Conto – 13

Publicado em 30 de outubro de 2016 | Por Leila Plácido | Contos

Não existem muitas verdades universais dando sopa por aí é verdade. Aliás, mesmo as verdades universais podem ser refutáveis em algum momento não é mesmo?

Essas verdades, e as mentiras também, seguem envelhecendo conosco, o que quer dizer que todos estamos confinados nesse espaço universal restrito a geografia do planeta Terra e, explorando só um pouquinho o inimaginável e o imaginável também, é aqui que acabamos dividindo inconscientemente a nossa existência com coisas e seres muito além da nossa vã filosofia.

(Quiçá nem todos dividam esse espaço inconscientemente).

Fato é que entre o irreal e o real dizem que uma mentira contada mil vezes acaba se tornando realidade. Se é certo ou não é até comum se ver envolvido, para o próprio mal ou mal de terceiros, pela intrigante escuridão e pelas sombras que de algum modo emanam dela.

Ninguém é completamente bom. E uma informação importantíssima, caso não saiba, é que a escuridão e suas sombras estão sempre por perto a espreita, apenas aguardando um pequeno deslize para se mostrar.

Acabei descobrindo isso numa determinada tarde de outono, daquelas em que a sobrevivência é quem determina a saída da cama. Saí para os tons ocres que cobriam as ruas e para as temperaturas agradáveis da cidade. Nada demais, mas mesmo nas ilhas de calor o clima parecia deprimentemente agradável, o que naquelas circunstâncias era bizarro para meus padrões pouquíssimos refinados de quem aceita tudo o que vier desde que possa comer e ter um teto por mais um dia.

Quer dizer, o que nesse mundo pode ser deprimentemente agradável, consegue imaginar?

Eu consigo.

Além do outono, a minha condição é deprimentemente agradável. Saí de casa aos 16, consegui me graduar em serviço social apesar de todo sufoco, tenho um cargo que paga mal, mas que garante o pagamento do meu aluguel, me veste e coloca comida suficiente para que eu sobreviva, moro num pequeno apartamento que deve ser do tamanho do banheiro da suíte máster dos meus pais e deixei os laços consanguíneos para trás há cerca de 16 anos.

Me viro bem sozinho. Sempre me saí bem sozinho.

Na ocasião em que sai de casa, eu não estava em busca de respostas para perguntas não formuladas, não estava em busca de emoções juvenis e não estava caçando ilusões.

Lembro de meu pai gritando “sua bicha, não volte nunca mais aqui”. E também lembro de sentir aquela centelha de escuridão surgindo em algum lugar dentro de mim. Naquele momento eu apenas ignorei e olhei uma última vez para a minha mãe, que chorava como se fosse o funeral do único filho, embora tivesse parido quatro.

E lá estava ele, o outono, me envolvendo naquelas velhas lembranças que insistiam em tomar conta de mim.

As folhas deslizavam das árvores e encontravam o vento. Aqui e ali pequenos redemoinhos de poeira, folhas e vento dançavam nas ruas e nas calçadas. O céu era quase uma grande pintura abstrata em tons de cinza, ocre e alguns laranjas. O café da padaria da esquina era o mesmo: extra forte e amargo, do tipo concentra médico legista. As estudantes que passavam mostrando todas as cores de seus cabelos e as barras diminutas de suas saias (feitas com clipes) e seus sorrisos convidativos e levemente sonsos também eram as mesmas. Minhas críticas e crônicas mentais a caminho do prédio antiquado, decadente, fedorento e bolorento onde trabalhava também continuavam sendo as mesmas.

Provavelmente, o trabalho de campo daquele dia também seria o mesmo.

Não existiam possibilidades para assumir novas expectativas a respeito desse espaço geográfico com o qual já estava mais que familiarizado.

Não havia margem de aceitação e crença para deixar de lado o ceticismo já enraizado no meu todo particular desde muito tempo.

Recebi uma ligação vinda do prédio antiquado, decadente, fedorento e bolorento e o dia começou a ter sua reviravolta, a partir dali nada seria o mesmo.

Fiz sinal com a mão e como não tinha concorrência o táxi me atendeu. Abri a porta de trás, entrei, cumprimentei o motorista e ele sorriu profissionalmente. Não me era uma figura desconhecida, parecia familiar, mas quem sabe… a minha memória já não é a mesma faz alguns anos.

– Para onde senhor? – Perguntou a figura atrás do volante.

