

Ela não o enxerga, mas sabe que Edgar está ali.

            A lua projeta anjos pelas janelas baças, uma cascata de prata que ilumina o espaço quieto. A poeira paira no ar e reflete a luz das estrelas, dando uma atmosfera de sonho e silêncio à biblioteca. Ou daria, não fosse a situação mais próxima de um pesadelo, e um que precisa acabar o quanto antes.

            As lágrimas incendeiam as bochechas magras, os lábios tentam sufocar o impulso arfante, isso já dura muito. Se pudesse ajoelhar, rezaria para que tudo não tivesse passado de um pesadelo, de fato. Rezaria para que nunca tivesse dito, vacilante, o “sim” derradeiro, entrado naquele cômodo e, com um “não” decidido, despertado o demônio que não sabia existir, que nunca tivesse cedido à sua fome e deixado tingir suas pernas com aquela cor blasfema, uma pasta sinistra que mistura inocência com o sal do pecador.

            Naquele momento, uma chaga se abriu das coxas à mente, um raio a quebrou em duas pessoas, uma tão escura e a outra tão transparente que se tornaram estranhas uma a outra, estranhas para si mesmas. E agora, tudo se resume a esses corredores, a essas paredes, a esses livros de couro pálido que guardam em si o folclore ancestral que Edgar tanto gosta.

            Ele está aqui, pode ver as pegadas espalhadas no chão, delineadas nos restos de memória que as casas antigas costumam acumular. Ela sabe… sabe, escuta-o expirar pelas tábuas do chão, em cada rangido de fresta que se desprende das paredes. O perigo está além da presença invisível de seu monstro, está na sombra que paira em seus pensamentos, nos sonhos que já não pode ter, nas marcas em suas costas das quais só ela e o fogo se recordam, cada uma com o nome de uma safra diferente.

            O coração dele está tão acelerado quanto o seu, pode escutá-lo pulsando em seus próprios tímpanos, uma marcha descompassada que explode a cada passo. Estaria ele na dobra da próxima estante? Na saída daquele corredor mal iluminado por um azul sepulcral? Edgar sempre fora bom em esconder o que quer que fosse: suas intenções, suas tendências e, mais que tudo, a si mesmo. Agora, dá-se a escuridão, mistura-se a ela, espreita através do manto da noite e da lua.

            As trevas beijaram a ambos: a ele, que as usa como camuflagem, fugindo para fazer os malefícios a que está acostumado, e a ela, enraizadas de tal forma em sua alma que escorre por cada fio de cabelo, por cada fio de tecido do vestido rasgado. As trevas cobrem-na, protegem-na como sempre fizeram, para que, desarmada contra o fogo do bicho-homem que a visitava no leito, contasse com seu abraço frio. As trevas beijam a ambos, mas só a ela devotou amor.

            E pelas trevas ela se arrasta, pelas trevas e o silêncio ela se move. Talvez sempre o fizera, mas agora sua vida depende disso. Os anjos que tocam as vidraças não a ajudarão, pois lhe sempre fora dito que assim é a natureza. Se os anjos são filhos da ordem natural, por que haveriam de permitir tal transgressão? Não lhe resta nada, não lhe resta refúgio ou amor, nada, apenas o que as trevas oferecem. Sua alma já foi partida, separada em duas facções assassinas que pouco desejam além da morte uma da outra. O que pode ser levado que já não tenha sido perdido?

            O fedor de mijo faz arder suas narinas, esse cheiro nefasto e profético que parece entranhado na pele do maldito, o cheiro que a fez abominar pedidos de clemência desde que tudo o que via no horizonte era o branco, não das nuvens, mas do travesseiro manchado. Que os serafins tenham piedade, que os silfos da tempestade ou o próprio Deus que comanda deuses e monstros escutem-na em sua agonia, que afastem a sombra de seus sonhos, afastem-na do gume da faca, elevem-na ao sétimo céu, onde nenhum diabo, que maldiga ou que crocite, possa alcançá-la.

            Cento e setenta silêncios ela engoliu, mais que o quíntuplo disso em sementes rezou para que não tocassem seu ventre, e agora jaz prostrada uma vez mais no chão áspero, rezando para qualquer coisa, rezando para a vara de incenso que ainda queima nos umbrais. Reza com as lágrimas queimando o rosto, com o cabelo negro grudado às bochechas, reza com o sangue que escorre pelos dedos.

            Reza, reza e implora, chora. Mas tudo o que escuta são os suspiros do demônio sonolento, os delírios do vento e nada mais.

            Em que canto, diabos? Em que dobra estaria o maldito, pronto a roubar o que lhe resta de pureza, de sanidade?  Oh Deus cruel, que protela a hora do julgamento… que Deus prezaria por tal justiça, a justiça dos cães que roem suas presas até o osso, e ainda ousaria chamar isso de justiça?

            Que a lua seja tua testemunha, que os astros presenciem o crime que lhe pesa no útero, que o busto de Palas sobre a estante lhe julgue como achar melhor, que as sendas infernais a recebam na morte mesmo que já tenha sido condenada em vida. Ouçais, espíritos da noite, ouçais o pedido da moça nessa hora, que, com uma mão, arranca do escuro o animal covarde, que rendido implora:

            – Não, Lenora!

            Com os cabelos e sedas negras sobre ele, o demônio obstinado ardendo em seus olhos e a lâmina sem cabo firme na mão direita, ela só lhe diz o seguinte:

            – Nunca mais.


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Sobre o Autor

é graduado em Letras – Língua e Literatura Portuguesa - pela Universidade Federal do Amazonas e atua como professor e revisor. É autor dos livros Evangeline – Relatos de um Mundo sem Luz (2013) e A Rainha de Maio (2016), e colaborador da antologia Quando a Selva Sussurra (2015).

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