1602 – O Universo Marvel na época de Shakespeare e escrito por Neil Gaiman

Publicado em 19 de fevereiro de 2016 | Por Thiago Henrik | Quadrinhos

Os maiores heróis da Marvel reimaginados pelo genial Neil Gaiman, com castelos, calabouços e ‘dragões’. Como não ler?

Atenção: os próximos 4 parágrafos são completamente inúteis.
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Antes de começarmos, tenho uma confissão a fazer: não sou um grande fã de quadrinhos (Comics). Desses que sabe o nome de todos os autores da Era de Prata da DC e lista de cabeça toda a formação dos Vingadores em 1992. Li Turma da Mônica quando criança e depois comecei a ler as HQ’s japonesas, quando Cavaleiros do Zodíaco foi lançado no Brasil pela Conrad, em 2000. Meus primeiros contatos com os heróis da Marvel e da DC foram através de outras mídias, como o desenho sensacional dos X-Men da década de 90, a série animada do Batman, os jogos de Super Nintendo, e os filmes e séries (de gosto duvidoso) da época, como Louis e Clark e, claro, The Flash.

Hoje, prefiro comprar Graphic Novels, não necessariamente de super-heróis, mas sempre com arcos fechados. Por tudo isso, quando saiu essa coleção da Salvat de Graphic Novels da Marvel, me interessei bastante! Era a minha chance de conhecer mais esse universo em histórias fechadas e selecionadas. Por falta de disciplina (e também de recursos financeiros) acabei não fazendo a coleção.

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Mas um belo dia, estava eu conversando com a equipe do Mapingua para acertar os detalhes do CarnaNerd e o Erlan, nosso Diretor Comercial, me solta essa: “A Almanaque vai oferecer uma HQ como prêmio (pro concurso de fantasia). Uma tal de 1600 e alguma coisa”. Meu coração deu um pulo. Será possível que era a Marvel 1602? Bem, era. E não me deixaram ficar com ela =[

Essa história foi publicada no Brasil em 2004, pela Panini, como minissérie em 4 edições. E foi uma das raríssimas HQ’s que atraíram meu interesse na época. O maior problema foi que eu não consegui comprar uma das edições, a número 3. Mais um motivo pra eu não gostar de comprar HQ’s seriadas… Ainda houve uma nova publicação em 2007, em uma edição de luxo, mas infelizmente eu não fiquei sabendo. Então acabei comprando, na Almanaque mesmo, a edição da Salvat.


Mas vamos à história: imagine que os heróis que conhecemos surgiram quatrocentos anos antes, na Europa. Com suas personalidades e super-poderes, mas inseridos no contexto histórico da caça-às-bruxas da terrível Inquisição Espanhola, em uma rede de intrigas e planos de assassinatos entre Reis e Nobres e no início da colonização da América.

Há algo estranho no ar e a sensação de que o mundo se encaminha para um fim. Alguns dos principais personagens da Marvel precisam resolver o mistério por trás desse eminente apocalipse, enquanto lidam com intrigas da corte da rainha Elizabeth. Nick Fury (Sir Nicholas) é responsável pela inteligência britânica, Doutor Estranho é o médico da rainha, Peter Parker (sem poderes) é um pajem e aprendiz de Fury e os Quatro Fantástickos estão aprisionados sob o castelo do conde Otto, o Formoso.

Na Espanha, um rapaz que nasceu com asas e que, por isso, está prestes a ser queimado na fogueira da Inquisição, é resgatado por um pequeno grupo de notáveis da Escola de Carlos Javier para Filhos da Sociedade, enraivecendo o Grande Inquisidor Enrique, que parece esconder um segredo.

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Enquanto isso, o menestrel irlandês e cego Matthew Murdoch é enviado com Natasha, uma das mulheres mais perigosas da Europa, em uma missão para encontrar uma antiga arma templária, que pode mudar o destino de todas as nações.

Pois é, o quadrinho é recheado de referências e reinterpretações dos heróis mais conhecidos da Marvel. Mas alguns dos mais famosos, como Wolverine, não aparecem. Isso tem um bom motivo: Gaiman queria contar uma história onde os primeiros heróis a surgirem seriam os que surgiram primeiro pra ele, ou seja, os dos quadrinhos que ele cresceu lendo, nos anos 60, antes de existir um Wolverine.

Achei que todos os heróis foram muito bem inseridos e nada me pareceu forçado ou deslocado. A mistura de ficção com história real foi muito bem feita, tanto que às vezes não tinha certeza se algum personagem era real ou inventado, como por exemplo a Virgínia Dare, a primeira criança nascida na colônia perdida de Roanoke, na América. Achei que podia ser alguma personagem muito obscura da Marvel (afinal, ela tem super-poderes), mas a menina existiu mesmo. Quantos aos outros, mesmo com as roupas da época e a fala pomposa, é possível reconhecer a essência de cada um deles, e acredito que essa seja a melhor parte da coisa, junto com alguns diálogos sensacionais.

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A trama principal é bem elaborada, mas Gaiman criou tantas sub-tramas e motivações para cada um dos personagens, que a história ficou curta demais pra contar tudo isso de forma satisfatória. E, sem querer entregar spoilers, quando a história se revela ser algo muito mais grandioso que as tramas políticas, saindo do mundano para o plano astral, bem, aí a história me perde um pouco. Não por ser ruim, mas por gosto pessoal mesmo: prefiro uma história bem contada em duas ruas de Hells Kitchen que uma guerra apocalíptica entre deuses no canto mais remoto do Universo, além do tempo e do espaço (não que isso aconteça nessa história). Os diálogos são cheios de metalinguagem e é primorosa a forma como o Gaiman faz um paralelo entre os acontecimentos da trama e o surgimento da própria Marvel.

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Essa edição traz algumas páginas ao final, onde o Gaiman fala um pouco sobre o processo. E por falar nisso, isso foi algo que me decepcionou nessa edição da Salvat: não tem praticamente nenhum material extra fora esse. As edições antigas que tem muito mais material, falando de cada personagem, falando do processo de desenhar as capas (de Scott McKowen, que faz um trabalho absolutamente incrível e único), do contexto histórico etc. A edição lançada depois, em 2007, trazia até o roteiro do Gaiman. Nisso essa edição perdeu alguns pontos.

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Ainda assim, pra conhecer a história, vale muito a pena. Além do mais, esse arco deu início a um universo 1602 da Marvel, onde outros autores já escreveram histórias explorando ainda mais os personagens reinventados por Gaiman, além de vários outros heróis que não haviam aparecido. Afinal, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.

Omnia mutantur, nos et mutamur in illis
Todas as coisas mudam, e nós mudamos com elas.


Esta publicação foi um oferecimento da Almanaque Bookstore & Café
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Sobre o Autor

veste Capa-e-Espada despojado, seus ̶h̶o̶b̶b̶i̶t̶s̶ hobbies favoritos são: filmes massa-velho, histórias de fantasia e séries sobre paradas estranhas. Já alcançou o 7º sentido, destruiu o Um Anel na Montanha da Perdição, chegou ao último andar da Torre Negra, retirou a espada da pedra e perdeu muitos pontos para a Grifinória. Gosta mais de cachorro que de gente, Não abre mão do segundo café da manhã e costuma esquecer que o mundo não está em seus livros e mapas. Instagram: @thiabolico

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