– O senhor conhece a comunidade de ex-moradores de rua que fica atrás do cemitério rural? – Respondi com outra pergunta.

– Sim senhor.

– Então é para lá que vamos e, por favor, pelos atalhos porque não tenho como pagar uma corrida muito cara. Quanto o senhor acha que dará a ida e a volta?

– Posso fazer por cento e vinte reais desde que não vá demorar por lá, já fiz outras corridas para o senhor, mas acho que não está lembrado.

Agora fazia sentido a familiaridade daquele rosto.

– Lhe agradeço. – Respondi com meu melhor sorriso profissional que tentava ao máximo esconder as nuances de “não me importo” que queriam sair das laterais dos lábios.

– Aquela região é linha vermelha né? O senhor me desculpe perguntar, mas porque vai para lá? O senhor sabe né, a gente pega de tudo e a curiosidade protege, dá cada livramento que o senhor nem imagina!

– Tudo bem! – Respondi ao homem. – Vou para aquelas bandas porque tenho trabalho a fazer, sou assistente social e como sou o único homem da minha repartição as áreas mais pesadas ficam por minha conta, apesar de que as meninas são muito mais corajosas que eu.

Verdade que eu não pretendia falar tanto assim, mas acabei desenrolando a língua e optei por sorrir.

– Nunca tinha visto um assistente social homem.

– É essa área é mais dominada pelas mulheres, mas os homens também atuam. – Saciei a curiosidade do cidadão.

– Então o senhor deve estar indo para lá por causa dos últimos assassinatos né?

– É sim, é por isso sim, mas não sou detetive. A minha parte é conversar e analisar a situação na qual eles estão vivendo, apesar do governo ter proporcionado aquela infraestrutura toda, eles ainda são muito carentes e ainda existem muitas dificuldades que não conseguiram vencer. Mas, estou falando muito.

– Não, não senhor. Eu gosto de conversar enquanto dirijo. Acho que é mau de taxista.

– Sou mais quieto, pelas outras corridas o senhor deve ter percebido. – E esbocei um sorriso.

– Sim senhor, percebi sim. Mas, camarada, o senhor não fica assustado não? Ali, além de ser atrás do cemitério, era área de desova, já encontraram gente morta de tudo quanto é jeito ali, desde gente desossada até gente enterrada de cabeça pra baixo. Eu não gosto de passar ali, mas como já meio que conheço o senhor vou lhe esperar porque as histórias daquele lugar são satânicas. Tenho um colega que falou que o pessoal dos despachos pro capeta vão tudo pro rumo de lá!

Não aguentei aquela situação e ri.

– Me desculpe pelo sorriso, eu lhe entendo é que não acredito nessas coisas. Para lhe ser sincero acredito mesmo é que o ser humano quando quer ser ruim, simplesmente é. Minha mãe sempre me dizia para ter mais cuidado com os vivos, os mortos estão mortos.

– A sua mãe é sábia, mas a gente tem que ter cuidado com os mortos também. Pra lhe ser sincero também, eu não posso dizer para ter cuidado com os mortos, mas posso lhe dizer que existem mesmo assombrações e eu acredito que são obra dos demônios. Nunca acreditei que quem vai dessa para o outro lado pode voltar, mas como o satã tem demônio em todo lado ele acaba sabendo das coisas e claro que ele usa contra a gente.

– Nunca fui religioso. – Respondi.

– Ah! Mas, eu também não era não. Eu mudei quando tive um desses encontros. O senhor sabe que taxista gosta de contar história e que o pessoal da praça mente tanto quanto pescador. Mas o que aconteceu comigo foi verdade, posso jurar pela minha vida pro senhor!

– Então conte, gosto de histórias de terror.

– Não é bem de terror, mas me fez entrar em coma por três dias.

– Conte logo homem, ainda temos alguns quilômetros à frente.

Então, pela primeira vez ele riu sem profissionalismo.

