Como é a literatura surda?

Publicado em 27 de outubro de 2017 | Por Maria Cecília Costa | Literatura

Tudo parece muito natural. Uma criança cresce ouvindo historinhas contadas por seus pais, começa a ir para a escola e, lá, aprende a ir juntando as letrinhas. Pais e professores repetem exaustivamente os sons de cada combinação de letras e, depois de alguns anos, a criança começa a ler por conta própria. Agora tire todos os elementos sonoros do percurso descrito acima. Você já se perguntou como é a alfabetização e a literatura voltadas aos surdos?

A primeira instituição voltada para a educação de surdos foi o Collégio Nacional para Surdos-Mudos, inaugurado em meados do século 19, no Rio de Janeiro. Atualmente, o espaço é o Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines), referência de educação para surdos na América Latina. Segundo o IBGE, em 2010, o Brasil abrigava 9,7 milhões de pessoas com algum nível de surdez. Apesar disso, somente em 2002 a Língua Brasileira de Sinais (Libras) foi reconhecida oficialmente como língua.

Sobre a alfabetização

“Se você for se referir à pessoa, ela é surda. Eles preferem ser chamados assim. ‘surdo-mudo’ é um termo bastante ultrapassado que as pessoas insistem em usar. Já o termo ‘deficiente auditivo’ é clínico: mede a quantidade que se escuta, que não se escuta. As pessoas surdas não se diferenciam por isso”

Em entrevista ao Mapingua, a professora-mestra do curso de Letras–Libras da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Taísa Carvalho, esclarece: “A alfabetização acontece no mesmo processo que com o ouvinte, só que com línguas diferentes. Enquanto o ouvinte recebe alfabetização na língua portuguesa, o surdo recebe na língua de sinais e, logo em seguida, com a língua portuguesa. Ele é bilíngue”.

No entanto, segundo Taísa, são poucas as escolas que respeitam e compreendem a importância do ensino bilíngue e com profissionais capacitados para ensinar a Libras. Assim, alunos surdos acabam aprendendo a língua portuguesa escrita sem terem, de fato, aprendido sua língua materna. Além disso, é necessário que a família também participe do processo, aprendendo a língua e estimulando visualmente a criança surda.

Sobre a literatura

“Eu gostaria que os surdos tivessem acesso a toda a literatura. Que eles tivessem mais riqueza na forma da adaptação, da criação da literatura surda. A minha intenção é que eles tenham acesso à toda a literatura, não só a algumas obras”

Existem três maneiras de uma obra literária atingir o surdo. Obra pode ser traduzida da língua portuguesa para a língua de sinais e, assim, tornar-se um vídeo, mantendo a história original; obras também podem ser adaptadas, inserindo elementos da cultura surda que alteram a história original; e, por fim, obras literárias podem ser criadas dentro da própria literatura surda. “Na literatura surda, a Cinderela e o príncipe são surdos e se comunicavam pela língua de sinais. A língua de sinais é feita com as mãos, é por elas que há comunicação. Então, Cinderela não perde o sapatinho, e sim, as luvinhas”, exemplifica Taísa.

“Cinderela Surda” (2003) é o primeiro livro  publicado em língua de sinais no Brasil

Quando perguntada como elementos sonoros – como onomatopeias – são representados na literatura surda, a professora ressalta que esses elementos estão presentes também na forma como os sinais são reproduzidos: “Também existem sotaques e entonações na língua de sinais, só que é de forma diferenciada: não é na forma sonora, mas na forma visual”.

Caso você tenha se interessado por traduzir, adaptar ou criar alguma obra voltada ao público surdo, saiba que não é necessária uma formação acadêmica específica. “O importante é que se conheça a comunidade surda, que tenha contato com os surdos, pra que possa passar nessa adaptação a identidade e a cultura deles”, finaliza Taísa.

Mais informações e obras

Instituto Nacional de Educação de Surdos

Editora Arara-Azul

Fontes

Prof. Msc. Taísa Carvalho – Universidade Federal do Amazonas

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE – Censo 2010)

Instituto Nacional de Educação de Surdos

Editora da Ulbra

 


Sobre o Autor

é estudante do sexto período de Comunicação Social – Jornalismo da Universidade Federal do Amazonas. É líder do grupo de voluntariado social Nexa Amazonas, além de escrever para o blog do PETCom Ufam e colaborar para a revista Mundo Estranho. Apaixonada por literatura e cinema, não é nem tão cult, nem tão farofa quanto deveria ser.

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