Conto | A Vez da Colher e da Faca

Publicado em 11 de novembro de 2017 | Por Jan Santos | Contos, Folclore, Literatura

Vencedor do Desafio MAG de agosto.

 

O fervilhar do caldeirão sempre marcou a hora da bruxaria.

Não que isso signifique a mesma coisa que no Velho Mundo. Ela já viveu o suficiente para ver que o mundo muda, mas ela não.

Não mais, pois é velha, e o que não muda já não pode viver muito.

Chega então a vez da faca.

As raízes são espalhadas em pequenas tiras, cortadas de forma cirúrgica. A mangarataia, que no Velho Mundo é prima próxima da mandrágora, exala um aroma refrescante, enquanto o açafrão e a páprica lhe fazem companhia à panela em fervura.

O próximo trabalho do utensílio é menos brando. Os amazonenses chamam de cutia esse bichinho engraçado, e mesmo que não seja nenhum coelho branco, vai servir perfeitamente. Uma linha profunda do peito à barriga, e só puxar o tesouro vermelho.

As entranhas da criatura dão uma cor cerimonial ao conteúdo da poção, e as ervas ainda com a frescura da terra disfarçam o cheiro quase hediondo do sangue e das vísceras.

Durante o ano todo, ela sente falta desse cheiro. Sente falta, pois a lembra de uma saudade muito mais profunda: saudades de casa, saudades da mãe que lhe ensinara a Arte, saudades do amanhecer orvalhado, do ar úmido que exala da terra nas primeiras horas da manhã, quando saíam para caçar pequenas lebres e pássaros desavisados.

Saudades da época em que aprendeu que os deuses são criaturas famintas, e que sempre é preciso agradá-los.

Agora é a vez da colher.

Longa, feita de uma madeira antiga que na Paris dos Trópicos não cresce, ela usa essa varinha peculiar para mexer tudo o que foi se acumulando no fundo do caldeirão, todos os ingredientes aqui mencionados e aqueles que só ela sabe o nome.

Caules.

Pós.

Grãos.

Coisas que estavam vivas.

A colher une tudo em uma mistura que não faz distinção. Esta é a grande metáfora dos ciclos de vida e morte: o que estava vivo conhece a morte, e é por meio da morte que serve de alimento para a vida que procura sustento.

Eis a magia verdadeira.

As palavras antigas ela murmura em cânticos e rimas, uma canção baixinha que ronrona um idioma que ninguém entende. O vibrar de sua voz transforma o aroma em vapor, e, desenhando na mistura círculos com a colher, invoca lembranças mais recentes.

A primeira vez que chegou nestas terras.

A primeira vez que respirou o ar da floresta bruta.

A primeira vez que percebeu que o amazonense não lembra de seus deuses.

Ela lembra.

Mesmo que não sejam os dela, ela usa o produto da faca e da colher para honrá-los. Para que, assim como ela, não sejam esquecidos pelo tempo.

Alguém lembra. Alguém precisa lembrar.

Ela serve a mistura grossa em duas tigelas de cuia, e dando novamente vez à faca, tritura aquela ervinha amarga que cresce no vasinho no canto da pia, agradecendo à Rainha de Maio pelas coisas que, mesmo com o asfalto e o concreto, ainda crescem.

É madrugada do Dia de Todos os Santos, e as oferendas estão prontas.

Uma das tigelas ela deixa no fundo do quintal, para que os duendes de pés virados para trás e as fadas que se disfarçam de rasga-mortalhas saibam que não foram não esquecidas. Ainda não.

Ela, por sua vez, senta na cadeira de balanço, o assoalho de madeira rangendo, rompendo a solidão e o silêncio.

Com o caldo quente e salgado descendo goela abaixo, ela se sente partilhando da mesa dos antigos deuses, dos deuses desta terra e do deus dentro de si. O calor se espalha pelo corpo, e ela tem certeza de que mais um ano de vida lhe é garantido.

“Alegre-se”, ela escuta os deuses sussurrando-lhe à beira do sono. “Você não foi esquecida”.

Não, ainda não.

Capa: Print do vídeo Misting witch cauldron.


Sobre o Autor

é graduado em Letras – Língua e Literatura Portuguesa – pela Universidade Federal do Amazonas e atua como professor e revisor. É autor dos livros Evangeline – Relatos de um Mundo sem Luz (2013), A Rainha de Maio (2016) e O Dia em que Enterrei Miguel Arcanjo e outros contos de fadas (2017).

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