– Bom, era noite e eu estava na estrada do aeroporto e o senhor sabe que ali tem umas encruzilhadas bem movimentadas né, mas eu nunca dei atenção e já soube até de amigos que comeram os despachos. Enfim, uma senhora me parou, vestida a caráter e me pediu que a deixasse no centro perto da área da feira, ali beirando a orla. Eu deixei, ela me pagou e eu segui. Até ali tudo bem, porque como o senhor eu não acreditava em nada disso, pra mim tudo não passava de conversa fiada. Mas, comecei a sentir um frio que não posso lhe explicar de onde vinha, era um frio diferente, um frio daqueles que congela a espinhela. Comecei a ficar inquieto dentro carro e uma sensação de morte começou a tomar conta de mim, era como se estivesse cercado de maldade, de gente ruim, de escuridão. E acabei me lembrando que tinha uma moçada que fazia esses rituais pro satã também, quer dizer não tinha só gente ali fazendo ritual pra trazer de volta a pessoa amada, também tinha gente ali que queria a morte de outras pessoas ou fazer maldades que nem passam pela nossa cabeça. Mesmo assim eu segui a viagem porque precisava pagar a diária do carro.

Ele fez uma pausa, respirou e eu continuei um ouvinte atento.

– Num certo ponto, quando já estava a umas duas quadras da minha casa, olhei para o retrovisor e vi algo parecido com uma sombra, mas achei que era coisa da minha vista. Aquilo que estava no banco do passageiro não achou que eu era coisa da imaginação dele e aquela sensação de escuridão, de medo, de morte foi ficando mais forte e eu lhe juro que podia ouvir gritos dentro meu carro, o rádio começou a chiar como se estivesse com interferência, mas as vozes que saiam dele eram coisas horríveis como nos filmes de terror. Fiz uma coisa que nunca tinha feito antes, orei. Não deu muito jeito, mas consegui chegar na minha garagem. O que aconteceu foi que eu não consegui sair do carro, não consegui me mexer. Fico até arrepiado. Meus filhos e minha esposa tem sono pesado e já era tarde. Eu fiquei ali congelado. E meu senhor aquela coisa abriu a porta do meu carro e saiu, era todo sombra, só escuridão, não se movia da frente do meu carro, parecia que me encarava. Depois eu não lembro de muito, mas ainda posso lembrar que flutuou e veio direto na minha direção. Acordei três dias depois no hospital. Os médicos disseram que eu tinha tido um forte desgaste e falaram tantas outras coisas que ninguém entende, mas eu sei o que eu vi, eu sei o que aconteceu comigo.

– E depois? – Perguntei.

– Depois eu contei tudo pra minha esposa, ela é católica. A mulher me convenceu de que deveríamos falar com o padre e nós fomos falar com ele. O padre fez um interrogatório e sei lá como concluiu que eu não tinha sido possuído, mas que o capeta tinha feito uma tentativa. Passei a estudar sobre essas coisas. Nunca estudei nada na vida, mas aquilo me fez querer saber mais e me converti. Posso lhe assegurar que tem mais coisa estranha nesse mundo e mais coisa do que a gente consegue ver que areia na praia. Existe Deus e existe diabo também.

– Eu já acho que deus e diabo estão dentro de cada um de nós. Para mim a gente é responsável por nossas maldades e bondades.

– É patrão cada um crê naquilo que vê. Quem sabe um dia o senhor não enxerga.

Eu ri cordialmente e chegamos ao destino.

– O senhor quer que eu lhe espere ou posso pegar outra corrida aqui por perto e depois voltar?

– Pode ser. – Paguei a primeira parte da corrida e o motorista se foi.

A comunidade “Nova Chance” (o nome mais cretino que os responsáveis conseguiram pensar) ficava atrás do cemitério rural da cidade e era um conjunto habitacional voltado exclusivamente para os moradores de rua. Não era nada grandioso e também não era grande, abrigava cerca de 700 ex-moradores de rua e a ideia era que a medida que fossem conseguindo se restabelecer na vida fossem dando espaço para novos “desajustados” (palavras do secretário da pasta durante a reunião com a equipe da minha repartição).

A “Nova Chance” tinha saído do papel graças a pressão popular. Nem de longe o governo pensava nessas políticas públicas bondosas.

E lá estava eu incumbido de verificar como estavam todos depois dos dez assassinatos que haviam ocorrido em menos de dois meses. A polícia não tinha pistas e ninguém parecia se importar realmente, afinal aquelas pessoas ali eram o que o resto da sociedade não quer ver.

Informações que dessem uma possível mensuração do nível de qualidade de vida daquelas pessoas era o que buscava, apesar de já saber a resposta. Mas, precisava preencher formulários e tirar fotos, tudo pelos processos e pelo bom andamento da burocracia.

Três pavilhões de prédios de três andares e cinco apartamentos por cada corredor me aguardavam ansiosamente. Não quero parecer imbatível, mas eu fazia meu trabalho rápido e bem feito.

Tudo correu como esperado. Em menos de três horas eu já estava no último apartamento e as conclusões eram as mesmas que já imaginava: ninguém ali estava bem, todos estavam com muito medo, todos tinham certeza de que ninguém mais se importava se estavam sendo mortos ou não, nem todos tinham o que comer, nem todos conseguiram um trabalho, mas todos estavam se ajudando a se proteger e a passar pelo medo.

Mesmo chegando perto dos quinze anos de profissão nunca deixei de me sentir horrível pelos casos mais trágicos e também pelos menos trágicos, são todos pessoas como sou.

A tarde já estava lá no alto e o sol estava lá naquela região antes do centro do céu. Quase meio dia. Comecei minha caminhada para fora dali, iria me encontrar com o meu novo amigo na frente do cemitério rural, já estávamos combinados. Apesar do outono, o sol não estava de brincadeira.

Cheguei na frente dos portões do cemitério e as lápides modestas me encaravam. Era tudo muito modesto ali, nada parecido com o cemitério central da cidade, para onde todos os grandes figurões são direcionados quando a morte lhes bate a porta.

Ali naquele lugar estavam trabalhadores das redondezas, pais de família que enquanto vivos trabalharam arduamente sol a sol para colocar comida a mesa. Ali também estavam os indigentes, os sem teto e os sem família. Ali também estavam os ladrões, as prostitutas, os aviõezinhos e toda qualidade de detento que saiu vivo ou morto das penitenciárias.

Era basicamente um cemitério para os esquecidos. Eu não teria problemas em ir parar ali, afinal, a morte é a morte.

Sentei no banquinho da parada de ônibus bem em frente ao cemitério, acho que a uns três metros do portão, pelo menos essa comodidade…

O gentil senhor que havia aceitado me deixar pagar um valor a menos que a tabela deveria chegar em uma hora. Então puxei um livro da pasta e fui ler para passar as horas.

Nem reparei quando ela se aproximou de mim e sentou ao meu lado.

– Boa tarde!

– Boa tarde! – Respondi sem qualquer intenção de continuar a conversa.

– O senhor mora aqui?

– Não. Vim apenas para terminar um trabalho. – Respondi e calei.

– Ah! Eu estou aqui de passagem também. Algumas coisas pendentes para fazer. Não vai me perguntar?

– Desculpe moça, mas não sou tão curioso assim.

– Você deveria. – Ela disse rindo leve e estranhamente.

– Por que eu deveria?

– Porque está no lugar errado.

– E por que eu estaria?

– Veja bem, meu trabalho aqui é levar treze e não gostaria de leva-lo comigo porque tenho um público específico, quem me chamou foi claro e estabeleceu padrões, então só posso levar aqueles que não estão dentre os mais requisitados. Mas, estou tentada e curiosa porque ninguém ligaria se eu te levasse.

– E por que você me levaria para algum lugar?

Ri.

– Simples, quem me chamou precisa de dor e sofrimento para que seus pedidos sejam aceitos e você tem dor e sofrimento aí bastantes para eu considerar levar apenas você.

– Por acaso você está escrevendo algum livro ou coisa assim?

– Nosso livro já foi escrito há muito tempo. Talvez não seja macabro para você, mas foi escrito com sangue.

Gargalhei.

– Por que você ri? É um cético mesmo. No seu lugar eu não teria tanta certeza sobre sua lista de “não acredito”.

– Não tenho nenhuma lista assim.

– Ah não tem? Mas parece o contrário. Como a conversa está boa, já que você não está me implorando por sua vida e também está achando que é brincadeira eu vou continuar, me permiti?

– Sim vá em frente sou todo ouvidos, a leitura que eu fazia já estava tediosa.

– Também gosto de sarcasmo. Bom, até agora levei dez e me restam três, mas ainda não consegui me decidir, existem tantas almas atormentadas ali dentro. – Ela aponta na direção da “Nova Chance”. – Enfim, como os padrões de qualidade foram específicos não poderei te levar, o que é uma pena, mas não faltará oportunidade. Sua mãe tinha razão quando lhe disse para ter mais medo dos vivos, os seres humanos podem ser muito mais maléficos que meu chefe.

– Você é excelente atriz, faz chutes e improvisos bem precisos.

– Eu apenas sei. – Ela responde rindo e pela primeira vez me sinto arrepiar como nuca antes em toda a minha vida. – Já vi e ouvi muito mais do que você possa imaginar, mas sua mãe está certa, os homens não são dignos de misericórdia ou graça. Sei disso porque já possuí muitos e fiz coisas horríveis a mando de homens. Já tive reis, já tive mendigos, proselitistas e tantos outros. Até padres você acredita?

– E o que você é? Uma prostituta?

– Não, a prostituta são vocês. Eu vim muito antes disse, mas posso dizer que meu chefe tem parte nessa história. Você não está curioso para saber o porquê dos treze?

– Não, mas se você quer falar, então continue. Hoje, estou particularmente um bom ouvinte.

– Eu trabalho com situações bem amarradas, por exemplo, se vou possuir alguém, esse alguém já deve ser corrompido. Me poupa trabalho e mato dois coelhos numa única cajadada. Mas, ultimamente, fiz um favor aos céus, acabei entregando dez boas almas. Não sem antes fazê-las sentir a dor de cem homens. Era preciso. O lema é quanto mais sofrimento e violência, melhor!

– Posso perguntar em que você trabalha?

– Ah! Estava esperando, pensei que nunca fosse perguntar. Bom, para muitos o que eu faço é lenda, é folclore, é desculpa dos seres humanos para justificar seus atos, mas para mim é só trabalho, depois de milhares de anos já não questiono. Vou te mostrar e você escolhe o lado.

Ela me toca e numa fração de segundos sou tomado pela escuridão, o cheiro de sangue invade minhas narinas, o medo sobe pela coluna, congelo e sou levado as imagens daqueles corpos despedaçados nos campos de batalha, as torturas nos laboratórios e prisões secretas, cenas de crimes, loucuras humanas e, por fim, os corpos daquelas pessoas que ajudei. Ela diz:

– Hoje, estou bondosa. Você escolhe o lado. Não fique assim, agora eles já se foram (ela ri), mas você sabe… não sem uma boa dose de dor!

Meu novo amigo está parado atrás do volante e buzina com toda força que consegue. Saiu de mim.

Acordo e estou num ambiente desconhecido. É branco e parece estéril, tem cheiro de formol. Do meu braço direito pendem cânulas que parecem levar para minhas veias remédios e soro. Ouço o meu amigo.

– Ei parceiro você desmaiou. – Ele diz com voz tremula. – Você já está aqui há três dias, os médicos disseram que foi uma estafa muito forte e aquele outro monte de coisas que a gente não consegue entender você sabe. Mas, eu diria que agora você acredita. Não precisa me pagar a corrida, escolha o lado certo.

Ele segue em direção a porta e o sono me toma novamente.

Ouço uma voz feminina. É familiar. É minha mãe. Ela diz para a enfermeira:

– Dizem que uma mentira contada mil vezes se torna realidade. Eu menti para mim mesma mil vezes dizendo que meu filho estava de volta, parece que ele voltou.

A voz do que parece ser uma enfermeira pergunta se minha mãe quer que ligue a televisão. Minha mãe parece aceitar e a pessoa coloca no canal do noticiário, posso escutar a notícia e também as duas mulheres horrorizadas.

Foram treze mortos no total, mas a polícia pegou o assassino que ficou conhecido como o “assassino dos esquecidos”. O repórter informava que as vítimas foram usadas em rituais de magia negra como uma espécie de oferta para garantir a entrada de drogas pela fronteira. O ato brutal foi classificado como insano e as autoridades ainda seguiam as investigações para encontrar os demais cúmplices.

Aquela escuridão, porém, já não está mais ali. Mas, de algum jeito, eu sabia que ela não tinha ido por completo.

Então, ao que tudo indica, os céus e o inferno são reais. Escuto as orações da minha mãe e penso antes de dormir completamente: “Uma mentira contada mil vezes se torna realidade”.


Esta publicação foi enviada por uma Leitora.
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Sobre o Autor

é nascida no ano de 1986, passagem do cometa Halley, é formada em administração pela Uninorte Laureate International Universities. Atua como assessora de imprensa. Mantém o blog Palavra que Te Pariu, dedicado à publicação de poemas e ao universo literário, e o blog Leila's Galaxy, no qual publica contos, crônicas e fala da vida real e da vida imaginária. Foi vencedora da primeira edição do prêmio Aníbal Beça de poesia, do TCE Amazonas, com o poema "Esqueleto da Rosa". Lançou seu romance de estreia, “Quase o Fim”, na Bienal Internacional de São Paulo em 2016.

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